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CARTA AOS LEITORES

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O número 14 marca, na vida da Revista SER, o final de uma etapa e o início de outra.

Não por acaso, o elo de ligação entre estes dois momentos é a figura exponencial do Sr. Gurdjieff, cuja morte completou, em 2009, 60 anos. 

Neste número procuramos, principalmente, prestar uma homenagem a este mestre que, em nossa visão, revolucionou a vida espiritual do Ocidente, deixando um legado de valor incomensurável e que se revela sempre atual, sempre impactante. 

Um novo vigor e uma grande maturidade marcam os textos, as imagens e o design do número 14, recompensando o estímulo e a apreciação de nossos leitores.

 

Editorial - Comentário sobre o possível significado do termo “Karnak” no livro All and Everything.

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Comentário sobre o possível significado do termo “Karnak” no livro All and Everything.

Paulo A. S. Raful e Lauro de A. S. Raful

 

G. I. Gurdjieff escreveu o livro intitulado All and Everything de uma forma bastante rara, só encontrada nas grandes Escrituras da humanidade, pois o escreveu em uma linguagem simbólica, somada ao que alguns chamam de linguagem crepuscular, ou seja, uma linguagem cujo sentido está muito além do aparente.

 

Nas palavras que cria, tendo por base várias línguas que usa concomitantemente na composição delas, ele encobre significados e ensinamentos enriquecedores para os que buscam, de fato, compreender o seu próprio Ser. O intuito desse magnífico empenho é estimular o leitor a transcender o seu pensar linear, quase automático, limitado pelos condicionamentos de uma sociedade que vive em determinada época, para alçar voo na direção de um pensar mais vasto e mais alto.

 

Como exemplo do hermetismo de sua linguagem, vamos propor a interpretação da palavra “Karnak”, que no livro nomeia o veículo usado pelo personagem Belzebu para retornar ao seu lugar de origem, ou seja, para retornar ao Ser divino.

 

Em árabe, encontramos a palavra Khanak, mais modernamente transcrita como Khanaqah, que corresponde a Qanah, em hebraico e a Kana, em grego. Ora, a proximidade entre Khanak e Karnak é muito sugestiva1. Quando realizamos um aprofundamento simbólico em Khanak (árabe), Kana (grego) e Qanah (hebraico), chegamos a resultados muito interessantes para os que se dedicam ao trabalho interior. No episódio dos Evangelhos conhecido como As Bodas de Caná (Qanah ou Khanak), dá-se o primeiro milagre de Cristo, pois ele transmuta água em vinho2. No original grego dos Evangelhos a palavra usada é Kana. Podemos, pois, dizer que nesse episódio bíblico o significado simbólico da palavra Kana é o da transmutação do material em espiritual. Para os que fazem trabalho interior sério, haverá um refinamento do nível ordinário da consciência, conduzindo-a a uma crescente ampliação, elevando-a, dessa forma, a um patamar muito superior ao do nível comum da humanidade. É a transformação da água em vinho.

 

Além disso, a cena evangélica da transmutação acontece durante uma cerimônia de casamento. Segundo nosso ponto de vista, trata-se do casamento entre as duas naturezas do homem: a celeste e a terrestre. Isso está simbolizado nos seis recipientes utilizados durante a cerimônia. Lembremos que, para os pitagóricos, o número seis é o número da ALMA. A tradição hebraica simbolizou essa compreensão através da Estrela de David, um hexágono exibido da seguinte forma:

 

Neste símbolo, o triângulo com o vértice voltado para cima simboliza a nossa natureza celeste e o outro, a nossa natureza terrestre. A junção dos dois produz uma terceira realidade, neste caso a ALMA ou, em outras palavras, produz a sede de um sentimento profundo e de uma inteligência superior ao nosso mental discursivo, ou seja, um estado de consciência muito acima do mundano.

 

Mas temos ainda outras sugestões a fazer a respeito da palavra Karnak. Em hebraico, a palavra Qanah tem também o significado de curvar-se, de submeter-se, de buscar a humildade. Se tomarmos esse significado a partir da experiência meditativa, podemos dizer que é a entrega de nossa “persona social” ao Silêncio, à Paz, ao Contentamento, manifestações essas pertencentes aos planos superiores do nosso Ser. Fica claro que, simbolicamente, essa atitude pode adquirir o sentido de um casamento, de união entre nossas duas naturezas.

 

Para não prolongarmos este rápido comentário, queremos acrescentar que, na pesquisa etimológica da palavra Karnak, feita pelos alunos da Escola Gurdjieff São Paulo, Kar, em grego, a língua original dos Evangelhos, significa cabeça e arnos ou arneios significa aquilo que é da natureza do cordeiro, que é pacífico. Portanto, se aceitarmos a paz como algo que faz parte do mundo do sentimento, do peito, veremos unidos, na mesma palavra, a cabeça e o peito, ou seja, razão e sentimento.

 

G. I. Gurdjieff é um Mestre espiritual tão extraordinário que conseguiu reunir, em uma única palavra, o sentido essencial do trabalho interior.

 

Está longe de nossa pretensão oferecer a única leitura possível da palavra Karnak, tão essencial para compreensão do livro All and Everything. A nossa intenção aqui foi a de estimular uma reflexão corajosa a respeito do significado dessa palavra. Na verdade, o pensamento simbólico tem, como característica principal, inúmeros desdobramentos, pois a realidade de um fato é sempre um brilhante multifacetado.

 

Notas:

1 – Há mais duas aproximações óbvias da palavra Karnak: uma é Carnac, nome dado a um antigo templo situado na região da Bretanha, na França; outra é Karnak, nome dado a um conjunto de templos e palácio do Egito, no lugar onde se situava a antiga Tebas. Como G. I. Gurdjieff jamais é óbvio, escolhemos ir em direção à reflexão que expusemos acima. Outros pesquisadores, porém, poderão pensar de outra forma e chegar a resultados úteis e interessantes.

 

2 – João 2, 1-11.

 

ENTREVISTA COM PAULO RAFUL

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REVISTA SER: Neste número da revista, trouxemos quatro assuntos diversos para que você fale sobre cada um deles: o legado do Sr. Gurdjieff, a saúde, o emocional e a crise econômica que o mundo todo está vivendo. Isso é possível? 

PAULO: Sim, desde que fique claro que não vamos tratar desses assuntos de forma literária. Usaremos aqui uma linguagem informal. 

REVISTA SER: Em primeiro lugar gostaríamos que você falasse um pouco sobre o Sr. Gurdjieff. Afinal, no ano de 2009, fez 60 anos que ele faleceu e um dos objetivos deste número da revista SER é fazer uma homenagem a ele, falando de sua obra, do legado que nos deixou.

PAULO: O que me parece fundamental quando falamos sobre o Sr. Gurdjieff é sublinhar que sua figura parece ser altamente misteriosa se analisada sob um ponto de vista comum. Mas, se for olhada de forma mais ampla, fica saliente que o Sr. Gurdjieff é alguém que apareceu num dado momento histórico, para trazer o ensinamento primordial. Esse ensinamento, que aparece em diferentes momentos na história da humanidade, sempre existiu, mas assumiu diferentes formas. Apareceu sob a forma de budismo, de hinduísmo, de taoísmo, de islamismo, de cristianismo, de judaísmo, além de ter feito parte da tradição egípcia, da grega, e etc. Entendemos, pois, que existe um ensinamento único do qual o Sr. Gurdjieff é o maior representante. A existência dessa tradição milenar já aparecia na figura do Dagon e do Fo-hi que, na verdade, é uma variante do Dagon. Ele é, portanto, o representante de uma tradição primordial, que existiu muito antes das tradições judaica e grega.

REVISTA SER: Esse ensinamento teria surgido com a humanidade?

PAULO: Não, e aí entra uma dificuldade, porque esse assunto envolve um desenvolvimento, que não poderia ser feito agora. Na nossa forma de ver, o Sr. Gurdjieff vem para falar dessa tradição primordial, por isso, o que ele nos traz está na essência de todas as grandes religiões. Isso torna a sua figura mais misteriosa ainda, se formos indagar como ele teve acesso a esse tipo de conhecimento. A figura do Sr. Gurdjieff fica enorme quando percebemos que ele não é simplesmente alguém que tinha idéias interessantes, ou que inventou um sistema, como costuma fazer um filósofo comum. Na verdade, ele não é alguém que usa uma linguagem de cunho filosófico como, por exemplo, Descartes ou Kant. Ele traz idéias que vêm de outro plano. Evidentemente essa visão não é aceita pelo mundo acadêmico, para o qual seria absurdo falar num ensinamento primordial, que está acima de toda filosofia, de toda religião, de toda a ciência. Mas é essa a nossa visão.

REVISTA SER: Que influencia isso teve?

PAULO: Indubitavelmente, essas idéias influenciaram as religiões e o pensamento filosófico em diferentes épocas. Isso fica nítido em Pitágoras, em uma série de pré-socráticos e no próprio Platão. Essa é a nossa visão. Então, o Sr. Gurdjieff é uma figura enorme, não no sentido que as enciclopédias dão às pessoas. Elas o classificam como um filósofo russo, mas, na verdade, o Sr. Gurdjieff foi "um mensageiro do alto", ou seja, de outro nível de consciência. Isso não é difícil de compreender se fizermos uma analogia entre o estado de consciência do ser humano e o do animal. É evidente que o estado de consciência do ser humano é muito superior ao do animal; o estado de consciência do adulto é superior ao da criança. É nessa linha de analogia que podemos esclarecer o leitor sobre o que pode diferenciar o estado de consciência superior do estado de consciência de um filósofo, ou de um cientista, ou de alguém que é considerado "topo de carreira" na sociedade humana comum.  Feita essa introdução, não fica tão difícil perceber que o Sr. Gurdjieff tem o nível de consciência dos mensageiros.  Entendam bem que não o estou comparando a figuras consideradas seres supremos dentro das religiões, como é o caso de Jesus Cristo, Buda ou Maomé. Mas, com certeza, o nível de consciência do Sr. Gurdjieff pode ser considerado altíssimo. O que caracteriza todos esses "mensageiros do alto" é a influência ilimitada que exerceram sobre a humanidade. Vamos dar alguns exemplos: o cristianismo até hoje exerce sua influência sobre uma civilização inteira; o mesmo se dá com o judaísmo, com o budismo e etc. É muito difícil definir o grau de consciência de cada uma das grandes figuras que influenciaram grandemente a humanidade, mas podemos dizer que a influência do Sr. Gurdjieff é muito grande. De um ponto de vista mais objetivo, podemos ver a sua influência em uma série de autores de ciência, de filosofia, de psicologia, principalmente na Europa e nos Estados Unidos. Um dos propósitos do aparecimento de um mensageiro do alto é formar um núcleo interno de indivíduos que trabalham sobre si e que sobem na escala de consciência; outro propósito é beneficiar a humanidade como um todo. É isso precisamente o que se propõe fazer esta revista. A nossa escola, trabalhando com certo número de pessoas, pode fazê-las desenvolverem-se interiormente. Ao mesmo tempo, ela oferece informações que podem alavancar muito a compreensão dessas pessoas sobre o ser humano, mostrando-lhes o que é ser verdadeiramente humano diante da vida.

SER: Essas pessoas especiais, que vêm acrescentar algo ao mundo, que vêm trazer o Ensinamento, normalmente não conseguem atingir muita gente enquanto ainda estão vivas neste mundo, não é?

PAULO: Depende; isso não é bem verdade. Alguns desses mensageiros conseguiram afetar pouca gente de forma direta, ou seja, ainda em vida. O próprio Jesus Cristo afetou diretamente poucas pessoas; já Moisés influenciou um número grande de pessoas. Jesus, pelo menos aparentemente, trabalhou com um núcleo muito pequeno. Já o Mani varreu a Ásia inteira. Quando o Mani morreu, aos sessenta e poucos anos, tinha influenciado uma região enorme, que ia do Iraque até a China. Ele teve uma grande influência ainda em vida.

REVISTA SER: Então ele não levou nem quarenta anos para fazer muita coisa...

PAULO: Pois é, desde menino, o Mani manifestava-se como um mensageiro do alto. Já o Buda começou aos quarenta anos.

REVISTA SER: O Sr. Gurdjieff começou reunindo pessoas e ensinando de forma direta quando ainda vivia na Rússia. Pelo menos é isso que conhecemos de sua história inicial. Depois veio a revolução russa, e com um grupo já formado, ele teve de fugir. Vai, então, com esse grupo para a Europa e acaba se radicando em Paris. Vai aos Estados Unidos algumas vezes, no intuito de levar o seu Ensinamento. Gostaríamos que você nos esclarecesse como e por que ele acabou reunindo em torno de si pessoas que também eram especiais. Explico: ele atraiu um compositor importante na época, o Thomas de Hartmann; um escritor e jornalista da envergadura do Ouspensky e depois atraiu ainda Mme de Salzmann, que trabalhava maravilhosamente bem com dança.

PAULO: Isso entre outras coisas. Ela era uma mulher muito completa.

SER: É interessantíssima a capacidade do Sr. Gurdjieff de atrair as pessoas certas, que vão apoiá-lo e divulgar o seu trabalho. Depois teve o Orage nos Estados Unidos e tantos outros que foram importantes no sentido de seguirem e divulgarem o seu Ensinamento. O Sr. Gurdjieff só começou a escrever depois do acidente, se não me engano. Até a época do acidente ele estava formando as pessoas que o seguiram. Só depois que montou a escola do Prieuré é que começou de fato a sua influência em toda a Europa e nos Estados Unidos. Depois do acidente ele começou a escrever e isso também é muito interessante.

PAULO: Na verdade, todas as grandes figuras começam a procurar coadjuvantes qualificados. Isso é clássico. Só para vocês terem uma idéia, na China, os mestres taoístas faziam de tudo: passavam o Ensinamento de forma quase invisível, fantasiados de vendedores de ervas, ou como proprietários de albergue e restaurantes de estrada, porque ali circulavam inúmeras pessoas de todas as origens. Eles percorriam uma rota que varria toda a Ásia central, a famosa rota da seda: saiam da China e vinham parar no Oriente Médio. Tinham ocupações específicas e a de mercadores era uma das principais, porque lidavam com pessoas de várias origens. Eles paravam para conversar entre si, trocar experiências, e ainda pinçavam eventuais alunos, gente de qualidade. As pessoas, quando estão em trânsito, ficam mais abertas, mais dispostas a assimilarem algo novo, menos presas ao que já é conhecido. Há várias histórias de taoístas que procuravam alunos em lugares inusitados. Toda grande figura sai procurando coadjuvantes de alta qualidade. No livro Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido, de autoria do Ouspensky, o Sr. Gurdjieff trata desse assunto quando diz que ali, na Rússia, ele estava observando e procurando alunos de qualidade. O próprio Ouspensky, que foi seu aluno, não era um mero jornalista: ele tinha essa profissão, mas, fundamentalmente, era alguém que tinha uma busca espiritual importante. Ouspensky tinha sido secretário da Sociedade Teosófica de São Petersburgo; não era um jornalista qualquer. O Sr. Gurdjieff não pega o Ouspensky como um aluno que estava partindo da estaca zero: ele era uma figura importante dentro da Sociedade Teosófica, dos grandes ocultistas da Europa, e se comunicava com eles. É preciso, pois, formar um círculo interno que vai poder disseminar o Ensinamento para o círculo externo. O Sr. Gurdjieff fez isso. Há um mistério em relação a esses grandes mensageiros: quando um deles parece enfraquecer, e por um tempo quase desaparece, de repente volta a emergir. É sempre assim.

REVISTA SER: Foi o Sr. Ouspensky que procurou o Sr. Gurdjieff ou foi o Sr. Gurdjieff que o pinçou?

PAULO: Ouspensky foi convidado a assistir uma reunião de alunos do Sr. Gurdjieff.

REVISTA SER: Ele foi o discípulo mais importante do Sr. Gurdjieff?

PAULO: A importância do Ouspensky para a divulgação do Ensinamento é muito grande. Mme de Salzmann também teve uma importância enorme. Mas a maior parte das pessoas que se aproximou do Ensinamento o fez através do livro Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido, de autoria do Ouspensky. Nesse sentido, ele tem uma grande importância, e sem dúvida é uma figura enorme. Mas dizer que foi o discípulo mais importante do Sr. Gurdjieff é complicado. O que se pode dizer é que todas as figuras que foram “escolhidas”, por assim dizer, por um mensageiro vão exercer uma função muito importante para a divulgação do Ensinamento. Sem dúvida, a contribuição do Ouspensky é inestimável; a função que exerceu Mme de Salzmann também é inestimável. O próprio Orage exerceu uma função inestimável. Não dá para dizer quem é mais importante.

SER: Gostaria de saber se o Prieuré atingiu a meta para a qual foi criado.

PAULO: Não posso responder à sua questão pelo Sr. Gurdjieff, mas, no meu modo de ver, ele contemplou a possibilidade de fazer do Prieuré um espaço situado entre o mosteiro e a vida corrente. Veja: o Prieuré não era um mosteiro propriamente dito, uma vez que havia ali homens, mulheres e crianças, famílias inteiras. Por outro lado, as pessoas que estavam lá não tinham de trabalhar em alguma atividade que exigisse toda a sua energia. Ele tentou essa fórmula. Sem dúvida, houve ali questões de ordem prática, questões relacionadas com o dinheiro para manter aquelas pessoas. Os mosteiros no mundo todo vivem de doações e o Prieuré não escapou à regra. Pode ser que tenha chegado um momento em que o Sr. Gurdjieff foi obrigado a penhorar objetos, pois não tinha mais como sustentar aquele grupo tão grande de pessoas, que precisavam ser assistidas em suas necessidades básicas. O Prieuré não tinha a estrutura de um Kibutz, que gera receita. No meu entender, houve um momento em que ele percebeu que teria de fechar o Prieuré por ter-se tornado inviável sob o ponto de vista financeiro. Outra hipótese é a de ele ter treinado pessoas até chegarem ao ponto que ele queria. E essa hipótese não exclui a anterior. A probabilidade de isso ter ocorrido é grande, pois corresponde perfeitamente ao Quarto Caminho, que não tem uma forma definida. Dependendo das circunstâncias, o Quarto Caminho assume diferentes formas. É preciso sempre tentar novas fórmulas. Toda iniciativa do ser humano implica em muitas tentativas.

REVISTA SER: O processo é mais importante do que o resultado?

PAULO: Não obrigatoriamente. A iniciativa também visa resultado. Veja bem: ele levou os Movimentos para o grupo de Nova Iorque e o grupo está lá até hoje. O grupo da França também está lá. Então funcionou! A regra é a seguinte: toda iniciativa qualificada traz resultado. Muitas vezes não traz o resultado na mesma proporção que se imaginou, mas gera qualidade e, portanto, traz resultado.

REVISTA SER: E há sempre dissidentes pelo caminho. Quantas pessoas criticaram o. Sr. Gurdjieff, porque não compreenderam a grandeza do seu Ensinamento.

PAULO: Isso também é muito comum, a dissidência é inerente ao ser humano. Veja, por exemplo, dentro da própria igreja católica. É incrível ela ter mantido a sua unidade por dois mil anos, uma vez que as diferentes ordens brigaram entre si, perseguiram umas às outras. No budismo podemos constatar o mesmo fenômeno. Isso acontece porque as mesmas idéias podem ser vistas por diferentes ângulos.

REVISTA SER: Nossa segunda questão trata de algo de grande importância para todos nós: a saúde. Gostaríamos que você redefinisse o que é saúde, que nos ensinasse a conquistá-la e a mantê-la.

PAULO: O problema da saúde , quando se tem certos dados que a experiência interior traz, não fica tão complicado. Para abordarmos o assunto, temos sempre que voltar a algo que é considerado o Ensinamento básico, não só da escola gurdjieffiana, mas da tradição primordial. Ele aparece em todo mundo, só que de maneira extremamente acobertada, sob as formas mais estranhas. Mas o que todos os ensinamentos ligados à tradição primordial trazem é que a composição do homem é sempre tripartite: o homem é composto do seu físico, do seu processo pensante e do seu processo emocional. No seu ventre, localiza-se o processo vital; no seu cérebro, localiza-se o processo pensante e no seu peito, localiza-se o processo emocional. Podemos dizer, pois, que saúde significa não desperdiçar essas três energias básicas durante o funcionamento desses três processos que ocorrem no homem. Essa é a definição essencial de saúde. É claro que não se pretende tirar a enorme importância de toda a pesquisa médica e científica sobre as doenças. Respeitando todas as informações que a ciência traz, que têm uma importância enorme na cura das doenças, o princípio essencial para compreendermos bem o que significa ter saúde é de que somos compostos basicamente por uma forma e pela energia que a move. Podemos comparar isso a um fio elétrico: o fio em si corresponde ao corpo e a energia corresponde à energia elétrica que passa por ele. Isso de maneira bem elementar. Então, alguém é sadio quando respeita, conhece e sabe economizar essa energia que se divide em três. Vamos dar exemplos: a medicina e a observação direta nos mostram que uma pessoa extremamente estressada emocionalmente tem uma propensão enorme para uma série de doenças. Esse é um dos exemplos; não é o único. Isso não se dá apenas no plano emocional. Assim, é muito comum uma pessoa, cuja mente está constantemente preocupada com problemas de toda ordem, ter problemas de estômago; um terceiro exemplo, pouco citado, e que ocorre comumente entre pessoas do sexo masculino, é o de homens que enfraquecem a sua vitalidade por excesso de atividade sexual. Há também o caso de pessoas que desgastam excessivamente seu organismo por excesso de atividades físicas, por excesso de atividades esportivas. Vocês poderiam argumentar: mas tem atleta que vive até os noventa anos. Mas como ele vive? Como é que estão as suas articulações? Portanto, a idéia de saúde está centrada no que vou repetir: nós somos uma forma, que corresponde ao corpo físico, e somos a energia que o anima. Essa energia se divide em três grandes partes. Assim, você está mais próximo da saúde quando compreende esse fato e administra bem a sua energia. A forma com que cada um vai administrar a sua energia vai variar de indivíduo para indivíduo: alguns gastam mais energia mental, outros, mais energia emocional, outros ainda gastam mais energia vital. É preciso conhecer como funciona a sua própria energia, aprender a economizá-la e, na medida em que se conhecer melhor, aumentar essa energia. Não basta só economizar, é preciso aumentar essa energia.

REVISTA SER: O que acontece com uma pessoa que, durante a vida, só se dedicou ao corpo, que não exercitou sua mente e suas emoções?

PAULO: O que vocês estão trazendo agora já sofistica o problema da saúde. É importante compreender, num segundo momento, que saúde significa equilíbrio na atividade dos três processos. Suponhamos um indivíduo extremamente emocional e que vive até cem anos de idade. Isso não significa que tenha vivido com saúde. Isso porque, para nós, esse homem não tem saúde. Provavelmente todo o excesso em relação à atividade emocional reduziu a sua capacidade mental e o seu equilíbrio orgânico. Podemos, pois, dizer que um indivíduo é harmônico quando é capaz de pensar, sentir e se movimentar fisicamente mais ou menos na mesma proporção.

REVISTA SER: Relacionando essa sua colocação com a questão anterior, podemos dizer que o Sr. Gurdjieff deixou como legado uma série de instruções para trabalharmos harmonicamente os três processos, usando diferentes instrumentos. Ele deixou obras literárias que, para serem bem compreendidas, exigem um tremendo trabalho mental. No livro de sua autoria intitulado Do Todo e de Tudo, para conseguirmos chegar a alguma compreensão do que está sendo tratado ali, temos de fazer um grande esforço mental, senão não veremos o que ele esconde de grandioso por trás das palavras. Vira apenas um livro de ficção científica. Levando em conta a música que ele compôs em parceria com Thomas de Hartmann, podemos dizer que ela alimenta o nosso emocional maravilhosamente bem. Quando estou cansada, para relaxar o meu emocional, ouço a música dele, e sinto que ela coloca o meu emocional no colo. Então, nesse sentido, ele foi muito completo ao deixar uma obra que podemos usar como ferramenta para trabalharmos os nossos três processos.

PAULO: Dentro da própria estrutura que ele trabalhou no Prieuré, isso aparece com clareza. Os seus alunos trabalhavam em atividades físicas o dia inteiro; eles tinham sua música, que era usada para acompanhar os “Movimentos”; e também estudavam suas idéias. Trabalho interior é isto: é equilibrar essas três possibilidades do ser humano. E trabalhar interiormente gera saúde.

REVISTA SER: Percebo que o trabalho interior depende muito da saúde, ou seja, quanto mais saúde temos melhor é o nosso trabalho interior. Essa afirmação se justifica?

PAULO: Sim, se justifica pelo fato de sermos determinados pelas sensações que sentimos no nosso organismo. Uma companheira de vocês, aqui do grupo, usou a seguinte expressão: “Estou com uma dor no nervo ciático que me desmoraliza! Só fico na dor!” É claro que há pessoas que conseguem isolar-se da dor e ter um crescimento espiritual. Mas, para a média das pessoas que praticam, a dor limita o trabalho espiritual. Pegando essa questão por outro ângulo, constatamos que a dor serve para nos mostrar que o corpo não é permanente. Mas de modo geral, tendo em vista o dia-a-dia das pessoas, levando em conta o funcionamento do ser humano, a saúde é muito importante. Já houve quem se iluminou com a dor, mas depois levou anos para assimilar a própria experiência. A nosso ver, é o dia-a-dia que nos constrói como seres humanos de qualidade.

REVISTA SER: Quando você nos ofereceu essa fórmula mágica para equilibrar os nossos três poderes, pensei como as pessoas que não estão aqui no grupo fazendo trabalho interior, poderiam entender essa questão, uma vez que isso demanda a orientação de um instrutor.

PAULO: Um exemplo prático de equilíbrio é o da pessoa que nasce com muito vigor físico, e por isso, tem uma atividade física intensa. Como conseqüência, o seu organismo começa a pedir muito alimento, muito mais do que o da média das pessoas. Com o tempo essa pessoa fica gorda, com diabetes, dorme mal, porque come muito antes de se deitar. Enfim, seu organismo todo fica desequilibrado. Ela precisa olhar para isso e tentar se equilibrar.

REVISTA SER: Nesse sentido, posso dizer que o trabalho interior traz para o praticante a noção da justa medida. Isso porque, a partir do momento que percebemos com mais precisão as nossas sensações, fica claro a quantidade de alimento que precisamos ingerir numa refeição. Tem dias que eu preciso comer muito em uma única refeição. Depois passo dois ou três dias comendo muito pouco, porque não tenho necessidade de comer mais. Há um equilíbrio natural do organismo. Quando a gente não se alimenta por ansiedade, o organismo nos mostra qual é a justa medida.

PAULO: Você está falando da lei do equilíbrio, da justa medida, da lei da temperança. É ela que deve comandar a nossa saúde, e essa lei pode ser aplicada por qualquer pessoa.

REVISTA SER: Nossa terceira questão também é profunda, importantíssima, pois trata do nosso processo emocional, ou seja, de uma das partes da composição do ser humano. O nosso emocional é um desconhecido. Como falar sobre ele aos nossos leitores?

PAULO: Em primeiro lugar, temos de voltar à constituição tripartite do ser humano.  Eu não temo me tornar monótono, falando sobre ela mais uma vez, porque essa idéia de sermos formados por três partes é milenar. Vamos encontrá-la desde a época de Platão, quando se falava em anima racionalis, anima vegetativa e anima sensitiva. Aparece na Cabala, que usa a expressão Neshamah, para designar a alma superior, a expressão Ruach, para designar o ar, que é o sopro divino e corresponde ao emocional, e Nephesh, para designar a nossa parte vital. Como vocês podem ver, é sempre a mesma coisa. Então podemos nos perguntar: o que é a emoção? É a vida, é a energia que interage de uma maneira específica com o mundo. O mental também interage, o corpo interage, mas como é que a emoção interage? Ela sente medo, alegria, tristeza, ciúme, inveja, etc. Ela, portanto, sente.  Então ela registra esse tipo de realidade que o mental e o corpo não registram. O corpo registra prazer e dor, mas não registra tristeza, por exemplo. A emoção, por sua vez, não faz uma dedução matemática, porque não faz parte do campo dela; ela faz outro tipo de registro. Assim, cada uma das partes que compõem o ser humano é especializada em algum tipo de registro. Mas podemos constatar outra face da emoção que está contida na própria etimologia da palavra. EMOÇÃO significa “movimento para fora”. É a emoção que movimenta o sistema todo. Alguém que não tenha interesse emocional não se movimenta. Se o animal não tem medo, ele não sai da estrada. A palavra motivação está relacionada à emoção. O técnico esportivo tem de motivar a sua equipe, tem de tentar emocionar a sua equipe. O famoso estresse, tão usado na terminologia recente, é tensão emocional. É claro que pode haver estresse físico ou mental, mas geralmente, quando se diz que alguém está estressado, é porque ele está cansado emocionalmente. Emoção é uma energia sem a qual não é possível viver. O grande problema é que a massa das pessoas não dá atenção a ela. Ela não faz parte dos currículos escolares. Não existe nenhuma informação precisa sobre a emoção. Ela é a mais desprezada das nossas partes. E isso é uma pena, porque é ela que dá a liga entre os seres humanos. É claro que tem uma liga que parte de idéias, mas se não houver um sentimento, uma emoção calorosa entre as pessoas, elas se encontram e vão embora.

REVISTA SER: Em geral, almoço sozinha e fico ouvindo a conversa das pessoas à minha volta. E é incrível como a emoção está atrás de tudo que elas falam. Dizem: fulano me fez isso, fez aquilo, aconteceu isso ou deixou de acontecer. Fica claro que o emocional está por trás de toda a conversa, tentando se expressar, vir à tona. Mas existe sempre uma elaboração mental em cima de tudo o que falam. Isso me parece um absurdo, uma loucura!

PAULO: Na prática é bem como você está falando: é curioso notar que a parte emocional, a mais esquecida de nossas partes, é a que predomina.

REVISTA SER: Mas ela não é reconhecida.

PAULO: Não é reconhecida porque as pessoas têm uma enorme dificuldade para expressar suas emoções. Mas a emoção é uma das coisas que mais importa para as pessoas. Assim, se alguém estiver com raiva de você, mesmo que concorde com você intelectualmente, vai arranjar uma forma de agredi-la ou contrariá-la. Isso mostra como a emoção é preponderante. Por outro lado, se você gosta de uma pessoa, acaba relevando seus deslizes, mesmo quando ela está completamente errada. Resumindo: a emoção é uma de nossas três partes, a mais desprezada, desconhecida e ignorada, mas, ao mesmo tempo, é a parte que une. É, portanto, importantíssima. Não é possível um florescimento integral do ser sem um florescimento emocional.

REVISTA SER: Até o nosso desempenho no trabalho profissional está ligado a ela.

PAULO: Sem dúvida. É muito comum vermos na mídia relatos de pessoas bem sucedidas que se consideram “a pessoa mais feliz do mundo”, porque ganham dinheiro fazendo o que gostam. Então, simplificando, podemos dizer que o emocional está muito relacionado ao “gosto e não gosto”, e quando não se gosta de uma coisa, não tem jeito.

REVISTA SER: Existe um programa de televisão que é o maior sucesso, o BBB (Big Brother Brasil). Todos os chamados “reality shows”, como esse que acabo de citar, bem como as novelas têm um IBOPE muito alto. Parece-me que isso traduz a necessidade que as pessoas têm de viver emoções.

PAULO: É isso mesmo: filmes muito intelectuais, por exemplo, não dão boa bilheteria. É importante colocar aqui que a emoção está intimamente ligada ao mental e à vitalidade. Ela participa desses dois mundos.

REVISTA SER: Nosso último tema é a famosa crise econômica mundial. O que realmente significa uma crise desta proporção e como enfrentá-la?

PAULO: São duas perguntas diferentes. Para compreender um pouco esta crise, temos que ter em mente que a avaliação que os estudiosos do assunto fazem dela é bem horizontal. Isso porque ela faz parte do mundo horizontal, ou seja, da política e da economia. Mas nós temos obrigação de ir muito além do plano horizontal. Precisamos encará-la também do ponto de vista do trabalho interior. Para se compreender qualquer coisa no plano individual, ou da sociedade humana, ou do planeta, temos de buscar as leis que estão por trás de tudo. A natureza é o grande livro das leis e elas se aplicam a esta crise também. Na verdade, a crise começou a surgir em dezembro de 2007, mas estourou em meados de 2008. Aplica-se a ela a seguinte lei da natureza: quando há muita quantidade de uma coisa, vai haver um estouro em algum momento. Por exemplo: se há um excesso de chuva e uma barragem ficou cheia demais, se a chuva não parar e não se der vazão a ela, a água vai estourar a barragem.  Podemos observar essa lei em tudo. Pois bem, um dos fatores causadores da crise foi essa lei, pois havia um excesso de dinheiro que foi para os Estados Unidos e ficou na mão dos banqueiros. Isso aconteceu por vários motivos. Um deles foi que a China, tendo aumentado extraordinariamente as suas exportações nos últimos anos, tornou-se o maior comprador de títulos dos banqueiros americanos. Além disso, temos de lembrar que, quando o Hugo Chavez tomou o poder na Venezuela, o barril de petróleo custava nove dólares. Um pouco antes da crise, o barril já estava custando cento e quarenta e cinco dólares, o que fez com que não só a Venezuela, mas todos os países do Oriente Médio produtores de petróleo, começassem a ver entrar uma quantidade enorme de dinheiro em seus países. Temos ainda um terceiro fator, que foi a guerra no Iraque.  O que ocorre numa guerra? Aumenta a indústria de armamentos no mundo todo. Passamos então a ver muito dinheiro sobrando nas mãos de um número relativamente pequeno de pessoas ou grupos. E mesmo tendo gasto parte desse dinheiro, as pessoas começaram a querer investir o que sobrava. Então, uma fortuna incalculável, composta de trilhões de dólares, passou a ser investida nos Estados Unidos, porque é lá que se investe, e não na Coréia do Norte. Os banqueiros americanos, então, para segurar todo esse dinheiro no seu país, passaram a inventar produtos que fizessem render a aplicação desses investidores. Isso foi feito com muita sofisticação, porque o dinheiro tem vida própria, tem leis próprias. Bem, sabemos que os Estados Unidos têm uma população imensa que queria ter casa própria. Então ficou fácil para eles: financiaram casa própria para quem tinha e para quem não tinha dinheiro. E foi aí que aconteceu a crise. As pessoas que não tinham dinheiro para honrar seus compromissos começaram a deixar de pagar os bancos. Muitos se beneficiaram dessas transações, mas o sistema bancário desandou. A lei do excesso fica bem clara aí: houve um excesso de dinheiro em um único lugar.

REVISTA SER: E então é este o fundamento da questão: uma lei da natureza.

PAULO: Sim, e essa lei vale para todo tipo de energia. O dinheiro é uma energia, assim como a soja, o café, o petróleo, etc. Mas o dinheiro é uma energia muito mais abstrata que o feijão, por exemplo. Se eu preciso comer, compro feijão e de alguma maneira vou pagar o feijão que comprei. Em relação ao dinheiro, porém, a coisa funciona de um modo mais complexo. Certa vez, perguntou-se ao Lao Tsé qual era a base para se governar um país, para administrar bem uma sociedade e ele respondeu que a base estava em governar o indivíduo. O que significa isso? Voltamos de certa maneira ao começo de nosso diálogo, quando tratamos da saúde e da necessidade de harmonizar as nossas três partes.  O que está acontecendo é algo muito grave, pois está havendo um desequilíbrio total nas pessoas. Isso porque, quando elas atingem um patamar maior em termos financeiros, passam a querer consumir cada vez mais. Vêem o desenvolvimento da humanidade como sendo apenas a produção de bens e o PIB! Nesse sentido, o que aconteceu foi que começaram a produzir mais bens de consumo e criaram novas formas de fazer o dinheiro render, sem uma previsão do que poderia acontecer no futuro. Estamos claramente atravessando um momento em que os limites estão descontrolados. E isso não foi causado por essa crise em particular. Estamos vendo esse processo se acelerando há mais de cem anos. O próprio René Guénon já dizia: “Herdamos o reino da quantidade”. É preciso ter mais, mais e mais, porque há uma pressão enorme para se adquirir coisas. O que acontece, então? Extrai-se uma quantidade maior de matéria prima existente no planeta, para se produzir mais bens de consumo. As pessoas se tornam consumidoras cada vez mais vorazes e com isso viram emissoras de angústia. Fala-se tanto em emissão de gazes poluentes, mas quem mais polui são as pessoas emissoras de angústia. Elas passam o dia correndo atrás do prejuízo. Isso é muito preocupante. Há 30 ou 40 anos, se tínhamos um problema de saúde, procurávamos um médico na Santa Casa e ali resolvíamos o problema. Hoje é preciso ter um plano de saúde, para atender nossos problemas de saúde. Há, pois, uma pressão cada vez maior sobre o indivíduo, para que adquira coisas. Isso está produzindo um nervosismo, uma angústia enorme, uma infelicidade muito grande, que leva o indivíduo a querer mais coisas, para tentar compensar essa infelicidade. É essa a essência do problema. O que estou querendo dizer com isso? Que o gênesis dessa crise está no estado de consciência das pessoas. E isso é fácil de ser percebido: quando uma pessoa está contente, está bem na própria pele, ela necessita de menos coisas que as outras. Ela não deixa de precisar de algumas coisas, evidentemente, porque é um ser vivo. Ela não deixa de se alimentar, não perde o senso artístico, não perde o seu bom gosto, mas é muito menos voraz. Essa voracidade enorme que se está produzindo e que vem em um crescendo espantoso desde o início do século XX é um problema de consciência. Quem não tem trabalho interior não está percebendo que a causa da crise é uma tremenda insatisfação generalizada.

REVISTA SER: E como eu me defendo disso?

PAULO: Eu me defendo disso saindo desse estado de insatisfação, procurando, ao contrário, ficar em um estado de serenidade. Se faço isso, já crio uma tremenda proteção em torno de mim. Depois, a parte prática de lidar com a crise em termos de emprego, de trabalho profissional será resolvida a partir dessa serenidade interior. Nesse estado, vou poder resolver a questão da minha sobrevivência mais facilmente, porque fico mais inteligente, tenho mais disposição orgânica para trabalhar e, com certeza, vou encontrar novos rumos. Mas o diagnóstico fundamental é exatamente esse. Esse desequilíbrio da humanidade não começou agora, já se manifestava em 1929. É complicado prever como tudo isso vai acabar, mas podemos pegar um intervalo de 10, 20 ou 30 anos e fazer algumas previsões nítidas.

REVISTA SER: Uma crise também tem um lado positivo, não tem? Faz as pessoas se questionarem sobre o rumo de sua vida. Quando está tudo dando certo, todo mundo está ganhando bem, consumindo, viajando, comprando, muito raramente as pessoas se questionam sobre isso. Quando esta crise começou, vi várias pessoas, que se depararam com uma situação financeira grave, falarem: “Meu Deus, para onde está indo a minha vida?”  Será que existe alguma possibilidade de um maior número de pessoas iniciar uma busca espiritual por conta da crise?

PAULO: Não, eu já tive essa esperança, mas não acredito mais nessa possibilidade. Tenho tido aqui no grupo a seguinte experiência: as pessoas procuram algo aqui nos momentos de dificuldade, seja ela de ordem financeira ou amorosa. Quando resolvem o problema, somem! É bom deixar uma coisa bem clara: ou a pessoa nasce com a semente da busca interior ou não nasce. Sou bastante realista em relação a isso. Tive uma surpresa outro dia! Nos anos 20, no começo do século XX, emergiu com muita força nos Estados Unidos uma linha de pensamento positivo. Nessa linha, que tem um estoque literário muito interessante, encontramos belos textos de Ernest Holmes, por exemplo. Algumas pessoas fundaram toda uma igreja em torno disso. O movimento foi fantástico, tinha muita coisa interessante, mas as pessoas eram muito mentais. Eram simpáticas e a maior parte delas honestas, mas muito mentais. Fiquei surpreso na semana passada, quando um jornal qualquer em São Paulo, divulgou uma notícia de uma igreja baseada no Ernest Holmes. Na década de 40, o grupo de pessoas dessa linha de pensamento fazia muito sucesso! Nem o cinema fazia tanto sucesso quanto eles. Quando a situação mundial melhorou, sumiu todo mundo! E o jornalista escreveu o artigo como se essa igreja fosse um fenômeno novo, do qual ele nunca ouvira falar. Eram pessoas muito interessantes. Enfim, fiquei espantado, porque sei da popularidade que eles gozavam nos anos 20 e 30. Eram milhares, centenas de milhares de pessoas que, no entanto, sumiram, se dispersaram quando acabou o problema. Não podemos ter muita esperança. E é tão doloroso o que estamos falando! As pessoas não só não se aproximam para desenvolver o seu lado espiritual, como também não querem aprender a Ciência de Viver, que não é propriamente espiritual. A Ciência de Viver pertence ao plano do mental, do emocional, e do físico. Mas nem nesses planos o interesse delas aparece. Isso porque o indivíduo comum não tem o sentido da autotransformação, de querer fazer alguma coisa para se transformar, para ficar mais competente e lidar melhor com a vida. Podemos fazer aqui um paralelo com a pergunta de vocês sobre o campo da saúde. As pessoas não querem cuidar da saúde. Quando começamos com a idéia de difundir o sistema de Revitalização Integral, na minha fantasia, iria ter uma fila imensa de pessoas aqui na porta. Não, as pessoas não estão interessadas nisso. Dizem: “Eu vou fazer uma massagem em outro lugar”, ou “Eu vou ao médico, não tenho de cuidar dessas coisas pessoalmente”. Elas não têm idéia de que devem se empenhar nesse sentido, que é preciso fazer um trabalho pessoal no campo da saúde.

REVISTA SER: Talvez nunca lhes ocorra que seja precisa trabalhar em alguma coisa que não seja para ganhar dinheiro.

PAULO: As pessoas não têm o espírito do artista de circo, por exemplo, que dá um duro danado para desenvolver sua habilidade como malabarista, para andar na corda bamba, para fazer seus números de acrobacia. Voltemos à questão da crise: ela está ligada essencialmente ao estado de consciência das pessoas. Na guerra de 39, a população mundial girava em torno de dois bilhões e meio de pessoas. Não se passa de dois bilhões e meio para seis bilhões e meio de pessoas em quase setenta anos impunemente. Esse é um problema de velocidade, e a velocidade é uma projeção da consciência.  Por que estou falando isso? Porque sabemos que quando praticamos o recolhimento o tempo fica muito maior; não temos pressa! Voltando à segunda parte da pergunta: Como é que você se defende da crise? O Obama está dizendo às famílias americanas que não podem gastar mais do que ganham. E aqui está o ponto que eu queria abordar: frugalidade é o nome do jogo. Tente ser frugal! A pessoa que é frugal está por cima! Se dermos dez reais à pessoa frugal e dez à gastadora, a gastadora faz esse dinheiro virar uma dívida de trinta; já a frugal vai dar um jeito de guardar três ou quatro reais. A frugalidade é de suma importância para se enfrentar a crise. E também a criatividade. O que significa criatividade? Significa perguntar-se o tempo onde é que você teria a possibilidade de fazer dinheiro. Isso é criatividade! Você pode vencer as dificuldades sendo criativo, buscando idéias novas. Portanto, criatividade de um lado e frugalidade de outro. Quando se entende e se pratica essas duas atitudes, fica-se apto a enfrentar a crise. É preciso, pois, entender a lei básica que está por trás da crise, porque o que está por vir não é muito promissor: só se fala em produção e desenvolvimento! Não tem jeito! 

Entrevista com Lauro Raful

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REVISTA SER: A nossa primeira questão pode ser dividida em três partes: 

1ª - O que pode ser considerado uma verdadeira obra de arte?

2ª - O ser humano tem o direito de se chamar de criador e autor de alguma coisa?

3ª - Há divisões e gradações nas diversas formas de arte?

LAURO: Bom, podemos dizer que tudo que o homem faz é arte. Toda forma de expressão do ser humano é arte. Desde a mais remota antiguidade, desde a pré-história, quando as habilidades do homem e os instrumentos que usava eram ainda muito primitivos, ele já fazia arte.

SER: Tudo o que pintavam nas paredes das cavernas...

LAURO: Não só o que pintavam. Toda expressão do ser humano seja uma pintura, um objeto utilitário ou qualquer instrumento de trabalho é uma obra de arte. Como estamos acostumados a coexistir com tudo que existe à nossa volta, não percebemos que tudo teve de ser pensado, sentido e produzido. Tudo que o homem projetou é uma obra de arte. Os animais produzem coisas instintivamente, como um ninho, por exemplo, mas não têm o sentido de obra de arte.

SER: Um ninho de pássaro maravilhoso não é uma obra de arte?

LAURO: Não, não é uma obra de arte, porque é a natureza, no pássaro, que faz o ninho. Logo, não tem um sentimento envolvido na tarefa, nem uma intenção, nem um projeto por trás daquilo. O que caracteriza a obra de arte é a intenção que está por trás dela. Costumamos mistificar a idéia do artista, porque entendemos que só pode ser considerado artista aquele que faz, por exemplo, um desenho maravilhoso. Não! Um engenheiro que constrói um prédio não está fazendo uma obra de arte? É claro que sim! Precisamos nos acostumar a entender a obra de arte no sentido amplo da expressão, pois fica muito interessante pensar em arte dessa forma. Tudo que o homem criou pode ser considerado obra de arte! Por exemplo, o homem que inventou a forma de se fazer fogo: até isso pode ser considerado uma obra de arte, uma vez que o animal não faz fogo. O que dizer, então, da pessoa que inventou a roda? Sem dúvida, a roda é uma obra de arte!  Se não fosse ela como iríamos transportar as coisas? É, portanto é uma super obra de arte! Então, toda manifestação do ser humano é uma obra de arte, até mesmo uma exposição intelectual.

SER: Enfim, toda forma de expressão do ser humano. Uma arma é uma obra de arte?

LAURO: Uma arma é uma obra de arte. O problema está na utilização que se faz dela. Se alguém inventa uma bomba, está criando uma obra de arte. Agora o que irão fazer com ela, já é outro problema. Todo poema é uma obra de arte, mas um texto ruim também o é. Pode ser uma obra de arte que fracassou, mas é uma obra de arte. Um animal não consegue fazer essas coisas. O animal não consegue se expressar por palavras, por isso, tudo que se expressa através da fala é obra de arte. Isso amplia muito a idéia de obra de arte.

SER: Mas o ser humano tem o direito de se chamar de criador ou autor de alguma coisa?

LAURO: Vamos repetir aqui um velho chavão: o ser humano é sempre um canal de expressão. Um ser humano normal é canal de expressão de uma emoção, de um pensamento ou de uma sensação, ou seja, nossos três centros funcionais se manifestam como obras de arte, porque o ser humano normal está sempre criando algo através de um desses três centros.

SER: Mas os centros são instrumentos para se expressar algo que já existe ou é possível ao homem criar algo, ser o autor de alguma coisa?

LAURO: Eu posso me preparar para ser aquele que expressa melhor certas qualidades universais, digamos, mais inteligentes. Mas qualquer obra de arte que o ser humano fizer vai passar por um dos três canais. Agora, alguém que se auto-aperfeiçoa pode ser o canal de uma inteligência superior que se expressa por seus três centros. É como se ele fosse um bom diretor que une uma qualidade superior, que vem de níveis superiores do Universo, e casa essa qualidade com seus três centros.

SER: Por exemplo, a pessoa que criou a roda.

LAURO: Essa pessoa teve um insight.

SER: De algo que não é uma criação dele.

LAURO: Veio um insight de algo que provavelmente já existia nos níveis superiores do Universo e que se manifestou através daquele ser. Essa pessoa foi um canal hábil para aquela idéia se concretizar.

SER: O exemplo do fogo é muito bom, porque deixa claro que o homem não inventou o fogo, só viabilizou a sua existência.

LAURO: Ele só viabilizou o fato de se produzir fogo de certo jeito. O fogo é um elemento que já existia na natureza. Agora ficou claro: o fogo já existia, a idéia da roda também. E pensar que o ser humano precisou de milênios para inventar a roda, que hoje nos parece a coisa mais simples do mundo! Parece simples, mas se formos tentar produzir uma roda sem os instrumentos necessários, veremos como ela é complicada! O ser humano pode se preparar para ser um instrumento melhor, um instrumento mais refinado, para que idéias de qualidade possam chegar ao mundo, idéias que poderão ajudar a humanidade a funcionar melhor, a ter mais conforto, a facilitar a vida neste planeta. É claro que a roda facilitou enormemente a vida no planeta: sem ela não teríamos os meios de transporte que facilitam tanto a vida. Podemos dizer que as idéias existem em potencial no Universo, esperando encontrar um instrumento hábil para que possam se manifestar neste mundo. Existe uma inteligência superior que pode se manifestar através dos nossos três centros.

SER: Então quem cria mesmo é o Criador de todas as coisas?

LAURO: Sim, o Criador, mas podemos preparar-nos para captar a Sua criação. Por isso, antigamente, os homens de conhecimento não assinavam as obras de arte que produziam. Não fazia sentido assinar uma obra da qual eles foram apenas instrumentos de realização.

SER: Assinar o nome na obra de arte é manifestação do ego da pessoa?

LAURO: Em geral, tem muito ego envolvido quando se trata de obra de arte, mas, muitas vezes, é preciso dar nome às coisas. Por exemplo, uma escola do gabarito da escola gurdjieffiana: o nome do Sr. Gurdjieff teve de aparecer, ele teve de apresentar feitos para formar uma escola de trabalho interior. Nessa mesma linha de pensamento, podemos falar no Krishnamurti, por exemplo. Na verdade, todos os grandes mestres tiveram de apresentar um nome para aparecer. E nesses casos, não foi por questão de ego.

SER: Senão ninguém os levaria a sério.

LAURO: O nosso mundo precisa ter autores, mas temos de saber que as idéias não são nossas, elas chegam até nós. Não podemos nos apropriar delas. Quanto mais inteligente for o ser humano, inteligente no sentido amplo da palavra, menos autor de alguma coisa ele se julga.

SER: Quanto mais inteligente, mais capacitado estará para ser uma expressão de algo?

LAURO: Isso em qualquer campo! Mesmo no campo da propaganda! O homem não precisa ser apenas a expressão do mundo interior. Por exemplo, alguém que trabalha no mundo da propaganda e precisa fazer um bom trabalho, pode se abrir e ficar à espera de uma idéia. De repente, pode vir a idéia certa para aquele caso. Essa idéia veio de onde? Veio de um ideário que existe por aí...

SER: Ela vem do mesmo lugar do pensamento?

LAURO: Do mesmo lugar de onde se originam os pensamentos.

SER: Isso é tão verdadeiro que a gente vê nas artes e até mesmo nas ciências surgirem idéias iguais em diferentes lugares ao mesmo tempo, uma idéia que não existia antes. É como se algumas antenas captassem essas idéias. Muitas vezes temos a sensação de que níveis superiores de inteligência estão mandando alguma coisa que, naquele momento, tem um sentido para a humanidade.

LAURO: É claro que há exemplos mais evidentes, como, por exemplo, o que aconteceu com Leonardo da Vinci. Ele criou uma série de coisas que só se tornaram viáveis para a humanidade trezentos ou quatrocentos anos depois, como o helicóptero, o para- quedas, até mesmo a locomotiva.

SER: Há gradações nas diferentes formas de arte?

LAURO: Sim, é claro que há! Existe a arte do homem que não está em contato com esse mundo mais profundo de onde vem a grande inteligência. Então esse homem vai expressar sua subjetividade.

SER: Mas há também a questão do talento. Há pessoas que nasceram com talento para determinado tipo de coisas.

LAURO: Sim, alguns nasceram com talento para se expressar fisicamente, outros com talento para se expressar mentalmente, outros ainda com talento para se expressar emocionalmente, como quem faz uma pintura, por exemplo, que está mais associada ao mundo emocional.

SER: Talvez pelo canal mais aberto naquela pessoa?

LAURO: Talvez pelo canal mais desimpedido, mas ela pode não estar em contato com essa fonte profunda. Ou melhor, um pouco sempre estará, porque qualquer expressão do ser humano vem de algum contato com sua profundidade. A diferença é que esse contato pode ser mais ou menos cristalino. Quanto mais a pessoa tiver consciência de seu Eu profundo, que está ligado a esse mundo da inteligência superior, melhor ela expressará o que tiver de expressar. Muitas vezes a pessoa tem contato com o mundo superior, mas não tem o instrumento necessário para se manifestar concretamente neste mundo. Então, ela vai passar o que captou através de idéias, de palavras. Pode até mesmo existir alguém que tenha contato com esse mundo profundo, mas não tenha nem mesmo o dom da palavra; é simplesmente um contemplador. Então ele vai apenas irradiar a sua qualidade de ser através de sua expressão corporal ou facial.

SER: O Sr. Gurdjieff cunhou a expressão “arte objetiva” e em contrapartida colocou tudo o que normalmente chamamos de arte como sendo “arte subjetiva”. Você poderia nos explicar o significado dessas expressões e sua importância para uma verdadeira compreensão do papel do artista?

LAURO: A idéia de arte objetiva foi muito idealizada pelas pessoas que tentaram compreender o trabalho interior. Isso tornou a arte algo extremamente distante das pessoas comuns. O que seria, então, arte objetiva?  Seria a arte que tenta passar, através de muitas formas, a possibilidade que o homem tem de evoluir internamente. Isso é arte objetiva. É, portanto uma arte voltada para o crescimento interior do ser humano. Ela mostra que podemos crescer como seres humanos, não no sentido de nos tornarmos uma pessoa melhorzinha, como ensinam os livros de auto-ajuda, mas de podermos passar de um ser humano comum para um ser humano de alta qualidade. Essa alta qualidade aparece quando o homem se volta para o seu centro, para o seu verdadeiro Eu, para o seu Eu real.  Então arte objetiva é aquela que nos lembra de nossa conexão com o Divino. Ela está a serviço dessa lembrança. Podemos dizer que toda arte feita pelo ser humano que não está buscando entrar em contato com sua profundidade é subjetiva. Por quê? Porque ele vai expressar apenas os traumas ou as alegrias momentâneas daquela pessoa, sua depressão, seu furor, o amor que está vivendo naquele momento, ou seu desamor, e assim por diante. E tudo isso é subjetivo.

SER: Mas tem também o seu lugar, não é?

LAURO: Sim, tem o seu lugar. Mas é arte subjetiva, porque expressa o que está na cabeça daquela pessoa naquele momento, ou no seu mundo emocional, ou no seu mundo corporal, ou no seu mundo sexual.  Às vezes a obra de arte está apenas expressando um desejo sexual da pessoa que pode estar ou não sendo correspondido. Essa pessoa não está dizendo: “Olha o ser humano pode se transformar! Ele pode deixar de ser uma lagarta e virar uma borboleta”. Já a arte objetiva está dizendo: “Sim, você pode se transformar”! E dá indicações para prestarmos atenção ao nosso ser. Há muitas dessas indicações na belíssima pintura de Boticcelli, conhecida como “O Nascimento de Vênus”, uma verdadeira obra de arte objetiva. Essa obra nos dá indicações para o mundo do nosso sentimento, para a nossa parte sexual e para a nossa mente. Há indicações maravilhosas nas obras de Boticcelli! Nas obras de Paolo Uccello e Luca Giordano também. Há inúmeras obras de arte objetivas no mundo todo. Não são apenas as pirâmides do Egito, a Esfinge e as catedrais góticas que são obras de arte objetiva. Não podemos ficar só nisso. Nesse sentido, quando apresentamos as nossas histórias aqui no grupo, que falam do ser humano, da sua possibilidade de transformação, estamos fazendo arte objetiva. Quero desmistificar a idéia de arte objetiva, senão parece que foi algo feito pela humanidade no passado, mas que não se faz mais nos nossos dias. Mesmo contando piadas, podemos passar uma qualidade vinda de outro mundo, de uma inteligência superior que pode ser acessada pelo ser humano.

SER: Como as músicas feitas aqui.

LAURO: Quando se fala em uma das músicas compostas por pessoas daqui, na possibilidade, por exemplo, de se tocar o Jardim do Éden, está-se fazendo arte objetiva, pois as pessoas são tocadas no que têm de mais profundo. E mesmo que não percebam que se trata de arte objetiva, essa música toca as pessoas. O grande exemplo disso é a Mona Lisa, do Leonardo da Vinci. Ela toca as pessoas com o seu sorriso desconcertante, sorriso de beatitude. As estátuas de Buda também têm um sorriso do mesmo gênero do da Mona Lisa. Todas essas são formas de arte objetiva.

SER: Mas você está falando de obras de arte que têm uma escola por trás delas, uma escola que traz o conhecimento desse mundo interior. Por isso, produzem esse tipo de resultado, não é?

LAURO: Isso aprofunda a compreensão que estamos querendo passar. A arte objetiva tem um propósito por trás dela, o de passar a idéia de que podemos nos transformar. Ela passa todo um conhecimento sobre o ser humano. Ensina como o ser humano é composto. Na pintura “O Nascimento da Vênus”, do Boticcelli, estão sendo apontados os nossos três centros. Sem dúvida, há por trás dessa obra uma escola, querendo passar esse conhecimento. A arte objetiva nos conta que podemos entrar em contato com nosso Eu Real, com um mental superior e um sentimento superior.

SER: Que transcendem as pessoas que estão fazendo aquela obra.

LAURO: Sim, que transcendem o artista. Isso não significa que ele está completamente “desidentificado” do seu ego, mas que está fazendo um esforço para ficar vazio por dentro, para servir a uma qualidade superior de inteligência. Se preferir, pode chamar essa inteligência de Divino ou de Princípio Universal Superior, mas o importante é saber que temos como objetivo servir essa qualidade com conhecimento de causa. Então, a obra de arte vai falar das transformações que podemos sofrer, das fraquezas humanas que podem ser transformadas e erradicadas e assim por diante. Isso é arte objetiva.

SER: Existe a possibilidade de um artista, que não fez parte de uma escola de conhecimento, mas tem muita habilidade em alguma forma de expressão artística, como na pintura, por exemplo, ter executado obras que foram encomendadas por escolas de conhecimento interior?

LAURO: Segundo a compreensão que temos hoje, com exceção das obras de Leonardo da Vinci e de alguns poucos, muitas obras de arte objetiva foram executadas por grandes artistas que não tinham nenhum conhecimento interior, mas foram orientados por escolas de trabalho interior.

SER: O que caracteriza a transmissão do conhecimento do Divino através da arte? Como reconhecer essa qualidade em diversas manifestações artísticas, tais como arquitetura, pintura, escultura, música, dança, teatro e cinema?

LAURO: Antes de tudo, deve ficar claro que o que chamamos de Divino é uma possibilidade que existe dentro de cada um, na nossa profundidade, senão a idéia fica muito abstrata. A arte objetiva deve servir ao reconhecimento da verdadeira natureza do ser humano. A verdadeira arte objetiva me lembra que Eu Sou. Ela me faz compreender que não sou as minhas neuroses, as minhas raivas, os meus medos, as minhas pequenas alegrias, os meus filhos, a minha mulher, os meus negócios, nem este corpo que está fadado a perecer um dia. Não sou nada disso. A arte objetiva pode me lembrar que não sou nada disso, mas que estou nesse mundo. A arte que se vê atualmente, não mostra isso. A verdadeira arte objetiva pode tocar as pessoas em sua profundidade, pois pode trazer-lhe um sentimento de nostalgia de sua verdadeira natureza, do Eu Sou.

SER: Quantas pessoas já não olharam para o Boticcelli e sentiram isso!

LAURO: Tanto é que ele é endeusado como artista. Muitos dos grandes artistas da Renascença tiveram contato com diferentes escolas de trabalho interior. Por isso, são cultuados até hoje! Tornaram-se imortais, como é o caso do Leonardo da Vinci.

SER: Parece-me que a linguagem simbólica é fundamental na manifestação artística. De que forma o símbolo afeta diferentes tipos de homens? Há pessoas totalmente surdas a esse tipo de apelo? Ou todas são afetadas de alguma forma?

LAURO: Uma pessoa que está se auto-aperfeiçoando pode reconhecer em diferentes obras de artes o Ensinamento que está sendo passado ali. Talvez um mestre hindu não reconheça o que está sendo passado na obra do Boticcelli, por exemplo. Isso porque ele não teve o mesmo tipo de socialização que nós tivemos. Em vez de falarmos em educação, vamos falar em socialização. Há três coisas que determinam nosso modo de ver o mundo: a primeira é o nosso tipo astrológico, a segunda é nossa hereditariedade, ou seja, tudo que nos foi passado por nossos ancestrais, e a terceira é a socialização, ou seja, tudo que nos foi passado de alguma forma pela sociedade em que vivemos. Isso inclui professores, colegas, amigos, inimigos e desconhecidos. Todos eles nos socializaram de alguma forma. Esses três fatores formaram o nosso eu habitual. O que nos determina, então, é o tipo astrológico, a hereditariedade e a socialização. O nosso ego é composto por esses três fatores.  O tipo, portanto, também faz parte do ego. Existe um quarto fator, a Consciência, mas ela já não faz parte do nosso eu habitual. Voltando à sua pergunta, se devido a esses três fatores, você não souber nada a respeito da civilização egípcia antiga, vai olhar para as figuras egípcias e achar que o fato de as pessoas serem retratadas de lado é muito esquisito, e não vai perceber que aqueles desenhos constituem uma obra de arte objetiva.  Portanto, para se compreender uma obra de arte objetiva, é preciso conhecer um pouco da cultura do lugar onde ela foi produzida. Assim, para um chinês, a Mona Lisa pode não significar nada.

SER: Com a globalização, abriram-se mais canais para que um mestre hindu, por exemplo, tenha acesso à arte produzida em outras partes do mundo.

LAURO: Sim, mas para isso ele precisa se abrir, se universalizar; muitos mestres, a maioria deles, resistem a isso. Sabemos que os chineses são totalmente refratários a tudo que se produz no resto do mundo. Já os hindus são mais abertos. Precisamos nos reeducar para compreender outras tradições. Buscar a nossa profundidade, ir ao encontro do nosso Eu real e ao mesmo tempo aprender as manifestações dos diferentes povos é a chave para a compreensão de toda obra de arte objetiva.

SER: Em que medida o artista beneficia o seu próprio ser ao transmitir o conhecimento do Divino? E como ele pode treinar-se para sair um pouco de seu mundo pessoal, do mundo do seu ego, e atingir camadas mais finas do seu ser?

LAURO: Em primeiro lugar, o artista precisa ter um trabalho sobre si. Ele tem de estar buscando entrar em contato com seu Eu real, ou seja, tem de sair de sua subjetividade e entrar em contato com essa inteligência, essa emanação divina, que é o Eu real. Dentro do ser humano, o Eu real é o representante dos níveis mais profundos do Universo. Se o artista não busca isso, ele não vai se beneficiar tanto. Quanto mais consciente for a sua transmissão, mais ele vai se beneficiar, pois vai crescer em conhecimento, em amor em relação às outras pessoas. Amar é olhar para o outro, é considerar o outro. Geralmente queremos que o outro nos considere, portanto, queremos ser amados e não amar.

SER: E há uma complicação generalizada entre os artistas, principalmente os que ficaram famosos e ganharam muito dinheiro. Hoje, com a globalização, a fama percorre rapidamente o mundo inteiro. Por isso ela sobe à cabeça do artista, e o talento ou a contribuição que um dia foi sincera e, por isso, teve uma qualidade real, desaparece.

LAURO: Para sair disso, o artista tem de estar numa escola de trabalho interior séria. Temos de por de lado o nosso ego e deixar passar a luz do mundo do Eu real. O Eu real não depende de nada; ele não nasce, não morre, está sempre aí! O artista tem de se colocar de lado, o que não é difícil quando ele está em contato com sua profundidade. Assim como o peixe nadando no mar se pergunta onde está o mar, não percebemos que estamos dentro do nosso Eu real. Acreditamos que somos pequenos! Quando você entra em contato com o Eu real, o seu eu menor dá passagem, vai para o lugar dele. Ele tem de saber que é importante, mas é pequeno. E não tem nenhum demérito nisso, porque todos nós somos pequenos, não somos nada, da mesma forma que o maior homem do mundo não é nada.

SER: Seria o centro emocional o principal afetado pela obra de arte? E as outras partes de nosso ser, como são afetadas?

LAURO: Na verdade, a profundidade é que é afetada. É evidente que uma obra de arte dita “objetiva” deve tocar o emocional e o mental superior.  A obra de arte que provoca uma espécie de awe ─ um espanto, um temor a Deus, um assombro sem palavras ─ está tocando nossa profundidade, mas, em seguida, entra o nosso mental corriqueiro e tenta dar nome àquela impressão: “Oh! Que coisa linda, que coisa bem feita! Qual é o nome do artista?” Isso tudo é posterior ao awe, que significa assombro, respeito, reverência, admiração. As pessoas que assistem às nossas apresentações são tocadas não só no seu sentimento, mas também no corpo, pois aumentam a sua vitalidade. Elas saem amando mais! Algumas chegam aqui com raiva, com ódio e saem com o coração mais limpo, com o mental mais lúcido, mais criativo e com o corpo mais vigoroso, devido ao aumento de energias mais finas dentro do organismo. Portanto, não é só o centro emocional que é afetado.

SER: Eu estava assistindo a um filme de um diretor francês, bem construído do ponto de vista do mental, com certo vigor na movimentação física, mas faltava nele sentimento. Senti, então, que o filme foi-me incomodando até me causar uma profunda frustração. Saí de lá dizendo: “Que horror, que coisa ruim”!

LAURO: Isso prova que existe uma arte mental, uma arte emocional, uma arte física, uma arte sexual e uma arte instintiva. Podemos dizer que existem cinco tipos de arte. Mas existe uma arte objetiva, que junta todos esses tipos de arte. Já mencionamos aqui “O nascimento de Vênus”, quadro pintado por Boticcelli. Essa obra de arte é completa, porque traz sentimento, satisfação mental, satisfação física e também satisfação sexual, pois nos apresenta uma belíssima mulher (a Vênus) e um belo homem (representante do vento). A obra toda provoca um awe ─ um espanto ─, pois pertence ao mundo da consciência. Ela toca os cinco centros e a consciência. Isso é maravilhoso!

SER: O principal símbolo trazido pelo Sr. Gurdjieff, o eneagrama, pode ser considerado o suprassumo da obra de arte que leva ao conhecimento?

LAURO: O Sr. Gurdjieff nos trouxe o símbolo do eneagrama, mas ele existe desde a Antiguidade. É um símbolo universal, capaz de decifrar o Universo todo. Podemos considerá-lo uma obra de arte objetiva na medida em que nos ajuda a compreender o processo para se chegar ao Eu Real.

SER: Temos apresentado, aqui no grupo, histórias que transmitem o conhecimento do Divino. Hoje elas estão sendo difundidas para diversas partes do mundo, através da Internet. Seria essa forma de transmissão tão abrangente a ponto de espalhar a fina vibração do Divino pelo planeta?

LAURO: A Internet hoje está sendo fundamental para espalhar as idéias do conhecimento do Divino. É um recurso que ajuda a semear qualidade, dicas do trabalho interior. Temos hoje um manancial de indicações que são veiculadas via Internet.  O nosso site está ficando cada vez mais extenso. Temos nele um acervo enorme de conhecimento interior. A própria revista SER está sendo divulgada no mundo todo através da Internet. Evidentemente, se falássemos inglês, estaria sendo muito mais difundida, mas, se verificarmos o número de internautas existente nos países de língua portuguesa, constataremos que muitas pessoas estão tendo acesso a essa idéias. O grande canal de comunicação do mundo é a Internet. Todas as apresentações que fazemos aqui no grupo são filmadas para serem propagadas via Internet. Para nós, é muito gratificante saber que podemos difundir as idéias que ajudam o ser humano a entrar em contato com seu Eu real para um grande número de pessoas no mundo todo. Na verdade, quando uma delas é tocada por essas idéias, já estamos passando a influência do Divino. O Eu Real quer se apresentar para o mundo. Não é preciso forçar nada, mas temos de ficar cada vez mais hábeis em espalhar essas idéias. Sabemos que quantidade não é a coisa mais importante, mas queremos ajudar algumas pessoas a atravessarem as vicissitudes da vida com mais qualidade.

SER: Você começou essa entrevista de um jeito inédito, fazendo-nos entender que a idéia de arte é muito mais ampla do que imaginávamos. No sentido que você nos trouxe, cada fração de segundo da nossa vida é uma obra de arte. Estar vivo é a grande arte!

LAURO: Na apresentação de nossa penúltima história, foi trazida a seguinte frase a respeito de um dos personagens: “A partir desse dia, Fortunato praticou incessantemente a Arte de Viver, fazendo de sua própria vida uma grande obra de arte”. Temos de nos tornar suficientemente cristalinos para fazer de nossa vida uma obra de arte.

SER: O grande drama do ser humano é que ele está sempre desejando ser alguma coisa que está lá, no futuro. Na verdade, o momento presente é uma obra de arte. Cada ser humano é uma obra de arte completa, do princípio ao fim. Só que raramente pensamos dessa forma.

LAURO: É interessante o que você está falando, porque nos torna conscientes de que estamos dentro de uma obra de arte completa, do nosso corpo, que é uma obra de arte perfeita! Um carro do tipo Lamborghini, por exemplo, considerado como algo perfeito, é tosco, se formos compará-lo ao corpo humano. Então, podemos dizer que estamos dentro de uma obra de arte perfeita, produzida por uma inteligência superior, pelo Grande Artífice. Somos uma verdadeira obra de arte objetiva! A nossa tarefa, portanto, é preparar os nossos centros para que obedeçam ao Eu profundo. Ele sim é o suprassumo das obras de arte!

SER: É essa a fórmula?

LAURO: Sim, é essa a fórmula para a realização da Grande Obra de Arte! 

 

Entrevista com a Equipe de Música da Escola Gurdjieff São Paulo

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Carmem – A Escola Gurdjieff São Paulo possui várias atividades, várias formas de expressão — Meditação, Movimentos, Estudos de Textos, Revitalização, Depoimentos, as apresentações dos Contadores de Histórias, o I Ching, a revista e o site — todas estas ações têm um único objetivo: levar-nos a transcender nosso pequeno mundinho pessoal e tocar (mesmo que seja em pequenas gotas) um outro mundo, que tem muitos nomes, dentre eles o Mágico, o Milagroso, onde a aventura da vida humana adquire uma importância e uma profundidade únicas.

Hoje nós vamos falar dos Contadores de Histórias que atuam sob o comando de Lauro Raful e é formado por quatro contadores e uma equipe de música de aproximadamente dezoito pessoas. Esta equipe de música tem atualmente um núcleo fixo de cerca de seis pessoas e doze pessoas cambiáveis. Ela tem uma função muito importante nas apresentações porque a música, a serviço de algo maior, a serviço de algo que nos transcende, encontra seu verdadeiro objetivo e dá um colorido todo especial às apresentações. A arte de contar histórias existe há vários anos aqui na Escola, mas podemos dizer que foi a partir de 2005 que elas passaram a ter um cunho mais profissional, mais teatral.

Neste número da revista SER estamos homenageando o trabalho da Equipe de Música que é uma parte muito importante dos Contadores de Histórias e, para começar, pedimos ao Emiliano Patarra, que é o seu coordenador, seu líder, e que é também maestro de profissão, que nos conte como tudo começou e como foi se desenvolvendo até agora. 

Emiliano- O início do trabalho de música está ligado aos Movimentos. Quando a Escola

Gurdjieff recomeçou a fazer os Movimentos, foi por volta de 1999, nosso mestre Paulo Raful propôs que os acompanhamentos fossem feitos com percussão. Naquela época quem tocava era a Marta, que dava, sozinha, todo apoio rítmico e ela sempre dizia que “Seria legal trabalhar ritmo com alguém que conhecesse música, que pudesse ajudar no sentido de um aprofundamento maior”. Até que, no início de 2002, ela propôs mais uma vez e não me lembro exatamente como se chegou à idéia de que eu poderia realizar esse trabalho. O objetivo, no começo, era formar um grupo de pessoas interessadas no treinamento do ritmo para apoiar os Movimentos, que ocorriam sempre aos sábados.

Depois de um tempo este trabalho começou a florescer e o próprio Paulo propôs: “Seria interessante que vocês viessem tocar nos Movimentos, a partir de agora podemos contar com a participação deste grupo apoiando a parte musical”.

Então se instituiu que as pessoas vinham, treinavam e pesquisavam, e que o resultado deste trabalho seria aplicado nas classes de Movimentos.

Até que, em 2004, o Lauro Raful me procurou porque vocês iam contar uma história sobre os Baules (um grupo de místicos indianos conhecidos por se expressarem através de música e dança) — e ele queria canções inéditas para a apresentação. Já existiam as letras e nossa função era musicá-las e apresentá-las ao vivo durante o espetáculo. Tinha de ser a toque de caixa, com tudo pronto em três semanas... e, aí vem o detalhe, ele queria que eu compusesse as seis músicas, além de coordenar a apresentação, um desafio e tanto!

No mesmo instante, fiz uma sugestão: “Seria legal trabalhar com o grupo que já está tocando nos Movimentos, juntar uma coisa com a outra”. Ao que Lauro respondeu: “Maravilha, então pode ir em frente!” E no sábado seguinte quase matei o pessoal de susto com a notícia, mas eles entraram juntos de cabeça e de coração.

Carmem: Você compôs as seis músicas?

 

Emiliano: A minha atuação como compositor está ligada ao meu trabalho aqui na Escola. Então eu trouxe as seis músicas, na inspiração que eu pude ter, trouxe para todo mundo e a gente aprendeu e fez. Tinha muita percussão, era uma coisa muito desenfreada, frenética mesmo... O grupo de música tem essa característica mais expansiva, que o próprio Paulo já comentou uma vez, tem essa natureza um pouco espaçosa, não tem muito jeito.

 

Carmem- O grupo inicial tinha quantas pessoas?

 

Emiliano – A coisa girava em torno de umas 10 pessoas. Então, para finalizar, eu trouxe as músicas desta primeira apresentação. Não tinha nenhum instrumento tecnológico, tocávamos percussão e cantávamos todos juntos de uma maneira meio gritada, mas, mesmo assim, seguimos adiante... O fato é que funcionou e eu me lembro que chegamos todos juntos após a apresentação e falamos com vocês: “Olha essa idéia é muito legal, apóia bastante quem está contando a história, se possível, gostaríamos de colaborar sempre.” Desde então, passamos a integrar o grupo dos Contadores de Histórias. E com o tempo, com a repetição da experiência, a equipe de música foi se aprimorando. Daí por diante, eu trazia as músicas cada vez mais em um estágio embrionário. Então, uma idéia musical ou uma música pronta, que não se encaixava bem na letra, acabava sendo finalizada pelo próprio grupo e também construíamos o arranjo em conjunto. Na terceira história, já tivemos a idéia de colocar violão e adotar um estilo mais de canção. E, depois de algum tempo, começou a surgiu algo muito interessante: uma vocação nossa meio ligada à música brasileira, ritmos africanos, etc. A gente logo caiu no samba!... (risos) E o primeiro rock surgiu agora, em 2009.

 

Carmem- Acho que em todas as histórias rolou um samba...

 

Emiliano- É verdade, samba, xaxado, baião, forró, e aí com essa experiência de dar a finalização juntos, nos sentimos à vontade para, quando tocamos nas aulas de  Movimentos, tocarmos de improviso, sem ensaios. Com o tempo, passamos a reproduzir ritmos. Hoje, existe um interesse e um treinamento visando também entender como se escreve música ocidental, como é a grafia, o que é um compasso, conteúdos teóricos, etc. A idéia é que, nas aulas de Movimentos, podemos deixar que venha uma inspiração de uma instancia mais alta e nos colocarmos a serviço dela, tentando ser só um canal para que essa inspiração desça.

 

Quando a gente começou a fazer o trabalho ligado às histórias, a idéia foi fazer a mesma coisa no que se refere ao trabalho de composição. Começou a surgir à percepção de que a obra não é sua, que não foi você que a criou. A partir daí, gradativamente, a equipe  começou a criar mais coletivamente as músicas. Agora, isso é feito com a participação de todos. Hoje acontece um pouco de tudo: Tem momentos em que alguém chega de casa e diz: “Tive uma idéia”. E essa idéia é trabalhada pelo grupo. Às vezes, surgem várias idéias para uma única música... E, às vezes, a coisa acontece aqui mesmo: a gente vai cantando, vai mexendo e, de repente, vem uma inspiração que vai tomando forma aos poucos, de tal maneira, que não saberíamos dizer que é o autor. Nós estamos desenvolvendo um trabalho conjunto que nos permite escolher o melhor formato para uma composição. Quando um de nós não se identifica com uma determinada música, procura descobrir o motivo que está por trás desta posição: é uma questão de gosto pessoal ou um preconceito? Está faltando algo na música? Em alguns casos, decidimos descartar uma música inteira e começar tudo de novo.

Carmem- Nestes casos, como é que fica o ego da pessoa que teve sua composição jogada fora: ela tem vontade de se matar? 

 

Nana - Tem, muitas vezes.

 

Carmem- Ou tem vontade de matar todo mundo?

 

Emiliano- As vezes sim, as vezes não. Tem situações difíceis de lidar como quando gostamos do pedaço da música de um e do pedaço da música de outro. O que fazer? É possível juntar as duas numa só? Nunca fizemos uma votação, confiamos que as coisas acabarão se acertando.

 

Nana - Nós começamos fazendo a percussão, que era um trabalho um pouco mais grosseiro, vamos dizer assim, no sentido musical. Cada um fazia o seu batuque e o Emiliano tentava colocar tudo dentro de um ritmo. Nós fomos aprendendo como uma criança que começa engatinhando, depois fica de pé e finalmente sai andando. Eu me lembro que, antes de chegarmos a compor juntos, tivemos de aprender a ouvir uns aos outros. Depois disso, começamos a desenvolver a capacidade de improvisar dentro de uma certa escala musical. O Emiliano nos disse: “Para o improviso precisamos de uma base sobre a qual a música possa fluir”.

 

Com o tempo, fui transpondo este treinamento tanto para a vida aqui dentro da Escola como para a vida lá fora, no meu cotidiano. Refletia sobre estas questões: Primeiro é preciso se abrir para escutar, o passo seguinte é perceber onde está o centro, essa base sobre a qual é possível improvisar.

Uma fase muito legal aconteceu quando as pessoas começaram a criar, alguns ficavam na base criando ritmos, enquanto outros trabalhavam as melodias. Eu, particularmente, tive muita dificuldade nessa fase até conseguir participar do processo de criação. Mas, minha experiência mais forte é a percepção do ego atuando, tanto o meu como os dos outros. Na verdade, temos de sair do mundo individual, senão não conseguimos tocar juntos com harmonia e beleza.

Carmem- O que mais você conquistou nesse trajeto até hoje, tanto do ponto de vista de sua participação na equipe de música como em sua evolução pessoal?

 

Nana- Eu adquiri uma certa confiança. Não uma confiança em mim, mas uma confiança numa qualidade que surge quando nós estamos em grupo; há, de fato, uma qualidade que emerge quando nos reunimos para tocar nos Movimentos ou para compor as músicas das histórias. Essa qualidade emerge pelo fato de fazermos parte desta Escola e de estarmos juntos em torno de um objetivo. Aprendi que essa confiança não depende de mim, depende de entrarmos em uma outra sintonia. A partir daí, os erros não nos massacram e os acertos não nos tornam arrogantes. Essa miraculosa sintonia vem de outro lugar, não de nossas pessoas: aprendi que essa qualidade acaba surgindo e que eu posso, confiantemente, embarcar nela.

 

Paulo Mazzeo - Voltando um pouquinho na história que estamos recapitulando, gostaria de falar de minha experiência. No começo, eu tocava junto com a Marta, era simplesmente uma marcação de tempo, não era música. Então, começamos a trabalhar o ritmo com o Emiliano e fomos entrando em outro universo. Abriram-se possibilidades que nós nem imaginávamos! Aprender ritmo e a me expor mais foi difícil, já que eu nunca havia estudado música, nunca tinha tocado um instrumento. Estava indo tudo bem, comecei a evoluir e, de repente, chega o Emiliano e diz: “Agora nós vamos cantar”. E o bicho pegou de novo... Eu percebo que aqueles de nós que são mais atraídos pelo grupo de música não são os que têm mais facilidade, é justamente o contrário. Os que têm dificuldade para cantar, de alguma maneira, se apresentam aqui para trabalhar isso. A expressão cantada é difícil porque, além da questão técnica, trabalha diretamente o emocional. Batucar tudo bem, mas cantar...

 

Carmem – Nós percebemos, como parte da assistência e como apreciadores do trabalho de vocês, que uma coisa é cantar em conjunto; outra, é cantar um trecho sozinho. Juntos, uns sustentam os outros, o conjunto se impõe. Já fazendo um solo diante de uma platéia que está com a atenção voltada para você, sem desafinar, sem esquecer, sem errar, é muito difícil, não é mesmo?

 

Paulo - Tive de me lançar! Todo mundo aqui está sempre aceitando esses desafios.

 

Porque é um desafio pessoal muito grande...

Emiliano - Por alguma razão, que a gente pode pesquisar, o erro ligado à afinação afeta muito mais o emocional do que um erro no ritmo de uma música. Ninguém tem faniquitos se ocorre um desencontro. Agora, uma nota errada, uma nota desafinada, dá uma aflição desesperadora! Como disse o Mazzeo, o emocional é afetado muito mais no canto do que na forma de tocar. O mesmo desafio que a gente tem de trabalhar com o erro e aceitar, quer dizer, não se torturar internamente pela idéia do que o outro vai achar do que eu faço, a mesma coisa aparece de maneira muito forte quando a gente está cantando. Dessa maneira, somos obrigados a trabalhar sempre o medo: “O que os outros vão dizer? Como o meu trabalho vai aparecer, será que estou bem?”

 

Carmem - E os próprios companheiros também julgam, não é mesmo?

 

Paulo – Aqui no grupo de música tem um ambiente privilegiado. Sinto que existe um apoio muito grande entre os participantes.

 

Mariett - E tem uma espontaneidade também. Que é essa coisa aberta. Que você pode errar. Você corrige de novo e acerta. Essa espontaneidade é muito bonita, é diferente, por exemplo, de quando estamos assistindo uma palestra focados naquilo que vem de fora. Nesse momento, nós somos colaboradores, coadjuvantes, operadores, platéia, expectadores, e somos também os participantes, tudo ao mesmo tempo. É muito especial. Eu entrei na equipe na época das histórias do bufão, já existia nos meus colegas uma espontaneidade muito grande, uma afetividade, um acolhimento, que eu achava que vinha dessa experiência com a música. Era alguma coisa trabalhada ali,  consciente ou inconscientemente, e que me encantava, me maravilhava. Eu pensei: vou entrar nesse grupo, quero ver como é essa estória. E realmente é uma delícia porque nós podemos às vezes até nos bater, pois vemos os tipos, as características de cada um: os conciliadores, os exigentes, os impositivos, os molinhos. Tudo isso é trabalhado e, ao mesmo tempo, tem um carinho muito grande porque aflora o humano verdadeiro, você vê o ser humano no outro e em si mesmo.

 

Carmem - Porque é uma amostra do que está na vida.

 

Mariett - Sem dúvida. E falando em música, música é vibração, aqui cada um de nós está à procura daquela vibração que vem do Eu Profundo, de trazê-la para fora, para o público, para todo mundo, porque isso é muito alimentador.

 

Carmem – Como é que vocês vão ficando no transcorrer das apresentações? Atualmente são 4 ou 5 músicas em cada uma. A primeira música é sempre a mais difícil?

 

Eduardo – Temos a sorte de ouvir várias vezes a mesma história. Então, nós aproveitamos mais que muitos outros porque podemos perceber sutilezas, nuances, etc, que não são visíveis de imediato. Sou dos mais recentes aqui no grupo. Conversava com pessoas que faziam parte, ouvia os depoimentos deles valorizando a experiência, mas eu sempre achei que não tinha muito jeito para isso. Eu não tinha nenhuma formação musical e as pessoas brincavam que minha voz era de locutor de rádio. Eu achava que minha voz não daria para cantar nunca, meu sonho era outro. Mas eu também sentia o que a Mariett estava dizendo: tinha um ambiente aberto, acolhedor, em que era possível tentar, e, seja o que Deus quiser! Desde o principio foi assim e acho muito interessante participar de uma experiência prática de música. Podemos ouvir, dançar, mas, efetivamente cantar, poder participar ativamente da música é uma vivência diferente. E, com o tempo, fui me sentindo muito à vontade.

 

Carmem - Mas vocês não responderam minha pergunta: como funcionam no decorrer da história? A primeira música é a mais difícil?

 

Hélio - O Eduardo colocou muito bem, na verdade a cada história é um processo novo.

 

Isso tem sido possível porque nós nos organizamos da seguinte maneira: primeiro, Emiliano, Paulo e eu recebemos a história. Separamos as letras da história e compartilhamos entre nós, no sentido de na apresentação estarmos livres para ouvir o que vai ser contado. Hoje todo mundo recebe as letras das histórias e traz uma contribuição. É um processo muito interessante porque aparece muita coisa e a gente procura ver tudo, antes de descartar ou aproveitar. Depois de trabalharmos um pouco cada contribuição acabam surgindo algumas preferências, aquelas que achamos bonitas e tal, mas, ao final do processo, normalmente a que fica não é aquela que parecia a mais interessante. É um processo muito dinâmico de digestão do grupo onde ninguém sabe o que vai sair no final. Muito na linha do que disse a Nana, nós adquirimos essa confiança de estar no meio do processo e não ter nenhuma idéia das músicas completas. Aprendemos a ter calma confiando, que no final, tudo dará certo. (risos) A imagem que me vem é de amassar o barro até a obra ficar pronta. Às vezes, os mais ansiosos perguntam: já está pronto? E nós respondemos: ainda não, mas está caminhando...

E no final das contas chegamos nas apresentações dentro de uma unanimidade, cientes de que o resultado foi o melhor naquele momento. Às vezes, penso que poderíamos ter preparado um pouquinho mais aqui e ali, mas é o que foi possível, e, especialmente nas duas últimas histórias, nós nos sentimos plenos durante as apresentações.

Emiliano - Há uma diferença interessante em relação às apresentações nos últimos dois anos. No começo, como estávamos procurando um contato com a sensação do corpo para termos mais centralidade, mais eixo, cantávamos de olhos fechados. Ora, em uma das histórias, um dos expectadores aproximou-se de um companheiro da  Escola e disse: Que bonito esse coral dos cegos, que trabalho interessante de inclusão vocês fazem por aqui!... (risos)

 

De um tempo para cá, nós conseguimos uma outra energia para chegar nas apresentações, contribuindo para o espetáculo em geral. Agora, nós entramos com um vigor muito mais assertivo, independente de erros que possam acontecer, doando bastante energia para o espetáculo.

Como eu tenho um trabalho musical aqui dentro e fora daqui, como profissional, gostaria de traçar um paralelo entre as duas vivências. Existe uma coisa interessante e que é geral: “Cantar junto cria unidade entre as pessoas”. Entre músicos se comenta: “Os corais, em geral, são muito grudentos, são sempre um bloco”. É interessante ressaltar que um grupo de instrumentistas não costuma formar um bloco. Tocar junto não cria uma unidade. Cantar cria uma unidade impressionante. Não é por acaso que nas cerimônias religiosas se cantavam junto. Cantar junto liga as pessoas e conosco aconteceu isso.

Outra coisa interessante que sempre comentamos é a importância e a influência da Escola em nosso trabalho. Quando procuramos entrar em contato com a essência, buscar essa conexão descobrimos, encantados, possibilidades que considerávamos inviáveis.

Aqui dentro vejo acontecer momentos musicais que, se eu contasse para músicos profissionais, eles não acreditariam. Para eles é inadmissível que um grupo de amadores possa se juntar e compor músicas legais. Estes músicos diriam que, da união de pessoas inexperientes, surgirão apenas sugestões desconexas, inarticuladas, e não é verdade! E tocando é a mesma coisa, quando a gente começa a tocar percussão o nível de refinamento às vezes chega à sonoridades, combinações, climas, atmosferas, de um nível de sofisticação difícil de descrever.

Carmem – É o trabalho interior destas pessoas que torna possível este resultado?

 

Emiliano- Sim, tem  a ver com esse trabalho, tem a ver com o estofo que cada um traz para isso e tem a ver também com a persistência que essas pessoas conseguem ter. E que também é fruto do trabalho interior. O Lauro Raful sempre brinca que não somos profissionais e, realmente, não somos uma equipe de músicos profissionais mas todo sábado estamos juntos ensaiando, cantando, e, freqüentemente ensaiamos no meio da semana, no final das contas são cinco anos de encontros semanais! Isso vai criando uma conexão, vai ampliando a qualidade.

 

Carmem – Já contamos 16 histórias! O fato de recebermos tanto pessoas ligadas a uma busca interior (alunos da Escola) e pessoas que não tem nada a ver, que vêm nos conhecer, nos visitar, é interessantíssimo, porque somos instrumentos de algo maior que está sendo passado de alguma maneira para todos. E não temos a menor idéia do resultado, do que estas sementes vão gerar. Além disso, não podemos esquecer que a Escola tem um site e que estas histórias estão sendo filmadas aqui pelo Saul Nahmias e, depois, são colocadas no site e veiculadas para o mundo inteiro. Então, o conteúdo das histórias, juntamente com as músicas, estarão circulando por todos que compreendem o idioma português. E cada vez mais o conteúdo das histórias está sendo passado com uma magia muito mais ampliada por causa das músicas, por causa do trabalho de vocês, da participação de vocês. Isso é maravilhoso!

 

Guilherme – É uma grande honra participar de um grupo tão caloroso e poder se expressar. Então vem a pergunta: O que expressar? E quem vai se expressar através desse som, desse instrumento? Você aprende determinada técnica e em algum momento algo mágico acontece que o torna instrumento. E só por isso já vale tudo! Seja nas apresentações, seja nos Movimentos.

 

Claro que isso é um treino. Vamos treinando e, o que é lindo, de repente um de nós se destaca misteriosamente e toca o restante. Às vezes, uma música não está saindo e aí vem o silêncio e pum! Acenda uma chama e a coisa certa acontece seja batucando, seja cantando. Isso eu acho maravilhoso! É uma chance única que temos de deixar algo maior falar através da gente.

Ginetom – O Paulo falou em uma outra ocasião que nossa atividade já começou como um conjunto musical, não apenas um coral. E cresceu a ponto de tornar-se um departamento de trabalho interior. Nesse sentido, os integrantes devem ter essa experiência. Para mim, especialmente, tem sido uma coisa maravilhosa, um complemento de trabalho interior fortíssimo! Uma pauleira! Eu sempre busquei me integrar de corpo e alma naquilo que eu faço. Nós procuramos nos desvencilhar, em uma certa medida pelo menos, da influência da persona, do ego. É o sentido, o objetivo de nós estarmos aqui. E muitas vezes as letras que eu aprendia cantando transformavam-se em verdadeiros mantras. 

 

Carmem – Foi muito interessante acompanhar o seu percurso.  Quando você cantou pela primeira vez sozinho — era uma musica do Noel Rosa — ao lado do talento musical apareceu um autêntico humorista, um lado muito interessante. Foi um sucesso, todo mundo elogiou! Logo depois as coisas começaram a se complicar para você... O sucesso tem um lado difícil — eu também passei por isso — você tem de lidar com a expectativa de todos ao seu redor, com a cobrança sua e dos outros, e acaba tentando repetir o padrão que deu certo. Então, o que era uma delícia, o que era natural, o que era uma grande brincadeira, vira um verdadeiro inferno! Você começa a sofrer e a suar, e a se espremer todo para fazer aquilo que era tão solto, tão tranqüilo, tão natural.

 

Ginetom - Perfeito. Você fez uma descrição exata do que aconteceu comigo.

 

Nina – Sonhei que fazia percussão e cantava ao mesmo tempo, mas nunca imaginei que seria aqui.

 

Carmem - Você tocava sanfona?

 

Nina - Sim, desde criancinha. Mas era de um jeito bem careta.

 

Carmem - E você já tinha cantado?

 

Nina - Apenas esporadicamente. O fato é que eu gosto muito de música.

 

Carmem - Como é tua vivência na equipe? Você lida bem com o trabalho em grupo?

 

Nina - Sempre tive dificuldade porque às vezes eu extrapolo.

 

Carmem- Você surpreendeu todo mundo com aquela apresentação do Lauro sobre o amor. Você fez parte de uma dupla e cantou uma música famosa da Carmem Miranda, muito difícil, que era dançada, representada e cantada. Foi um deleite assistir a Nina enfrentando este desafio com muito humor, brincando, solta, se divertindo e divertindo todo mundo com um toque bem feminino. Nós mulheres nos sentimos muito bem representadas com sua apresentação e a da Cida.

 

Carmem – Os que assistem as apresentações normalmente não têm noção do esforço atrás do resultado, da contribuição individual e coletiva. Buscamos uma qualidade que nos transcende, que passa através de nós porque estamos treinando esta abertura, esta entrega, esta disponibilidade, este abrir mão de si mesmo para o outro poder brilhar. Duas frases, bem clichês, sempre me ajudaram a compreender o mistério do que chamamos arte e a me colocar de uma forma cada vez mais adequada e justa: “Todo mundo tem direito a um lugar ao sol” e “Eu não sou melhor nem pior do que ninguém”.

 

Mariet – Enquanto você falava me veio à lembrança um momento que foi muito forte para nossa equipe, uma noite em que a platéia nos aplaudiu de pé. Após a apresentação, o Paulo Raful comentou: “Vocês são amas de leite porque estão amamentando o emocional das pessoas”. Eu senti uma responsabilidade muito grande e ao mesmo tempo um prazer imenso com isso. Valeu o que nós estamos fazendo, valeu esse trabalho todo, valeu vir em um sábado a tarde deixando família, neto, namorado... se verteu leite em alguém então temos o que dar, o que doar.

 

Helio – Nós reiteramos o convite a quem estiver interessado em abordar música com o apoio do trabalho interior. Não é necessário ter conhecimento teórico. Tudo que nós usamos de conhecimento teórico o Emiliano nos dá.

 

Emiliano - E uma coisa importante é que todos os níveis de participação são aceitos. Quer dizer, tem gente que vem e diz: - Nesse semestre não vou poder, esse momento estou precisando de um tempo para outra coisa. Depois volta. Tem gente que não participa dos Movimentos, só vem para as histórias. Mesmo durante as histórias a gente procurou deixar livre para os vários tipos de participação dentro da realidade de cada um, dentro do interesse, mas também dentro do cotidiano de cada um, o que dá para fazer, o que não dá para fazer. Quer dizer que não é um pacote fechado que você embarca em tudo ou não embarca em nada. Existe uma flexibilidade, uma circulação natural.

 

Nana - Porque tem uma base formada pelos participantes contínuos que participam de tudo em torno da qual é possível a flutuação de outras pessoas. A gente demorou um tempo para aceitar essa flutuação, pelo menos eu.

 

Carmem - Eu até hoje tenho essa dificuldade...

 

Helio - Ela é inerente ao nosso tipo de trabalho. O trabalho corriqueiro, rotineiro, que acontece todos os sábados.

 

Emiliano – Vamos ser bem claros: é óbvio que quem está mais regularmente, que está investindo mais obtém mais resultados. É óbvio que existe um progresso técnico que quem não está regularmente não alcança e que pode, eventualmente, até prejudicar o resultado final. Isso é verdade. Nós acabamos optando por correr este risco pois sabemos que para muitos de nós só o fato de vir experimentar já é um grande passo. Então foi uma questão de assumir uma perda para poder ter um outro ganho. Preferimos administrar o desgaste deste vai e vem para que as pessoas se sentissem à vontade em vir até aqui para cantar um pouco. Por muito tempo nós pensamos em como formatar nosso trabalho e acabamos achando que assim era o melhor jeito. As pessoas muitas vezes tem muito medo ligado a musica. Acham que não vão conseguir e que não são capazes. E isso não é verdade, é uma pena. Nosso formato sempre aberto tenta minimizar esse entrave e também como o Helio falou, a vida de cada um muda. Por outro lado sábado é um dia em que as pessoas dedicam à família mas, ao mesmo tempo, é o dia que a gente tem mais tempo para trabalhar. E esse tipo de trabalho exige um certo mergulho. Nos outros dias da semana não temos tempo nem energia. Além do mais, sábado é o dia dos Movimentos, berço de nosso trabalho. Então para nós é muito benéfico trabalhar música embalados por duas ou três horas de Movimento, numa fina sintonia do que a gente quer manter, preservar, buscar.

 

Paulo Mazzeo - Interessante, esse trabalho tem vários trabalhos dentro dele. Esse ensaio, essa constância aqui, tudo leva à ampliação e à expansão. Então, nós já temos um processo de composição acontecendo naturalmente. Paralelamente ao trabalho musical, estamos desenvolvendo a capacidade de aceitar o outro, a paciência, o foco e a  concentração, etc. Vários de nós estão disponíveis para passar por este processo, outros, não. Estes preferem participar quando as coisas já estão mais estruturadas, quase prontas para a apresentação.

 

Guilherme - Tem o anti-ranhetismo e tem o ranheta convivendo juntos...

 

Paulo – Tem a apresentação que é um outro trabalho: quando você vai se expor, ampliar-se de sua timidez, sair do seu fechamento. Tem gente que gosta de participar das apresentações e que não gosta do trabalho anterior. E também tem gente que prefere apenas tocar para os Movimentos.

 

Emiliano - Tem horas em que a gente pára só para entender a teoria musical. E, de repente, nos períodos sem apresentação, aproveitamos para entender como se escreve música ocidental, como se escreve ritmo. Procuramos nos enriquecer de conteúdo musical. Essa é mínima, essa é a colchea, essa se escreve assim, essa é o dobro daquela, etc. Vinham questões: como será que se escreve aquele ritmo que o Mestre está dando nos Movimentos? Porque tínhamos necessidade de lembrar exatamente o que fora dado na semana anterior. Para isso existe uma escrita tradicional de música ocidental. Nós nos dedicamos a compreender e trabalhar os códigos, como se escreve, como se pensa musicalmente.

 

Eduardo – O Emiliano, inclusive, tem trazido outros profissionais que nos ajudaram a desenvolver técnicas como o canto, por exemplo. Outro dia vieram pessoas de ritmos  brasileiros: passamos o dias aprendendo e dançando maracatu, jongo, etc., foi uma delícia.

 

Guilherme - Para o público que está lendo esta entrevista, quero lembrar que não é só esforço, trabalho, estudo, tem muita diversão e relaxamento. Não fiquem assustados! Depois saímos para comer pizza e tomar um chopp, tudo pago aqui pelo maestro Emiliano, que é super generoso...

 

Helio – Além disso, temos um projeto de fazer uma coletânea das músicas desses anos todos numa gravação em estúdio, com todos os cuidados.

 

Guilherme – The greats hits!

Carmem – Vocês não passam em nenhum momento algo contraído, tenso. Pelo contrário, a imagem que fica para os nossos espectadores é de uma equipe que gosta do que faz, que procura fazer o melhor possível se divertindo, curtindo, com humor, amizade, é um grupo de rola muito solto!

 

Guilherme – Principalmente depois que nós abrimos os olhos... A grande revolução do nosso grupo foi abrir os olhos!

 

Mariett – Acontecem coisas engraçadas. Certa vez, o Helio puxava uma das músicas, que tinha um refrão que sempre se repetia. Em nossos ensaios ele normalmente esquecia certos trechos e nós errávamos juntos. O Emiliano estava ficando desesperado... Não deu outra, em uma das apresentações estávamos cantando esta bendita música quando o Helio parou de cantar... Como nós o seguíamos já preparados para uma eventualidade, paramos imediatamente junto com ele. Para a platéia pareceu tudo natural... e aí a gente ficou só se cutucando e rindo por dentro.

 

Eduardo – Não é que estávamos certos, é que estávamos todos errados iguais.

 

Helio – Só cantamos metade da letra. Mas ninguém reparou...

 

Genetom - Uma coisa que tem ocorrido com freqüência é que, na apresentação, rola uma energia e ela conduz a apresentação. A ponto de que uma falha dessa ou individual, o público nem percebe! Porque no conjunto saiu legal. Na última história eu percebi uma clara evolução em todos.

 

Eduardo - E estamos enriquecendo o nosso visual com roupas e adereços, como colocar o chifrinho (por exemplo, nas histórias do Diabo). Saímos daquele estilo grupo de cegos do início das apresentações para entrar até numa coisa performática. Uma participação maior do que ser simplesmente um alto-falante que emite um som.

 

Carmem - Se a apresentação parece pesada, difícil, tensa, é porque existe alguma coisa muito equivocada. Quando tudo está no lugar certo, somos naturalmente um instrumento. Torna-se um desfrute, um deleite que não tem preço. Você se diverte muito, mesmo representando um drama, com o seu personagem em prantos, você internamente está se divertindo. A magia deste estado é que não existe pressa de sair de cena, é um momento que se eterniza.

 

Eduardo – Nas últimas histórias apareceu uma integração da música no texto. Porque antes era sempre uma coisa um pouco separada. Agora existe uma clara integração da música com os contadores, gerando um conjunto muito mais harmônico. Eu acho que esse é um caminho que fortalece muito a própria musica, mostra que ela é parte integrante da história, como a trilha musical de um filme. Você não sabe bem o que é, mas percebe que está bom.

 

Carmem – Nós agradecemos a participação da equipe de música da Escola Gurdjieff São Paulo na Revista SER. Alguns membros da equipe não puderam estar aqui hoje, mas estendemos nossos agradecimentos a eles também, pois todos formamos uma unidade que se coloca a serviço dos ensinamentos e da qualidade que as histórias podem veicular.

 

 

COMO VIVER MAIS

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O tempo nos parece longo ou curto na medida em que estiver preenchido ou não. Podemos comparar o tempo a um fio no qual algumas continhas estão enfiadas. Quando as contas estão bem juntinhas umas das outras, não percebemos o fio. Quanto mais distantes elas estiverem entre si, mais o fio aparece.

No entanto, ao mesmo tempo em que reclamamos de estarmos entediados ou de que tudo está muito monótono, também lamentamos ter muito pouco tempo a nossa disposição. Assim, quando estamos cientes do transcorrer do tempo, ficamos entediados; e quando não estamos cientes do tempo, ele passa rápido demais.

Em geral, aceitamos as contas enfiadas em nossos fios de forma acidental, ou seja, não escolhemos, criamos ou controlamos os incidentes e eventos que nos acontecem; eles simplesmente se introduzem a si mesmos; alguns poucos como contas brilhantes e coloridas, talvez de ouro ou de pedras preciosas, mas a maioria como conta de vidro comum. Habitualmente, nem nos damos o trabalho de nos colocar nas circunstâncias em que as contas são produzidas, isto é, em que as coisas acontecem. E tem mais: é estranho, mas verdadeiro, que mesmo as circunstâncias ricas em incidentes para algumas pessoas, não significam nada para outras. Assim, um homem e uma mulher podem viver uma vida tediosa e desprovida de eventos na mais romântica das circunstâncias, só porque nada acontece especificamente a eles.

A queixa dos preguiçosos de que não têm tempo naturalmente é injustificada. O remédio para eles é simples: precisam manter-se ocupados. Mas a queixa contra o tempo é razoável quando vem de pessoas verdadeiramente ativas, que levam uma vida atarefada e mesmo assim acham que suas vidas não são suficientemente preenchidas. Para você que vive em alta velocidade, cada momento está ocupado; por isso, você não se queixa de que sua vida é vazia, mas de que ela é muito curta. Um dia de vinte e quatro horas, incluindo a ociosidade forçada do sono, é uma permissão muito curta do tempo para realizar as coisas que você deseja fazer e tem a oportunidade de fazer, mas não faz, apenas por causa do tempo. Qual é o remédio para este “felizmente infeliz” estado de coisas? Não podemos prolongar o tempo, já que temos todo o tempo que existe.

Vocês já pensaram na possibilidade de dobrar, triplicar ou mesmo multiplicar um mesmo fio sem reduzir seu comprimento? Ou, na analogia do fio com as continhas, é óbvio que não podemos enfiar mais continhas do que o fio é capaz de sustentar; não se pode preencher a vida com mais tempo do que o tempo permite. Mas é possível ─ pelo menos para ilustrar ─ colocar um novo fio ao lado do primeiro e enfiar continhas neste segundo; e em seguida, talvez acrescentar ainda outro e mais outro, criando, no fim, uma superfície onde, inicialmente, havia apenas uma única linha.

O que é o Tempo como comumente o compreendemos? Um caminho único de sucessão de eventos. A cada momento somos chamados a fazer uma escolha entre diversas possibilidades e a cada escolha as possibilidades não elegidas são, de certo modo, sacrificadas. O tempo, como sucessão, é simplesmente a realização de uma possibilidade destacada de muitas outras em cada momento contínuo. Para podermos realizar duas, três ou quatro possibilidades de uma só vez, precisaríamos estar vivendo em duas, três ou quatro diferentes correntes do tempo. Nossa vida, embora não mais extensa do que antes, conteria, no entanto, mais tempo. Estaríamos vivendo várias vidas simultaneamente.

Mas como fazer isso? Não adianta tentar abrir espaço num único caminho. Com pressa e rapidez febril é possível, na melhor das hipóteses, preencher apenas um fio, e comumente com eventos de uma composição muito frágil e comum. Por outro lado, parece, à primeira vista, igualmente impossível multiplicar o fio de alguém e querer realizar várias possibilidades de uma só vez, principalmente quando elas parecem se excluir mutuamente.

A maior dificuldade, no entanto, é nosso atual sistema educacional que nos tem prejudicado, favorecendo a idéia do tempo como mera sequência de eventos; e naturalmente pensamos que só é possível haver uma única sequência. A primeira coisa a fazer é ficar ciente de acontecimentos que, no momento, percebemos de forma isolada e sucessiva e não de forma simultânea.

Por exemplo, nada é mais certo do que o seguinte fato: a cada momento de nossa vida, recebemos centenas de impressões através dos órgãos dos sentidos, executamos centenas de movimentos mais ou menos óbvios, e estamos sujeitos a centenas de sensações internas, como contrações musculares, movimento respiratório, mudanças de temperatura e de pressão sanguínea. Se houver algum motivo particular para observarmos e ficarmos conscientes de algum deles, poderemos isolá-lo dos outros e dar nossa atenção a ele. Mas comumente não fazemos nem isso. Pela pouca consciência que temos da maravilhosa vida de sensações do nosso corpo, poderíamos até não ter corpo algum ou estarmos completamente adormecidos. Isso porque, com exceção de algumas ocasiões especiais em que nosso corpo insiste em chamar nossa atenção para ele, nós o tratamos como uma simples máquina sem nenhum valor real consciente.

Poderíamos supor que o caso é diferente quando se trata dos nossos outros fios, ou seja, dos fios de nossa vida de sentimentos e de pensamentos. Mas, se analisarmos o fato, fica claro que estamos tão adormecidos para o rico fluir de nossa vida emocional e intelectual quanto para o de nossa vida corporal. É verdade que algumas pessoas são mais cientes de uma delas do que das outras duas. Assim, as pessoas mais mentais são mais cientes de seus pensamentos do que de seus sentimentos e de sua vida corporal. Pessoas emocionais são mais cientes de suas emoções. Pessoas sensuais comuns são mais cientes de sua vida corporal. Mas nenhum desses especialistas, por assim dizer, é ciente, por mais que uma fração de sua vida, da parte em ele se especializou. Em primeiro lugar, o intelectual só é consciente de poucos processos de seus pensamentos; o artista só é consciente de poucas de suas correntes emocionais; o sensual só é consciente de poucas de suas sensações corporais. Em segundo lugar, pouquíssimas pessoas podem estar conscientes de duas dessas correntes simultaneamente, seja de forma intermitente ou parcial; e, em número ainda menor, existem pessoas que alguma vez alcançaram a consciência simultânea de todas as três correntes.

Agora, supondo que cada um desses três modos ou espécies de experiência é um fio do tempo, e que cada fio está sempre sendo preenchido com continhas, é evidente que podemos pelo menos triplicar nosso tempo e, por conseguinte, nossa vida, nos tornando simultaneamente conscientes de todas as três sucessões de eventos. Em outras palavras, nos tornando simultaneamente conscientes de nossos movimentos físicos e sensações, de nossos sentimentos, e de nossos pensamentos, estaremos levando, na verdade, três vidas de forma simultânea, ou seja, realizando três possibilidades a cada momento.

Naturalmente, isso não é fácil. Mas comece tornando-se consciente de suas sensações e movimentos físicos enquanto eles estiverem realmente ocorrendo. Tente perceber cada vez mais o que seu corpo está fazendo. Posteriormente, tente notar suas correntes de sentimentos mutáveis sem, contudo, cessar de ficar consciente de suas manifestações físicas. Finalmente, tente ficar consciente de suas correntes de pensamento; e inclua essas observações nas observações anteriores ou na consciência de sua vida corpórea e emocional.

Dessa forma, se for persistente, você triplicará seu tempo e enriquecerá sua vida. O método não é introspectivo nem é para ser analisado. Não está sendo sugerido aqui que você pense sobre isso, mas apenas que fique atento; e ficar totalmente atento é ficar totalmente consciente.

 

VINHO NOVO EM GARRAFAS VELHAS

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As pessoas costumam se aproximar do desconhecido dentro de seus moldes tradicionais. Mas o vinho novo sempre se estraga quando colocado em garrafas velhas. Do mesmo modo, o significado de algo novo em direção ao que as pessoas estão tateando ─ em geral sem saberem exatamente do que se trata ─ está sendo caricaturado. Muitas delas estão genuinamente cansadas do mundo, mas o espírito com o qual elas se exercitam a fim de desvendar a experiência interior ainda é regido pelo mundo e pelo ego.

Pequenos grupos e associações têm surgido de todos os lados de forma vertiginosa, sob o comando de líderes com sabedoria e habilidade variadas, que afirmam que seus exercícios libertarão o adepto de sua velha consciência e darão à sua vida um novo significado. Exercícios de todo tipo têm sido jogados sobre o público sob vários nomes: ioga, meditação, auto-observação, e terapia de relaxamento. Mas, com muita freqüência, essas atividades parecem mais separar as pessoas daquilo que estão ardentemente buscando do que as ajudando a encontrá-lo. Em geral, os exercícios para aliviar o estresse degeneram no culto ao “relaxe”. Da mesma forma, exercícios usados para largar o velho “eu” e encontrar um novo são facilmente deturpados no mero prazer de largar ─ o qual não traz nenhum benefício, podendo, na verdade, prejudicar. Por exemplo, muitas pessoas entendem hoje que certos “exercícios” lhes trazem uma sensação temporária de as estarem libertando de suas velhas identidades, mas nunca vão além dessa primeira sensação. Naturalmente, o contato com o terreno salvador da verdadeira unidade pode fazer parte dessa experiência, mas nada pode advir dela a não ser que as novas energias espirituais sejam canalizadas e conscientemente centradas numa nova vida e numa prática exercida com a totalidade do coração; senão, o único resultado será o culto à experiência que, na verdade, é incompatível com o Ser. O exercício se torna um perigoso passaporte para o prazer. Usado como uma droga para obter as mesmas sensações agradáveis repetidas vezes, ele substitui ─ e desperdiça ─ algo que só pode vir devagarzinho, baseado na experiência e na prática árdua e incansável.

Igualmente perigosos são os exercícios de relaxamento que embalam a pessoa num repouso falso, improdutivo e preguiçoso ─ praticamente anestesiando-a durante o processo. Esses exercícios não têm nada a ver com a genuína tranquilidade do espírito ou com a calma dinâmica que assinalamos como fonte de vida e desafio, e que nos liga ao Divino. Eles geram uma calma sem vida, que certamente traz certa mudança prazerosa em relação à angústia e à agitação, mas que deturpa, em vez de libertar, as energias criativas da vida.

Um terceiro perigo aparece quando a presença do Ser é sentida logo no início, caso o significado desses primeiros contatos, liberados pelo velho ego, seja invertido,  permitindo ao ego engordar com a nova experiência. Preenchido com uma nova força interna, o neófito se esquece facilmente que esse é um presente vindo de outro lugar, e que não se destina simplesmente a aumentar os seus poderes mundanos. Ele toma os créditos para si; assim, algo que poderia torná-lo humilde, em vez disso, infla o seu orgulho. O que se ganha em tais casos não só é desperdiçado como também serve para alimentar perigosamente o poder do instinto. Tampouco são os outros os únicos a saírem feridos; sempre que algo é oferecido para servir a causa do Ser e é usado para alcançar os fins mundanos, vai desastrosamente repercutir no usuário. É por isso que, em geral, é perigoso usar os exercícios “iniciáticos” (que ajudam o Ser a se manifestar na existência) para propósitos meramente práticos, distorcendo-os, assim, completamente. É isso o que acontece, por exemplo, quando alguém trata a ioga ─ um conjunto de práticas cujo nome originalmente significava “unir para Ser” ─ como uma ginástica e a usa para aumentar sua boa forma e eficiência, em vez de ajudá-lo no seu caminho interior.

Liberação sensória, experiência no interesse próprio, indolência, orgulho, mau uso secular das energias do ser, diluição pragmática e distorção dos exercícios iniciáticos  ─ são esses os perigos que enfrenta qualquer um que comece a buscar levianamente ou sem uma orientação apropriada.

 

A CONVERSÃO DE ZHUANG ZHOU

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O relato que Zhuangzi faz de sua própria conversão*, enquanto passeava no bosque para caçar, é um exemplo de conversão brusca.

Quando Zhuang Zhou passeava no parque de Diaoling, viu um estranho pássaro, vindo do sul. Suas asas tinham sete pés de envergadura e seus olhos tinham um polegar de largura. O pássaro roçou a cabeça de Zhuang Zhou (ao passar) e pousou num bosque de castanheiros. Disse Zhuang Zhou a si mesmo:

─ Que pássaro é este? Com asas tão grandes, não continua seu voo! E com olhos tão grandes, não me vê!

Ele, então, tirou sua túnica e correu atrás do pássaro.

E como, com o arco na mão, ele se mantinha a espreita, viu uma cigarra que, tendo encontrado um canto de sombra encantador, esquecia-se de si mesma; um louva-a-deus levantou suas garras e a atacou, mas a vista dessa presa o fez esquecer-se de si mesmo. O estranho pássaro, então, aproveitou essa oportunidade (para pegar as duas presas) e por causa da oportunidade esqueceu-se de si mesmo (de tal modo que Zhuangzi o abateu). Zhuangzi suspirou:

─ Ai! Os seres se prejudicam uns aos outros; nesses dois casos, eles atraíram para si mesmos (sua infelicidade).

E jogando fora seu arco, foi embora. O guarda florestal perseguiu-o, insultando-o.

De volta à sua casa, Zhuang Zhou passou três meses sem descer no pátio. Lan Jiu, então, perguntou-lhe:

 ─ Mestre, por que o senhor ficou tanto tempo sem aparecer no pátio?

Zouang Zhou respondeu:

─ Até esse dia, eu protegia meu corpo e esquecia-me de mim mesmo; eu contemplava uma água agitada, tomando-a por uma fonte clara. Aprendi com meu mestre que, misturando-se ao vulgar, é preciso fazer como o vulgar! Agora, passeando no parque de Diaoling, esqueci minha verdadeira natureza. Um pássaro estranho roçou minha testa, desceu num bosque de castanheiros e esqueceu sua natureza. O guarda florestal me injuriou. É por isso que não vim ao meu pátio.

* Nota do Paulo Raful: Este texto mostra que em Chuang-tse, que viveu por volta do ano 300 a. C., já aparecia claramente a idéia da “Lembrança de Si”.

 

ENSINAMENTOS DO SR. GURDJIEFF

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O homem é uma máquina. Tudo aquilo que faz, todas suas ações, todas suas palavras, seus pensamentos, seus sentimentos, suas convicções, suas opiniões, seus hábitos, são o resultado das influências exteriores, das impressões exteriores. Por si mesmo, um homem não pode produzir um único pensamento, uma só ação. Tudo o que diz, pensa, sente, tudo isso acontece. O homem não pode descobrir nada, não pode inventar nada. Tudo isso acontece.

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Você está na prisão. Tudo o que pode desejar, se for sensato, é escapar. Você pode encontrar um dia sua oportunidade de evasão, com a condição, entretanto, de que saiba dar-se conta de que está na prisão. Ninguém pode escapar sem a ajuda daqueles que já escaparam.

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Um dos erros mais graves do homem, aquele que deve ser constantemente lembrado, é a ilusão em relação ao seu “Eu”. O homem não tem “Eu” permanente e imutável. E o todo do homem nunca se expressa, pela simples razão de que não existe como tal, salvo fisicamente como uma coisa e, abstratamente, como um conceito. O homem é uma pluralidade. Seu nome é legião.

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Tudo no mundo, do sistema solar ao homem e do homem ao átomo, sobe ou desce, evolui ou degenera, se desenvolve ou decai. Mas nada evolui mecanicamente. Somente a degeneração e a destruição acontecem mecanicamente. O que não pode evoluir conscientemente, degenera.

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O homem é, no sentido completo do termo, um “universo em miniatura”; nele estão todas as matérias das quais o universo é constituído; as mesmas forças, as mesmas leis que governam a vida do universo, operam nele; portanto, ao estudar o homem, nós podemos estudar o mundo todo; ao estudar o mundo, nós podemos estudar o homem.

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Se um homem muda a cada minuto, se nada existe nele que possa resistir às influências externas, significa que nada existe nele que possa enfrentar a morte. Mas, se ele se tornar independente das influências externas, se aparecer nele “alguma coisa” que possa viver por si mesma, essa “alguma coisa” pode não morrer.

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Para ser livre, o homem deve primeiro ganhar a liberdade interior. A primeira razão da escravidão interior do homem é sua ignorância de si mesmo. Sem o conhecimento de si mesmo, sem compreender o trabalho e as funções de sua máquina, o homem não pode ser livre, não pode governar a si mesmo e, assim, permanecerá sempre um escravo e um joguete das forças que agem sobre ele.

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Enquanto o homem se considera a si mesmo uma só pessoa, ficará sempre como é. Seu trabalho interior se inicia no próprio instante em que começa a experimentar em si mesmo a presença de dois homens.

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Se um homem compreende que está adormecido e se tem o desejo de despertar, tudo o que poderá ajudá-lo será o bem e tudo o que atravessar em seu caminho, tudo o que for de natureza a prolongar seu sono, será o mal.

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Despertar significa ver sua própria nulidade, isto é, ver sua própria mecanicidade completa e absoluta e sua própria impotência, não menos completa e não menos absoluta.

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O despertar do homem começa no instante em que se dá conta de que não está indo para parte alguma e não sabe para onde ir.

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O pecado é o que adormece o homem quando ele já decidiu despertar. E o que adormece o homem? Tudo o que é inútil, tudo o que não é indispensável.

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Enquanto um homem está num sono profundo, inteiramente submerso nos seus sonhos, não pode nem mesmo pensar que está adormecido. Se pudesse pensar que está adormecido, despertaria.

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É impossível despertar completamente, de um só golpe. É preciso primeiro começar por despertar-se durante curtíssimos instantes. Mas é necessário morrer de uma só vez e para sempre.

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A “identificação” é um traço tão comum que, na tarefa da observação de si, é difícil separá-la do resto. O homem está sempre em estado de identificação; apenas muda o objeto de sua identificação. A liberdade significa antes de tudo: libertar-se da identificação.

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A eternidade é a existência infinita de cada momento do tempo.

·

O tempo é respiração, tente compreendê-lo.

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Quando o homem começa a conhecer-se um pouco, vê em si mesmo muitas coisas que só podem horrorizá-lo. Enquanto o homem não causar horror a si mesmo, nada saberá sobre si mesmo.

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Quando o homem começa a conhecer-se a si mesmo, vê que não possui nada, isto é, que tudo que considerou seu − suas idéias, seus pensamentos, suas convicções, seus hábitos, até suas faltas e vícios − nada disso é dele; tudo foi colhido não importa onde, tudo foi copiado tal e qual.

·

Para acercar-se do ensinamento de modo sério, é preciso antes ter-se decepcionado, ter perdido toda a confiança, primeiro, em si mesmo, isto é, em suas próprias possibilidades e, depois, em todos os caminhos conhecidos... Isso não quer dizer que deva perder a fé.

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Com a consciência objetiva, é possível ver e sentir a “unidade de todas as coisas”. Mas, para a consciência subjetiva, o mundo está fragmentado em milhões de fenômenos separados e sem ligação.

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No trabalho sobre si, um momento muito importante é aquele em que o homem começa a distinguir entre sua personalidade e sua essência.

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A evolução do homem é a evolução de sua consciência. E a “consciência” não pode evoluir inconscientemente. A evolução do homem é a evolução de sua vontade e a “vontade” não pode evoluir involuntariamente. A evolução do homem é a evolução do poder de fazer e “fazer” não pode ser resultado do que “acontece”.

·

Só pode ser chamado de notável o homem que se distingue dos que o rodeiam pelos recursos de seu espírito e que sabe conter as manifestações que vêm de sua natureza, mostrando-se, ao mesmo tempo, justo e indulgente para com as fraquezas dos outros.

·

Só a compreensão pode levar ao ser. O saber, por si só, tem presença passageira; um novo saber expulsa o antigo e, no fim das contas, é apenas verter o nada dentro do vazio. Cumpre se esforçar por compreender; só isso pode levar a Deus.

·

A fé consciente é liberdade;
A fé do emocional é escravidão;
A fé mecânica é estupidez.

O amor consciente desperta o mesmo em resposta;
O amor emocional provoca o contrário;
O amor físico depende do tipo e da polaridade.

A esperança inquebrantável é força;
A esperança mesclada de dúvida é covardia;
A esperança mesclada de temor é fraqueza.

·

Os cinco deveres do ser:

Ter em sua existência esseral ordinária tudo aquilo que é necessário para seu corpo planetário;

Ter uma constante e inabalável necessidade de aperfeiçoamento próprio no sentido do ser;

Lutar conscientemente para conhecer cada vez mais as leis da Criação do Mundo e da Preservação do Mundo;

Esforçar-se, desde o início de sua existência, para pagar por seu surgimento e por sua individualidade, o mais rápido possível, para posteriormente tornar-se livre, bem como para aliviar, tanto quanto possível, o Sofrimento do nosso Pai Comum;

Esforçar-se sempre para auxiliar no aperfeiçoamento, o mais rápido possível, de outros seres, tanto os similares quanto os de outras formas, até que atinjam o grau de individualidade própria.

·

Apenas o sofrimento consciente tem valor.

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Um dos mais fortes motivos para desejar trabalhar sobre si mesmo é a compreensão de que você pode morrer a qualquer momento.

·

Feliz aquele que tem uma alma. Feliz aquele que não a tem. Infelicidade e sofrimento para aquele que só tem a semente dela.

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Toda energia gasta em trabalho consciente é um investimento; aquela gasta mecanicamente é perdida para sempre.

·

Aquele que pode amar pode ser; aquele que pode ser pode fazer; aquele que pode fazer é.

·

Para quem possui o conhecimento, fazer sapatos pode ser uma arte sacra, mas, sem o conhecimento, todos os sacerdotes da arte moderna não valem um sapateiro remendão.

·

O homem comum não tem “Amo”. Ele é governado num momento pela mente, noutro momento pelas emoções e, num outro, pelo corpo. Com frequência a ordem vem do aparato automático e, com maior frequência ainda, ele é ordenado pelo centro sexual. A verdadeira vontade virá somente quando um “Eu” reinar, quando existir um “Amo” na casa.

·

Só o homem que alcançou o mais elevado estado de ser é um homem completo. Os outros são meras frações de homens.

·

O homem não pode mudar a forma de seus pensamentos nem de seus sentimentos, sem ter mudado o seu repertório de posturas.

·

Só merecerá o nome de homem e só poderá contar com algo que foi preparado para ele, desde O Alto, aquele que tiver sabido adquirir os dados necessários para conservar indenes tanto o lobo como o cordeiro, que foram confiados à sua guarda.

·

Se o Eu está presente em mim, nem Deus nem o Diabo contam mais.

·

O poder de mudar-se não repousa no mental, mas no corpo e no sentimento.

·

O homem nasce sem alma, mas tem a possibilidade de construir uma.

·

Não acreditem em nada nem em si mesmos.

·

A primeira lei fundamental do universo é a lei das três forças, dos três princípios, ou ainda, como frequentemente a chamam, a Lei de Três. Segundo essa lei, em todos os mundos, sem exceção, toda ação, todo fenômeno resulta de uma ação simultânea de três forças – positiva, negativa e neutralizante. 

 

O NÃO APEGO AO “SER”

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Qualquer dois depende do Um,

Mas só com isso você não ficará contente.

Não persiga o Ser, o sempre ativo,

E não fique parado no Não Ser, o vazio.

Quando você encontra o Um

E se liberta na serenidade,

Tudo isso surge,

Sem nenhum esforço, a partir de você.

Se, precisando do movimento para ficar sereno,

Se voltar a esta coisa, esperando encontrar a tranquilidade,

Você apenas impelirá a calma

Para mais longe, na direção do movimento.

Porque, como pode alguém compreender o Um

Enquanto hesita

Entre Um e Outro?

Se você não compreender

O Um, perderá até mesmo o que o dois

Trouxe para você.

O Ser retrocede

Quando você o persegue;

O nada lhe dá as costas

Quando você corre atrás dele.

Mil palavras e

Mil pensamentos

Só o levam para longe dele.

O pensamento não avalia nada,

Descasca-se sem substância.

Se o pensamento o guia,

Mesmo por um só momento,

Você perde a si mesmo

No vazio do “não (ser) – alguma coisa”,

Cuja mutabilidade e transitoriedade

 

TSAO-FU APRENDE A CONDUZIR

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Tsao-fu empregou-se como aprendiz de um cocheiro famoso, cuja habilidade em conduzir carruagens era lendária. Por muitos anos, Tsao-fu serviu a seu instrutor humildemente, sem receber dele nenhuma instrução. Mas isso não desencorajou o aprendiz. Na verdade, Tsao-fu demonstrava cada vez mais respeito e zelo ao atender às necessidades de seu mestre.

Finalmente, impressionado pela sinceridade de Tsao-fu, o mestre cocheiro disse a seu aluno:

─ Os antigos dizem que um arqueiro começa fazendo copos de espadas e um mestre ferreiro começa fazendo martelos. Agora, olhe atentamente para mim. Se puder alcançar o mesmo estado de corpo e mente em que estou, ficará apto a dirigir uma carruagem.

─ Vou seguir suas instruções cuidadosamente, ─ disse Tsao-fu.

O mestre, então, pegou vários postes, largos o bastante para se manterem de pé, e fincou-os no chão. Os postes estavam arrumados de forma a ficar a um passo de distância um do outro. O mestre cocheiro, então, saltou em direção aos postes e foi de um poste a outro, correndo para trás e para frente com facilidade.

─ Pratique correr continuamente entre os postes ─ ele disse a Tsao-fu ─ e quando você estiver perito nisso, eu lhe darei outras instruções.

Depois de três dias, Tsao-fu estava apto a correr entre os postes sem tropeçar ou cair. Seu mestre, então, suspirou e disse:

─ Você é ágil e aprende rápido. Agora, deixe-me explicar como se deve conduzir uma carruagem. Todos os cocheiros deveriam começar, aprendendo a correr entre os postes. Embora pareça que você está treinando a agilidade dos seus pés, na verdade você está treinando o corpo a responder aos comandos da mente. É essa a chave para se conduzir uma carruagem. Pôr pressão e soltar a pressão das rédeas deve estar de acordo com a sua intenção. Se os seus dedos e as palmas das suas mãos responderem naturalmente à sua vontade, você poderá transferir sua intenção diretamente a cada cavalo do grupo. O grupo de cavalos responderá ao menor puxão ou afrouxamento das rédeas em qualquer direção, e você poderá conduzir a carruagem para frente e para trás e virar à esquerda e à direita sem nenhum esforço. O seu corpo responde à sua mente, as rédeas respondem aos movimentos do seu corpo, e os cavalos respondem à pressão das rédeas. Desse modo, sem despender nenhuma energia, você pode conduzir uma carruagem por longas distâncias e não se sentir cansado. Quando isso acontecer, você saberá que dominou esta arte.

Depois de um tempo, o mestre cocheiro continuou:

─ Deixe-me elaborar o que eu disse. Cada cavalo, que puxa a carruagem, tem um freio e uma cabeçada. Assim, a sensação do movimento do cavalo é comunicada por meio do freio à cabeçada2, da cabeçada às rédeas, das rédeas às suas mãos, das mãos ao resto do seu corpo, e do corpo à sua mente. Quando você comunica sua intenção aos cavalos, ocorre essa mesma sequência de comandos no sentido inverso. Assim, controlar seu grupo de cavalos e receber uma resposta dos movimentos deles pode ser feito simplesmente por meio da intenção. Dessa forma, você pode conduzir a carruagem sem usar os olhos e nunca precisará usar um chicote. Quando a sua mente está clara e o seu corpo relaxado, você pode controlar seis cabeçadas sem confusão, e vinte e quatro patas vão andar aonde você quiser. Então, as rodas de sua carruagem vão avançar e retroceder, e virar à esquerda e à direita com precisão e controle. Você poderá conduzir a carruagem nas estradas montanhosas com a mesma facilidade que nas planícies. O seu comando não será diferente se os seus cavalos estiverem andando a beira de um penhasco ou correndo sobre um pasto plano. Isso é tudo que tenho a ensinar! Por isso, lembre-se bem de tudo que falei!

A agilidade do corpo e a tranqüilidade da mente são necessárias para que a intenção seja naturalmente comunicada. Um corpo rígido, em que as partes não cooperam entre si, não pode responder à intenção, mesmo que a mente esteja clara e tranquila. Do mesmo modo, um corpo ágil só vai encontrar confusão se a mente não estiver tranquila. Por essa razão, para atingir o mais alto nível de qualquer habilidade, o corpo e a mente devem ser treinados simultaneamente.

1 – Nota do Paulo Raful: O livro intitulado Lieh-tzu, um dos principais clássicos do Taoísmo, é constituído por um material escrito durante uns 600 anos (mais ou menos de 200 a.C. a 400 d.C), que foi divulgado como sendo de autoria de um personagem, provavelmente lendário, chamado Lieh-tzu. Este texto, atribuído a esse personagem, ilustra a parábola da carruagem usada pelo Sr. Gurdijieff para transmitir o Ensinamento e citada por P. D. Ouspensky no livro de sua autoria Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido (pág. 114 da versão em português).

 

2 – N. T. – A cabeçada são as correias que cingem a cabeça, a testa e o focinho do cavalo, ligando o freio às rédeas.

 

 

RELATOS DE BELZEBU A SEU NETO

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Uma grande viagem ao universo interior

 

No aniversário de 60 anos da morte de G. I. Gurdjieff, queremos prestar-lhe homenagem, tentando expor de forma bastante sucinta o propósito de sua mais intrigante obra literária intitulada Relatos de Belzebu a seu Neto: Crítica Objetivamente Imparcial da Vida dos Homens.

Nessa obra, o grande mestre Gurdjieff procurou, sem deixar de lado o senso de humor que lhe é característico, despertar no leitor uma nova forma de pensar, retirando do seu psiquismo todas as suas crenças e opiniões sobre tudo o que há no mundo.

 

Ao tentar penetrar no significado profundo dessa primeira série de sua obra literária intitulada Do Todo e de Tudo (All and Everything), constatamos primeiramente que ele fez uso de uma linguagem figurada, simbólica, para nos fazer compreender que funcionamos na vida por meio de um psiquismo precário e confuso. Ao fazer essa crítica imparcial, ele nos ajuda a antever que existe outra forma de enxergarmos o mundo e de nos relacionarmos com ele, desde que aprendamos a evocar uma realidade de ordem superior.

 

Gurdjieff começa desestruturando nossa forma de pensar, que em geral funciona por meio de conceitos arraigados em nosso psiquismo, quando escolhe como personagem central de sua história nada menos que “Belzebu”. Como ele mesmo diz no prólogo do livro, esse nome já nos provoca todo tipo de “impulsos automáticos contraditórios”, que nos foram impostos graças à nossa famosa “moral religiosa” e que, por isso mesmo, geram imediatamente certa rejeição a ele, ou seja, ao autor do livro. O Sr. Gurdjieff sabe perfeitamente o tipo de emoção que nos causa quando faz desse personagem seu principal porta-voz, mas não se importa com isso, pois o objetivo de sua obra é levantar questões que não compreendemos, mas que ele tem a intenção de esclarecer.

 

Para tentarmos entender qual é o conteúdo essencial do livro, vamos resumir um pouco a história que trouxe esse “Individuum” chamado Belzebu, um personagem de outra “massa”, como o qualifica o autor, ao nosso sistema solar.

 

Há muito, muito tempo, Belzebu vivia num planeta denominado Karataz, situado no Centro do Universo. Em razão de sua inteligência extraordinária, esse jovem ardente e vigoroso vivia a serviço de Sua Eternidade. Certo dia, percebendo algo ilógico na administração do mundo, se meteu no que não lhe dizia respeito. Ao saber desse fato, Sua Eternidade se viu obrigada a exilar o jovem, todos os que simpatizavam com ele, seus familiares, seus subordinados e os de seus amigos em uma das regiões mais longínquas do Universo: no nosso sistema solar (Ors), mais precisamente no planeta Marte, com direito a habitar outros planetas desse mesmo sistema. Com o tempo, essa população estrangeira, vinda de diversos planetas da parte central de Nosso Grande Universo, emigrou pouco a pouco para outros planetas, mas Belzebu permaneceu em Marte com seus familiares e ali organizou sua existência. Entre outras coisas, instalou lá um observatório (Tesskuano), destinado principalmente a observar as condições de existência dos planetas vizinhos.

 

Como o sistema solar Ors foi negligenciado por se encontrar muito afastado do Centro do Universo, foram enviados aos seus planetas, de tempos em tempos, alguns Mensageiros do Alto, no intuito de colocar a existência desses seres em sintonia com a Harmonia universal. Acontece que Belzebu realizou, naquela época, uma tarefa indispensável à missão de um dos Mensageiros de Nossa Eternidade, chamado Ashyata Sheyimash, ao planeta Terra. Foi-lhe então permitido, por um pedido especial desse mensageiro à Sua Eternidade, voltar ao lugar de seu advento, o planeta Karataz. Assim, depois de longa ausência, Belzebu retornou ao Centro do Universo.

 

Devido aos longos anos de vida que passou em condições inabituais de existência, seu saber e sua experiência tinham-se ampliado e aprofundado, e sua influência e autoridade haviam aumentado. Foi então que alguns de seus amigos convidaram-no a participar de uma conferência no planeta “Revozvtadendr”, que pertencia a outro sistema solar. A longa trajetória com destino a esse planeta foi feita em uma nave espacial denominada Karnak. Nela viajavam, entre outros passageiros, Belzebu, seu neto Hassin, Ahun, o velho e fiel servidor de Belzebu que o acompanhava por toda parte, e o capitão da nave. Mas, por um acontecimento imprevisto enviado d’O-Alto, a espaçonave teve de se deter durante sua trajetória, o que permitiu a Belzebu, enquanto esperavam melhores condições para prosseguir viagem, fazer vários relatos a seu neto Hassin. Os relatos abordam os longos anos que Belzebu passou no sistema solar Ors, incluindo naturalmente sua estada no planeta Marte, onde instalou seu observatório, e no nosso planeta Terra. Na maior parte de sua narrativa, Belzebu descreve, partindo de diversos ângulos, o estranho psiquismo dos habitantes do planeta Terra, ou seja, o nosso estranho psiquismo.

 

Cumpre acrescentar que Belzebu tinha visto seu neto Hassin, pela primeira vez, quando retornou do exílio para o Centro do Universo. Logo se afeiçoou a ele, e resolveu encarregar-se pessoalmente de sua educação, levando-o a toda parte. Por isso, empreende essa viagem a bordo da nave Karnak, levando o neto ao seu lado. Durante todo o percurso, Belzebu, com muito humor e criatividade, fala basicamente do nosso processo de existência aqui no planeta Terra. Fala principalmente que somos seres tricentrados, ou seja, possuímos três centros tal como os seres evoluídos que habitam o grande Universo, mas, não possuímos a mesma “força de espírito” desses outros seres tricentrados. A razão disso é que ocorreram aqui “várias catástrofes” que fizeram com que nossos três centros não funcionem em harmonia com o grande Universo. Por outro lado, Belzebu fala o tempo todo da necessidade e da possibilidade que temos de evoluir, ou seja, “de lutar contra o nosso próprio princípio negativo”, poder esse que é o único a nos fazer atingir graus mais elevados de ser.

 

No final do livro, Belzebu atinge um grau muito elevado de ser. Tal como nós, “ele pecou em razão de sua juventude”, mas soube mais tarde se tornar merecedor em sua essência, por seus esforços conscientes e seus sofrimentos voluntários, de vir a ser um dos raros seres sagrados do Nosso Grande Universo. Também seu neto Hassin, um ser ainda muito puro e jovem, e seu velho e fiel servidor Ahun evoluíram muito durante a viagem que empreenderam ao lado de Belzebu.

 

No final do livro, Hassin pede ao avô que expresse brevemente a conclusão de seus longos anos de observações e estudos imparciais sobre o “estranho psiquismo dos seres humanos”, e lhe pede que diga se existe ainda um meio de salvá-los e de colocá-los no caminho justo. Belzebu, no seio de uma emanação cósmica muito fina, responde ao neto que a única medida de salvação para nós, seres do planeta Terra, seria implantar em nós um órgão dotado de propriedades tais que nos faça tomar consciência, durante a nossa existência, da inevitabilidade de nossa própria morte e da morte daqueles sobre os quais se detém nossa atenção.  Diz ainda que só essa sensação e esse conhecimento podem “reduzir a nada o egoísmo que se cristalizou definitivamente” em nós.

 

Na verdade, passamos a vida perdidos nas pequenas questões do dia-a-dia, nos esquecendo completamente da nossa possibilidade de evolução. Vamos, pois, tal como o fez Belzebu, pegar uma nave e viajar por nosso mundo interior. Vamos instalar um observatório ao redor de nós mesmos e observar como funciona o nosso “estranho psiquismo” para, finalmente, percebermos que somos muito mais do que a “persona” que acreditamos ser e que absorve toda a nossa “essência”. Só assim poderemos destruir nossa “tendência a odiar os demais seres”, tendência essa que é a causa principal de todas as nossas anomalias; elas são indignas de seres tricerebrais, pois são funestas para nós e para todo o Universo.

 

A criatividade e a beleza de toda a narração do livro, em sua linguagem simbólica, atingem o ápice quando Belzebu participa de uma cerimônia sagrada na qual verá os seus “chifres”, que perdera por ocasião do exílio, serem reconstituídos e aumentado em número de ramificações, em “conformidade com o Medidor sagrado de Razão objetiva, o grau de Razão que ele havia alcançado”. Durante a belíssima cerimônia, da qual participam Anjos, Querubins e Serafins, canta-se um hino que gostaríamos de transcrever aqui, para honrar o Grande Criador de Todas as Coisas e a possibilidade que Ele nos oferece de nos aperfeiçoarmos durante nossa existência neste longínquo planeta do Universo:

 

Ó Tu, infinitamente paciente Criador de tudo o que respira,

 

Tu, Causa plena de amor de tudo o que existe,

Tu, único Vencedor do impiedoso Heropás (Tempo),

Ao som de nossos louvores

Regozija-Te agora e repousa na beatitude.

Por um labor sem precedente, Tu criaste o Princípio

Ao qual está submetido nosso advento.

E por tua vitória sobre Heropás,

Tu nos deste a possibilidade

De nos aperfeiçoarmos até a Anklade sagrada.

Repousa agora como Tu mereceste.

Nós, por reconhecimento,

Manteremos tudo o que Tu criaste

E sempre e em tudo Te louvaremos eternamente,

Tu, Criador e Autor;

Tu, Origem de todo o Fim,

Tu, oriundo da Eternidade,

Tu, que conténs em Ti mesmo o fim de toda coisa,

 

Ó Tu, Eterno Infinito

 

UMA PALAVRINHA SOBRE O AMOR

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Então eu vou dizer o que penso sobre o amor. Amor é algo muito maior do que nós. O amor é divino, está na base da existência de todos os seres. O amor está na base da criação de todos os seres e o Universo todo é permeado de amor. Não me refiro ao amor-emoção nem ao amor-paixão, embora sejam também formas humanas do grande amor. Refiro-me à grande lei que mantém coeso todo o Universo, à grande força de integração. Se o dia amanhece depois da noite, isso é amor. As plantas nos dão seus frutos ─ puro amor. Um novo ser é engendrado em nosso ventre feminino após a penetração masculina ─ maravilhosa forma de amor que vem de muito além de nós. É deste Amor que estou falando, algo que transcende nossa possibilidade de compreensão, porque pertence à Divindade que nos criou. Creio que estamos imersos no amor, não podemos fugir do amor. Ele é a nossa essência. 

Mas, se fomos basicamente constituídos graças ao amor e vivemos num mundo permeado de amor, por que não somos nós mesmos seres amorosos? Por que não sentimos a presença do amor como sentimos, por exemplo, o calor do sol? Por que, ao contrário, vivemos submetidos a conflitos intermináveis com o mundo e conosco mesmos? Por que a ausência de amor é a nossa constante? 

Para nos alinharmos com as forças do amor que regem o mundo, é preciso ter vontade. Penso que esse é um dos maiores mistérios da vida, expresso em passagens do Evangelho sob o nome de “livre arbítrio”. Sim, o amor nos é dado, mas, para recebê-lo, precisamos desejá-lo. Temos de querer o amor com todas as nossas forças, radicalmente, a ponto de não querermos nada tanto quanto queremos o amor. E por que haveríamos de querer outras coisas, se a partir da posse do amor “todas as coisas nos serão dadas por acréscimo”, como diz ainda o Evangelho? 

Como seres naturais, pertencentes à natureza, vivemos sob as leis do acaso. As leis do acaso constituem o inverso do cosmo; elas constituem o caos. Daí a origem de todos os nossos conflitos. Estamos sempre balançando entre emoções conflitantes, conceitos antagônicos e desejos insaciáveis. Não nos cabe mudar essa condição; ela faz parte das regras do jogo. Viemos a este mundo por um motivo que desconhecemos, mas certamente é parte da tarefa viver integralmente as condições do nosso amado planeta. E onde entra o livre arbítrio? 

Somente através do desenvolvimento da nossa consciência e do refinamento do nosso centro emocional, podemos chegar a ser capazes de ter livre arbítrio ou vontade. Não dá para encurtar caminho. Não dá para oferecer propina para alguém dar um jeitinho. Para nos desenvolvermos, temos de trabalhar duro, dentro e fora de nós; temos de trabalhar constantemente sob as leis deste mundo, para nos tornarmos cada vez mais aptos a viver nele. Temos de enfrentar batalhas sem conta dentro de nós, entre as nossas forças internas em conflito, sem nos acovardar. Vemos então surgir aos poucos, dentro nós, uma pequena pérola, algo que não estava ali quando nascemos, embora tenhamos nascido todos com essa possibilidade. A pérola chama-se vontade. A vontade traz a liberdade de escolher a nossa própria vida e a possibilidade de optar pelo amor.

E o que era obscuro torna-se claro, o antes difícil torna-se fácil. Você está sob a lei do amor, a única que doravante aceita. Você tornou-se amor. E no campo imantado pelo amor, as forças se alinham na sua vida, formando um desenho único, necessariamente harmonioso, pois o Amor é pura harmonia. Junto com a harmonia vem a alegria. Junto com a alegria, a disposição, a força, a coragem. Quanto mais você tem, mais aumenta. “A quem tem, mais lhe será dado; a quem não tem, mais lhe será tirado”, outra frase do Evangelho. 

 

Mas a coragem é o começo de tudo. Ter a coragem de aceitar o amor quando não temos garantia de nada. Nosso destino como seres humanos é voltarmos a ser Amor, tal como éramos antes de nascer neste mundo. Sendo habitantes deste planeta, aceitamos suas leis e procuramos crescer por meio delas, mas, em nosso interior, permanecemos alinhados com o Divino, permanecemos alinhados com o Amor. A jornada de mil passos do trabalho interior começa com o primeiro. E se as forças do caos trabalham o tempo inteiro para nos fazer esquecer a nossa origem divina, é preciso termos, antes de tudo, coragem para escolher o Amor.

ELOGIO A SÓCRATES

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Os Três Filtros de Sócrates

  Na Antiga Grécia, Sócrates tornou-se famoso pela sabedoria e pelo grande respeito que manifestava por todos. Um dia, veio ao encontro do filósofo um homem, seu conhecido, que lhe disse:

- Sabe o que me disseram de um amigo seu?

- Espere um pouco ─ respondeu Sócrates. Antes de me dizer alguma coisa, queria que passasse por um pequeno exame. Eu o chamo “o exame do triplo filtro”.

- Triplo filtro?

- Isso mesmo  ─ continuou Sócrates. Antes de me falar sobre o meu amigo, pode ser uma boa ideia filtrar três vezes o que vai dizer-me. É por isso que o chamo o exame do triplo filtro. O primeiro filtro é a VERDADE. Estás bem seguro de que aquilo que vai dizer-me é verdade?

- Não ─ disse o homem. Realmente só ouvi falar sobre isso e...

- Bem! - disse Sócrates. Então, na realidade, não sabe se é verdadeiro ou falso. Agora me deixe aplicar o segundo filtro, o filtro da BONDADE. O que vai dizer-me sobre o meu amigo é uma coisa boa?

- Não, pelo contrário...

- Então quer dizer-me uma coisa má e não está seguro de que seja verdadeira. Mas posso ainda ouvi-lo porque falta um filtro, o da UTILIDADE. Vai servir-me para alguma coisa saber aquilo que vai dizer-me sobre o meu amigo?

- Não. Na verdade, não...

- Bem! ─ concluiu Sócrates. Se o que quer dizer-me pode nem ser verdadeiro, nem bom e nem me é útil, para que contá-lo?

 

Esta inspiradora narrativa aponta o nível de ser do homem sábio, conhecedor do incessante “falar interno” do nosso mental, uma função poluente e inútil.  Por uma razão qualquer, ou impelido pela necessidade de sua “persona” de tornar-se o centro de atenção a qualquer custo, o homem comum decai ao proferir mentiras, maledicências gratuitas e inutilidades, multiplicando dessa forma suas desgraças e espalhando-as no ambiente que o cerca.

Se em vez de falar como ele, aplicássemos só o filtro da utilidade, conquistaríamos um momento vivo de reflexão ativa, função inconteste de um mental lúcido; se aplicássemos só o filtro da bondade, teríamos aberto um espaço calmo no nosso emocional, suavizando-o e estimulando-o na compreensão da natureza das emoções e das manifestações desagradáveis que surgem sem prévio aviso ou razão, e pressentindo dessa forma a falta de qualidade, não manifestaríamos atitudes negativas; ainda, se apenas aplicássemos o filtro da verdade, teríamos de procurar antes de tudo e com sinceridade a nossa própria verdade, e não “atiraríamos pedras nos outros, pois nos perceberíamos igualmente pecadores”. Portanto, qualquer dos três filtros nos levaria a um “distanciamento”, a um estado de não-julgamento. Driblaríamos assim a lei de causa-efeito, ou seja, a lei que impera no mundo do acidente, onde tudo acontece sem uma presença consciente; neutralizaríamos a lei do destino, ou lei do mundo tipológico, onde o comando é formatado pelo nosso jeitão, nossas tendências psíquicas inatas, geralmente desarmônicas.

Portanto, se tivéssemos a sorte de ouvir e praticar um conhecimento correto, desenvolvendo nossa verdadeira natureza ao nos voltar para o mundo da Vontade, reconheceríamos as leis objetivas e nos tornaríamos capazes de levar ao mundo carente de consciência, que nos rodeia, as três Graças Divinas e Conscientes: a Fé, a Esperança e o Amor. Tornando-nos justos, amorosos e responsáveis, atrairíamos energias inimagináveis de níveis superiores.

Basta olharmos à nossa volta para vermos que a realidade geral dos seres, em qualquer esfera das múltiplas atividades mundanas, é uma sucessão de “trevas”. Mas se algo verdadeiro em nós estremecer, assim como pode ter ocorrido ao lermos o pequeno diálogo de Sócrates, constataremos que sempre houve seres que alcançaram, através de esforços conscientes, um nível superior de ser. Esses mensageiros e alicerces do DIVINO, obedientes e vigorosos, devotaram-se à tarefa de trazer “luz interior” aos seus semelhantes. Não duvide, pois, que o ser humano possa se religar ao Divino, mesmo em situações caóticas. Para que isso aconteça, siga os sussurros de seu coração: ele anseia por união, acolhimento, verdade, generosidade, força, coragem, enfim, por tornar-se digno de ter sido feito à semelhança de Deus Criador, como proclamam as Escrituras.

 

DEPOIMENTO DE UMA ALMA

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Eu não Sou este corpo, Eu não Sou estes pensamentos, Eu não Sou esta identidade, Eu não Sou estas emoções e desejos. Eu Sou, muito antes e muito além disso, uma alma com origem nas estrelas.

Somos, aqui neste plano, duas partes que nunca foram percebidas dessa forma, pois, manifestada num corpo, Eu, enquanto alma, vivi quase sempre ofuscada pelas atribuições e pela imagem que foram impostas, ensinadas e direcionadas a este corpo, com base nos conceitos do local de sua origem nesta vida.

Estes aspectos deveriam, tão somente, servir como instrumento para a interação das almas aqui, mas ganharam tal importância no psiquismo dos seres humanos que habitam este planeta, que passaram a ser considerados como se fossem eternos, constituindo-se numa forma ilusória de poder, sendo, no entanto, a mais perversa situação de aprisionamento para todos esses seres.

Poucas vezes tive a oportunidade influir nesta vida, e isso aconteceu em situações extremas, quando a valorização das coisas efêmeras desta vida deu lugar a um sentimento real do que, de fato, é importante na correlação com a eternidade.

Tenho, contudo, conseguido ampliar o meu espaço com muita vontade e perseverança, procurando me distanciar e me posicionar como observadora em todas as situações que vivemos no cotidiano.

Com esta prática, o corpo em que habito tem constatado que não está só, e esse sentimento traz o conforto, a confiança e a claridade que sustentam a percepção dos limites da sua atuação, abrindo o caminho necessário para que eu possa expandir a minha luz.

A repetição dessa experiência, em freqüência cada vez maior, desperta neste corpo a consciência da unidade da qual fazemos parte. Deixa cada vez mais distante o aprendizado que resulta na separação, e que integra o que se estabeleceu há milênios, transmitido de maneira inconsciente pelos conceitos englobados na educação e nos costumes familiares aos quais está submetida toda a humanidade, diferenciando-se apenas pelas características do local de onde é disseminado.

Essa nova forma de integração está proporcionando ao corpo a verdadeira compreensão de seu papel e de sua importância no contexto do meu aprendizado e do meu caminho de volta para casa, para o mais alto, enfim, para as estrelas.

 

UMA REFLEXÃO SOBRE OS ENSINAMENTOS DE MESTRE ECKHART E OS ENSINAMENTOS DE GURDJIEFF

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Na segunda parte de O Livro da Divina Consolação e Outros Textos Seletos, escrita por Mestre Eckhart (6ª. edição, Editora Pensamento, 2006, pág. 90 e seguintes), intitulada “O Homem Nobre”, o autor traz a seguinte citação de Nosso Senhor feita no Evangelho segundo São Lucas 19,12: ‘Um homem nobre partiu para uma terra distante a fim de tomar posse de seu reino e regressou’. Segundo Mestre Eckhart, Nosso Senhor está nos ensinando que o homem é nobre em ‘sua natureza criada, e é divino no que lhe é acessível por graça’. Portanto, o homem traz em si duas espécies de natureza: ‘corpo e espírito’ que, na Sagrada Escritura, são referidas como ‘homem exterior e homem interior’. No seu Ensinamento, Gurdjieff fala em ‘essência’ e ‘personalidade’. O homem não é só matéria, mas traz em si a potência da divindade que o torna nobre. Segundo Gurdjieff, o ‘homem exterior’ ou a ‘persona’ refere-se ao que no homem é aprendido; o ‘homem interior’ ou ‘essência’ refere-se ao que no homem é inato. 

Ainda segundo mestre Eckhart, ao homem exterior ‘pertence tudo aquilo que se prende à alma, o conteúdo está revestido de carne e misturado com ela’. A Sagrada Escritura chama esse homem de ‘homem velho, homem terreno, homem exterior, homem inimigo, homem servil1’. Gurdjieff chama esse homem de máquina: ‘todas as pessoas que conhecemos são máquinas, verdadeiras máquinas trabalhando apenas sob pressão das influências exteriores. Essas máquinas nada podem fazer2’. O homem interior é chamado nas Escrituras de ‘homem novo, homem celeste, homem jovem, amigo e homem nobre’. Segundo Gurdjieff, o homem interior é o homem número quatro, o homem do Quarto Caminho, do caminho da alma, ou seja, aquele que deixa de ser máquina por se reconhecer máquina. É o homem desperto, o que tem desenvolvido, entre outras coisas, a harmonia dos três centros: mental, emocional e bio-sexual. Mestre Eckhart diz que, segundo Nosso Senhor, o homem interior é ‘um homem nobre que partiu para uma terra distante a fim de tomar posse de um reino’. É a árvore boa, que produz bons frutos, é o solo fértil onde a semente germina. O homem exterior é ‘a árvore má que em tempo algum pode dar bom fruto’. Segundo o Ensinamento de Gurdjieff, é o homem adormecido, o homem máquina afastado e esquecido de sua natureza divina. 

Os mestres gentios Túlio e Sêneca, citados no livro de Mestre Eckhart, dizem: ‘Alma alguma dotada de razão é sem Deus; a semente de Deus esta em nós3’. E mais adiante, encontramos a seguinte citação de mestre Orígenes: ‘Como o próprio Deus semeou, implantou e engendrou esta semente, ela pode certamente ficar encoberta e oculta, nunca, porém, ser destruída ou em si apagada; ela arde e brilha, resplende e queima e, sem cessar, tende para Deus’. Mas o homem se ESQUECE e nem sequer se esforça para descobrir e alcançar essa pérola que possui por natureza. Segundo Gurdjieff, para fazer com que essa pérola se revele, é preciso haver um esforço pessoal e uma escola de trabalho interior. Sozinho, o homem nada pode fazer. 

Mestre Eckhart fala em degraus para se chegar a Deus. Só quando é despojado da imagem humana e revestido da imagem da eternidade divina que o homem se transmuda em imagem de Deus, que se torna uno com Deus. Segundo mestre Eckhart, não há degrau mais elevado. ‘Ali reinam a paz e as bem-aventuranças eternas, pois, o fim último do homem interior, do homem novo, é a vida eterna’. Gurdjieff também afirma que o fim último do homem desperto, do homem interior, do homem do Quarto Caminho, do caminho da alma e da unidade com Deus é a vida eterna, a imortalidade. A única chance que o homem tem de chegar a esse patamar é na busca de si mesmo, no conhecimento de si, na lembrança de si e na busca de sua evolução possível4

Na página 93 do Livro da Divina Consolação, Mestre Eckhart faz uma analogia belíssima entre o homem interior e nobre no qual se ‘encontra impressa e implantada a semente de Deus, a imagem de Deus, a maneira como se manifesta essa semente e essa imagem da natureza e da essência divina, como dela se toma conhecimento, e como por vezes ela se oculta’ e o sol. Diz ele: ‘O sol brilha sem cessar, contudo, quando uma nuvem ou neblina se interpõe entre nós e o sol, já não lhe percebemos o brilho. Do mesmo modo, quando o olho está doente em si mesmo, e enfermiço ou velado, é-lhe impossível perceber o brilho’. Faz ainda outra analogia, bastante reveladora para mim: ‘Quando um mestre (escultor) faz uma imagem de madeira ou de pedra, ele não introduz a imagem na madeira; o que ele faz é aparar as lascas que ocultavam e encobriam a imagem; não dá coisa alguma à madeira, mas lhe tira e escava a cobertura e afasta a ferrugem, fazendo aparecer o brilho do que jazia oculto debaixo dela’. ‘Este ─ diz Mestre Eckhart ─ é o tesouro que jazia oculto no campo, como diz Nosso Senhor no Evangelho de São Mateus 13, 445’

Na Bíblia Sagrada, o Evangelho segundo São Mateus 13, 44 fala em tesouro escondido: ‘O reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido no campo: quando um homem o acha, o esconde, e pelo gosto que sente de achá-lo, vai e vende tudo o que tem e compra aquele campo’. Assim como esse homem, precisamos despertar e sair em busca do tesouro que, como diz a analogia, ‘esta aí’, só precisando ser descoberto e lapidado. 

Mais adiante, em seu sermão, Mestre Eckhart afirma: ‘Não há distinção nem na natureza de Deus, nem nas pessoas em relação à unidade da natureza. A natureza divina é una e cada pessoa também é una e é o mesmo uno que é a natureza. A distinção entre ser e essência é tomada como una e é o ‘Uno’. Somos em Deus e Deus é em nós. Para atingir esta unidade, devo buscar o meu tesouro, devo trabalhar a lembrança de si. O homem não tem a capacidade de se perceber na unidade com Deus. A não ser que desperte, que retire a nuvem que esconde seu verdadeiro Eu, que busque pela divindade em si mesmo, que se reconheça uno com o Uno, jamais encontrará a imortalidade. 

Eu Sou com Deus na Unidade do Divino! Esta é uma Verdade que não posso ignorar. 

1 - O Livro da Divina Consolação, pág. 90.

2 - Fragmentos de Um Ensinamento Desconhecido, P. D. Ouspensky – Editora Pensamento, 9ª. edição, pág. 34.

3 – O Livro da Divina Consolação, pág. 93.

4 – Ver as conferências de P. D. Ouspensky no livro Psicologia da Evolução Possível ao Homem.   

5 – O Livro da Divina Consolação, pág. 93. 

 

UMA REFLEXÃO SOBRE O USO DE SI MESMO

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O Uso de Si Mesmo (The Use of the Self) é o título do terceiro livro escrito em 1930 por Frederick Matthias Alexander, o homem que descobriu, na Tasmânia, Austrália, entre 1892 e 1900, os princípios usados no método educacional que leva seu nome: Técnica Alexander. Seu primeiro livro foi A Herança Suprema do Homem (Man’s Supreme Inheritance) escrito em 1910.

A frase “O Uso de Si Mesmo” inspira algumas indagações, como por exemplo, “O que é uso?”; “Quem seria o sujeito que se usa a si mesmo?”; ou, mais interessante ainda, “Quem é usado e por quem?”.

A princípio, estamos falando de um ser que sabe que existe. Um ser humano talvez. Uma pessoa, um ser psicofísico, como Alexander chamou. Chamá-lo de ser psicofísico implica dizer que é um ser que tem pelo menos dois níveis de energia: um físico, de uma materialidade mais densa e que se move no espaço, e um psíquico, cuja materialidade é mais sutil, mas que faz o corpo físico se mover. Assim, numa primeira leitura, podemos entender que o “si” é o corpo físico, a quem a energia psíquica possui e usa como meio de experienciar a vida.

Deixando isso de lado, por enquanto, tenho a oportunidade de saber que tenho um corpo físico e que esse corpo físico é comandado por uma energia psíquica: estímulos internos (pensamentos, desejos, emoções) e estímulos externos (as sensações causadas por uma bela paisagem, uma ameaça, um aroma, etc.).

Olho pela janela e me dá vontade de caminhar no parque. Levanto-me da cadeira e vou. O motivo que me faz ter essa vontade pode ter diversas naturezas: ou porque o verde me inspirou a andar, ou um pensamento me lembrou que caminhar faz bem para o colesterol ou porque estou com o corpo dolorido, por ter trabalhado durante horas a fio diante do computador.

No caminho, vejo minha imagem refletida na vitrine de uma loja, mas que não condiz com o estado em que me sinto. Digamos que eu tivesse ido andar, inspirado pelo verde. Logo, me sentia bem. No entanto, na imagem refletida, o meu corpo tem uma aparência cansada, de um corpo caído. Quem estaria comandando meu corpo para que “eu” tenha uma aparência não condizente com a maneira com que me sinto?

Alexander diria que o estado desse corpo físico é fruto de uma direção inconsciente do “meu” uso, um modo habitual, que não permite ao meu corpo viver o momento por inteiro. Na verdade, esse corpo está identificado com um padrão neuromuscular que, por exemplo, é cansado, pois costumo ir além de meus limites. Portanto, esse pode ser o pano de fundo padrão, que me acompanha em todas as atividades.

No Ensinamento do Quarto Caminho, a prática de reconhecer quando estamos identificados com algo é muito importante. Normalmente associa-se a chamada “Identificação” a um estado emocional. Entendo que Alexander associaria os motivos que levam à Identificação ao conceito de “Apreciação Sensorial Enganosa”.

“Você traduz tudo, seja físico, mental ou espiritual, em tensão muscular!”

Frederick Matthias Alexander (1869 - 1955)

Nós nos identificamos também com posturas físicas (adequada a cada ambiente); com maneiras de pensar (adequada a cada situação); com crenças e padrões emocionais que se repetem “ad nausea”, comandando tudo isto de uma só vez. Tudo junto! Isto é, passamos a maior parte do tempo achando que estamos fazendo escolhas, mas, na verdade, estamos aparentemente acordados, fazendo as coisas mais ou menos conscientemente.

As pessoas ficam alarmadas com os índices de acidentes que ocorrem nas estradas e ruas do mundo. Porém, se lembrarmos como, maravilhosamente, “comandamos” nossos carros “guiados” por instintos, ficaremos perplexos. Quantas vezes, ao chegar a um destino, normalmente de forma mais rápida do que de costume, não nos perguntamos: “Como foi mesmo que cheguei até aqui? Não me lembro de ter passado por tal e tal lugar!” Pois é, assustador, não?!

O trabalho de Alexander foi o de reeducar o sistema psicofísico da pessoa, para que sua apreciação sensorial se tornasse confiável. E esta reeducação só pode ser possível com seu uso consciente. Para Alexander, a Apreciação Sensorial Enganosa é a do ser como um todo. Um todo que está repleto de identificações que alimentam, inconscientemente, seu padrão psicofísico, neuromuscular e habitual.

Só existe uma maneira de alterar esse padrão: pelo princípio dual da Inibição e Direção Conscientes, isto é, ao invés de analisar, de medir as complexidades do sistema neuromuscular, de procurar uma possível solução e agir de acordo com esta solução com o intuito de mudá-lo, você simplesmente para a fim de perceber como você está e “não reage” a esta percepção, não tenta corrigir o que não gosta. Você direciona seu “desejo” de “ir para cima” sem fazer nada, ou seja, você para de fazer o errado para permitir que o certo ocorra! Mas como sei se o que “farei” é certo ou errado? Justamente no processo de tornar confiável a apreciação sensorial de você mesmo durante a prática dos princípios descobertos por Alexander.

Como estamos falando em “prática” e em apreciação “sensorial”, as palavras e os aparatos que temos para entendê-las, oriundos do nosso centro mental, jamais serão suficientes para compreender isso com precisão. Mas, como exercício, podemos tentar fazê-lo.

A atitude acima, sugerida por Alexander e sugerida durante as aulas por toques, atitudes e palavras de todos os professores bem treinados na Técnica Alexander, se assemelha ao que o educador e filósofo norte-americano John Dewey, aluno e admirador do trabalho de Alexander, chamou de “Pensar em Atividade” e consiste no seguinte: você observa, inibe a resposta ao estímulo recebido, direciona, continuando a inibir e observar o que está se passando durante uma ação qualquer e, ao mesmo tempo, continua direcionando seu desejo de “ir para cima”.

No início, as mãos e as palavras do professor facilitam essa prática. Conforme você desenvolve essa atitude de “parar” ao receber qualquer estímulo, a fim de escolher se quer ir para cima ou não, enquanto continua a dar uma resposta positiva ou negativa a ele, você começa a perceber que “o melhor” acontece: o seu ser psicofísico, agora mais equilibrado, tem a chance de ser contemplado com uma respiração mais ampla e profunda, fruto da soltura muscular que, por uma decisão consciente, não foi diretamente comandada.

É importante notar também que, para Alexander, a solução tem de ser Consciente. Isso porque, naquele átimo de segundo altamente criativo entre o estímulo e a resposta, você tem, no plano terreno, uma ferramenta poderosa para coordenar e equilibrar o seu sistema psicofísico. E num plano mais sutil, você tem a oportunidade de Lembrar-se do Si, do Mais Alto. Quem sabe dessa forma sua resposta não estará mais de acordo com um intuito genuíno, portanto, verdadeiramente espontâneo de seu Ser?! Incluindo o terceiro elemento, a Lembrança, ao princípio dual da Inibição e Direção, a prática de aperfeiçoar o Uso de Si Mesmo pode nos auxiliar muito na prática da Lembrança de Si, proposta nos Ensinamentos que nossa Escola está determinada em estudar.

Alexander declarou que o escopo de suas descobertas apontava para uma possibilidade que nem ele podia imaginar qual seria. Aqui na Escola, revelou-se para mim que esta possibilidade talvez seja mesmo a de ouvir o Mais Alto, cumprindo, dessa forma, a nossa Herança Suprema: a de sermos “Cordeiros de Deus”! 

 

ORAÇÃO

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Reverenciai e bendizei Oh! Minha Alma O Altíssimo!

Ele é O Único,

O Perfeito,

O Magnífico,

O Absoluto,

O Infinito,

O Eterno,

O Todo Misericordioso,

Todo Amoroso,

Todo Poderoso Criador

De tudo quanto existe no Universo.

 

Reverenciai e bendizei Oh! Minha Alma O Altíssimo!

Ele é meu Amparo,

Meu Refúgio,

Minha Fortaleza,

Meu Escudo,

Meu Gozo,

E

Minha Cura.

Aleluia! Aleluia! Aleluia! Aleluia!

 

IMPRESSÕES

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Sinos ressoam, trazendo consigo um chamado à alma.

Reverberam no tempo, transpondo a corporeidade.

Eu, quieta, deixo-me levar, abrindo espaços a esse vibrar.

O corpo, pouco a pouco se tranquiliza, o pensar incessante se acalma e o coração bate compassadamente.

O ar que chega ao ventre refrigera os recantos internos e, ao sair, libera vísceras, músculos, trespassando toda a pele.

Meus olhos, fechados para as solicitações do mundo, encontram-se abertos para a imensidão que se anuncia.

A sala, iluminada por clara e translúcida luz, goteja um suave perfume de flores silvestres.

Os sinos se calam, suas vibrações permanecem, impregnando todos os lugares do corpo e da alma.

Do imenso silêncio, tal qual o reverberar dos sinos, emerge a voz que parece surgir dos tempos imemoriais.

Faz-se presente, como que nascida do Universo amplo, fluído, límpido e profundo.

Toca-me,

toca todos os seres.

E o que antes era fechado,

abre-se e transforma-se, descendo como orvalho que banha o amanhecer.

Banha-nos com quietude regeneradora e benfazeja.

Bendito instante!

Emergindo desse mar vibrátil,

os olhos se abrem.

Grata, estou.

Plena, estou.

Gratidão a Deus que está em todos nós.

Gratidão a vocês que, através da incansável busca, abrem o caminho, em meio ao cotidiano, para o que nos faz humanos e divinos,

inspirando e produzindo o religar entre céu e terra, entre corpo e alma,

permitindo-nos habitar o sagrado que nos constitui.

 

ANTES DE TUDO, DEUS É VIDA

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Veja: é a mesma inteligência que organiza e regula todas as funções do corpo. Esse poder mantém nosso coração batendo ininterruptamente mais de 100 mil vezes ao dia, sem que tenhamos de pensar nisso. Isso soma mais de 40 milhões de batidas de coração por ano, aproximadamente três bilhões de pulsações num período de 70 a 80 anos de vida. E tudo acontece automaticamente, sem cuidados ou necessidade de limpeza, reparos ou substituições. Uma consciência elevada está comprovando uma Vontade que é muito maior que a nossa vontade. 

Da mesma forma, não temos que dirigir nenhum pensamento para o que nosso coração está bombeando: 7,6 litros de sangue por minuto, mais de 380 litros por hora, através de um sistema de canais vasculares de cerca de 96.540 km de comprimento, ou duas vezes a circunferência da terra. E mais ainda: o sistema circulatório reúne apenas cerca de 3% de nossa massa corporal. A cada 20 a 60 segundos, cada célula sanguínea faz um circuito completo através do corpo; cada glóbulo vermelho realiza de alguma forma entre 75 mil e 250 mil viagens circulares em sua vida. (A propósito, se todas as células da série vermelha de nossa corrente sanguínea fossem alinhadas de ponta a ponta, alcançariam 49.879 km na direção do céu.) No segundo que se leva para inalar, perdem-se três milhões dessas células, e no minuto seguinte, o mesmo número é reposto. Quanto precisaríamos viver se tivéssemos de nos concentrar para tudo isso acontecer? Alguma mente maior (mais expandida) deve estar orquestrando tudo isso por nós. 

Por favor, pare de ler por um segundo. Neste momento, cerca de 100 mil reações químicas estão acontecendo em cada uma de suas células. Agora multiplique esse número pelos 70 a 100 trilhões de células que compõem seu corpo. A resposta tem mais zeros do que a maioria das calculadoras consegue exibir. No entanto, a cada segundo, essa quantidade espantosa de reações químicas está acontecendo dentro de você. Você tem de pensar para realizar sequer uma dessas reações? Muitos de nós não conseguimos nem mesmo fazer as contas em nosso talão de cheques, ou lembrar mais que sete itens de nossa lista de compras; então, é auspicioso para nós que essa inteligência mais aguda que a nossa mente esteja manejando as coisas. 

No mesmo segundo, 10 milhões de suas células morrem, e no instante seguinte, quase 10 milhões de novas células tomam o seu lugar. O pâncreas regenera quase todas as suas células em um dia. No entanto, não dedicamos um só pensamento ao descarte dessas células mortas, ou a todas as funções necessárias à mitose, o processo de produção de novas células para a reparação e crescimento dos tecidos. Cálculos recentes estimam que a comunicação entre células, na verdade, se faz mais rapidamente que a velocidade da luz. 

No momento, você provavelmente está dirigindo algum pensamento ao seu corpo. Mas alguma outra coisa diferente de sua mente está causando a secreção de enzimas na exata quantidade necessária para digerir o alimento que você consumiu, transformando-o em componentes nutritivos. Algum mecanismo de ordem superior está filtrando litros de sangue através de seus rins o tempo todo, para fabricar urina e eliminar resíduos. (Em uma hora, as mais avançadas máquinas de diálise dos rins só conseguem filtrar 15 a 20% dos resíduos do corpo vindos do sangue). Essa mente superior mantém com precisão as 66 funções do fígado, embora a maioria das pessoas nunca tenha pensado que esse órgão executasse tantas tarefas. 

A mesma inteligência consegue ainda dirigir minúsculas proteínas para identificar a sofisticada sequência da espiral de DNA melhor que qualquer tecnologia atual. É uma grande proeza, considerando que, se pudéssemos desembaraçar o DNA de todas as células do nosso corpo e esticá-lo de ponta a ponta, ele alcançaria o céu e voltaria de lá 150 vezes! De algum modo, nossa poderosa mente orquestra as minúsculas enzimas de proteínas que se movem com ânimo através de 3,2 bilhões de sequências de ácido nucléico, que são os genes de cada célula, verificando mutações. Nossa versão interna de Segurança Nacional sabe como repelir milhões de bactérias e vírus sem a eterna necessidade de sabermos que estamos sendo atacados. Ela até memoriza esses invasores porque, caso nos ataquem novamente, o sistema imunológico estará mais bem preparado. 

O mais encantador de tudo isso é que essa força de vida sabe como pôr-se em movimento a partir de apenas duas células, um espermatozóide e um óvulo, e criar os mais de 100 trilhões de células especializadas. Tendo-nos dado a vida, ela a regenera continuamente e regula um número incrível de processos. Não podemos perceber essa inteligência superior trabalhando, mas, no momento de nossa morte, o corpo começa a sucumbir porque esse poder interno se retirou. 

Assim como as pessoas que entrevistei, tive de admitir que alguma inteligência está trabalhando em nós e que ela excede as habilidades de nossa mente. Ela anima nosso corpo a cada instante, e suas incrivelmente complexas tarefas acontecem virtualmente sem que o percebamos. Somos seres conscientes, mas, caracteristicamente, só damos atenção aos eventos que pensamos ser importantes para nós. Essas 100 mil reações químicas por segundo em nossos 100 trilhões de células são uma expressão milagrosa da força de vida. Mas o único momento em que se tornam significativas para a nossa mente é quando algo vai mal. 

Esse aspecto do eu é objetivo e incondicional. Se estamos vivos, essa força de vida está se expressando através de nós. Todos compartilhamos essa ordem inata, independentemente de gênero, idade ou genética. É uma inteligência que transcende raça, cultura, status social e crenças religiosas. Ela dá vida a todos, não importando se pensamos nela ou não, se estamos acordados ou dormindo, felizes ou infelizes. Uma mente mais profunda permite-nos acreditar no que quisermos, ter gostos e aversões, ser permissivos ou julgadores. Essa doadora de vida empresta poder para tudo o que somos; confere-nos a faculdade de expressar a vida em qualquer caminho que escolhamos. 

Essa inteligência sabe como manter a ordem entre todas as células, tecidos, órgãos e sistemas de nosso corpo, porque ela cria o corpo a partir de duas células distintas. Novamente: o poder que cria o corpo é o poder que o mantém e cura. 

O Sr. Gurdjieff, acompanhando neste caso a Tradição Cristã, chama essa face do Divino de “Deus Forte”.

 

O ÚLTIMO LOTO

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Sudas, um humilde jardineiro, colheu o último loto que sobrara em seu jardim, por descuido do inverno. E saiu em direção ao palácio real, a fim de ver se o rei não desejava comprá-lo. 

Ao se aproximar, encontrou um comerciante que lhe disse: 

― Quanto queres por este loto? Desejo oferecê-lo ao Buda, Nosso Senhor. 

E Sudas respondeu: 

― Uma moeda de ouro, senhor. 

O homem concordou. Nesse mesmo instante, o rei saía do palácio para visitar Nosso Senhor Buda. Vendo a linda flor nas mãos do jardineiro, pensou: 

― Que bonito seria pôr aos pés de Buda este loto de inverno! 

E o quis comprar. Quando Sudas, o jardineiro, disse que já haviam oferecido por ele uma moeda de ouro, o rei lhe ofereceu dez, mas, em seguida, o comerciante dobrou a oferta. O jardineiro, deslumbrado, logo pensou que aquele a quem os dois queriam oferecer o loto era muito mais rico e poderoso do que imaginara, e que certamente lhe pagaria uma verdadeira fortuna por ele. Disse então: 

― Não posso vender esta flor. 

E, em silêncio, atravessou a floresta que se espalhava além dos muros da cidade. Logo depois, Sudas estava de pé, diante de Buda, Nosso Senhor, cujos lábios são o trono do silêncio do amor e cujos olhos destilam paz como a estrela matutina de outono, feita de orvalho. Olhando seu rosto, pôs a seus pés o loto. No mesmo instante, Sudas sentiu-se pleno de felicidade e, em êxtase, caiu de joelhos aos pés de Buda, esmagando a flor que se misturou ao pó da terra. 

Buda sorriu e disse: 

― Que queres, filho meu? 

E Sudas respondeu: 

 

― A mais leve carícia de teus pés.

DIÁLOGO ENTRE BUDA E O ASTRÓLOGO

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Um grande astrólogo viu Buda, e não pôde acreditar no que viu: aquele corpo, aquela aura dourada em torno do seu corpo, aqueles lindos olhos, tão silenciosos como nenhum lago pode ser, e tão profundos e puros como nenhum lago pode ser, aquela claridade cristalina, aquela graça no andar. Ele caiu aos pés de Buda e disse: 

─ Estudei astrologia e quiromancia. Em toda a minha vida, tenho estudado tipos de homens, mas nunca me deparei com um homem como você! De que tipo você é? Você é um deus que desceu sobre a Terra? ─ porque não parece pertencer a Terra. Não vejo em você a minha densidade. Você é absolutamente leve, sem gravidade. Eu gostaria de saber como você consegue andar sobre a Terra, porque não vejo nenhuma gravitação atuando sobre você. Você é um deus que desceu do céu só para dar uma olhada no que está acontecendo na Terra? Um mensageiro de Deus? Um profeta? Quem é você? 

E Buda respondeu: 

─ Eu não sou um deus. 

─ Então você é o que na mitologia hindu é chamado de yuksha? ─ um pouquinho abaixo dos deuses? 

─ Não, também não sou um yuksha. 

─ Então, quem é você? Que espécie de homem é você, em que categoria você se coloca? 

─ Não sou um homem nem uma mulher. 

Nessa hora, o astrólogo ficou muito perplexo e disse: 

─ O que você quer dizer com isso? Isso significa que você é um animal, o espírito de um animal, ou o espírito de uma árvore, ou o espírito de uma montanha, ou o espírito de um rio? ─ eu pergunto isso porque a mitologia hindu é panteísta, acredita em todas as espécies de espíritos. Então quem é você, o espírito de uma roseira? Você é tão bonito, tão inocente. 

─ Não, não sou um animal, nem o espírito de uma árvore, nem o espírito de uma montanha. 

─ Então, quem é você? ─ perguntou o astrólogo extremamente desconcertado. 

─ Sou consciência e nada mais. Você não pode me categorizar, porque todas as categorias são aplicáveis aos sonhos. 

 

RESGATE HISTÓRICO

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CRÉDITOS

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SER

Periódico da Escola Gurdjieff São Paulo

Maio 2010       

EDITORES

Paulo A. S. Raful e Lauro de A. S. Raful 

COORDENAÇÃO GERAL

Carmem Sílvia de Carvalho

Maria Aparecida Ramos De Stefano 

COMITÊ EXECUTIVO

Carmem Sílvia de Carvalho

Maria Aparecida Ramos De Stefano

Heloísa Margarido

Renato Batata

Elisa Yoshimura

PROJETO GRÁFICO

 

Maurício Nisi Gonçalves

TRATAMENTO DE IMAGENS

 

Renato Batata

IMAGENS

 

Páginas 45/63: Gregory Colbert

Página 52: Nigéria, Reino de Benin (arte em latão, do século XVI).

Página 63: Pintura de Nicholas Roerich

Páginas 1/7/58: Banco de imagens.

Páginas: 04/16/18/19/28/30/31/32/34/35/36: Saul Nahmias

Páginas:12/13/14/15/26: José Carlos Bisconcini Gama

Página 44: Equipe da revista. 

TRADUÇÃO DOS TEXTOS TRADICIONAIS

Maria Aparecida Ramos De Stefano 

REVISÃO DE TEXTOS

Maria Aparecida Ramos De Stefano

Maria Eugênia da Rocha Nogueira 

TRANSCRIÇÃO DAS ENTREVISTAS

Elisa Yoshimura

Heloísa Margarido 

CAPA

Ilustração de um gibi antigo da série Flash Gordon

(adaptação eletrônica de Renato Batata) 

4ª CAPA

Enterprise

(adaptação eletrônica de Renato Batata) 

COLABORAÇÃO: IMAGENS E LIVROS RAROS

Ilda Soban 

IMPRESSÃO E ACABAMENTO

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© COPYRIGHT

 

Paulo A. S. Raful e Lauro de A. S. Raful 

EDITORA ESOATENCA

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