Gurdjieff - Escola Gurdjieff São Paulo
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Carta aos leitores....Voltar para o Índice

Quando iniciamos algo, normalmente somos impulsionados pela força do novo, pelo élan dos desafios e descobertas, por paisagens desconhecidas e excitantes. No começo, a natureza nos fornece a energia gratuitamente. Com o correr do tempo, porém, o suprimento natural vai diminuindo. Se não conhecemos essa lei, acabamos prisioneiros de hábitos tediosos e, como tudo vai ficando cada vez mais complexo, passamos a culpar a vida e o mundo à nossa volta pela situação aparentemente sem saída.

Para aqueles, entretanto, que se dão conta dessa realidade e que almejam de fato continuar, indo além das ilusões, da vaidade e do egoísmo, abertos para a inspiração sempre generosa e inédita do Divino – que flui através de nosso servir desinteressado e perseverante – então um verdadeiro milagre acontece: um outro reservatório de energia, muito maior, começa a ser liberado e a banhar de luz e força tudo o que fazemos, tudo o que tocamos.

O número 13 da Revista SER foi construído com essa materialidade, que não é deste mundo, que não tem nada a ver com as pessoas envolvidas em sua realização.

Que nossos leitores possam apreciá-lo com o olhar surpreso e encantado de uma criança!

PAULO RAFUL FALA A SEUS ALUNOS....Voltar para o Índice

A Verdadeira Individualidade

A questão da verdadeira individualidade deve ser tratada com cuidado. Além de não ser objeto de dúvida para as pessoas comuns, ela é difícil de ser explanada até mesmo aos interessados no trabalho interior. É delicado falar de algo que não faz sentido para a maioria das pessoas. Podemos dizer que nos deparamos aqui com a mesma dificuldade encontrada por um astrofísico ao falar sobre o planeta Mercúrio a quem não entende dessa ciência. Não queremos correr o risco de expor o assunto de maneira teórica, sem nenhuma praticidade para as pessoas, mesmo as que fazem parte do Grupo. Vamos tratar de um tema que é absolutamente significativo, nuclear para a vida humana e, por isso, desejamos fazê-lo do modo mais simples possível.

A questão da individualidade é a questão do “Quem sou eu?”. No mundo habitual da sociedade humana, essa pergunta já está aparentemente resolvida. Se você investigar com um indivíduo como ele entende sua individualidade, ele responderá, em primeiro lugar, que seu rosto e seu corpo são a prova de sua individualidade. As pessoas se identificam principalmente com a própria face; afinal, é a fotografia de alguém que o identifica na maior parte dos documentos. Então, é o rosto do indivíduo que determina, tanto para ele como para seus semelhantes, a sua individualidade. Podemos também identificar uma pessoa mesmo pelas costas, pelo jeitão de seu corpo. Por isso, o rosto e o corpo são o primeiro ponto em que as pessoas costumam apoiar sua identidade.

A segunda forma de caracterização é feita pela conduta: fulano é assim, age de tal maneira, é uma pessoa correta, é um sujeito calmo, etc. Há uma lista de comportamentos nesse sentido. Eu disse comportamentos, porque a forma como a pessoa age não demonstra o que se passa dentro dela. Por exemplo, alguém pode ter, internamente, impulsos assassinos, sem nunca mostrá-los – pode parecer a bondade personificada. Também é muito comum que, após algum tempo de casamento, um dos cônjuges faça o seguinte comentário: “Eu me casei com uma pessoa e agora vejo que é outra. Nunca pensei que ela/ele fosse se comportar de tal maneira”. O comportamento das pessoas é, pois, o segundo fator de identificação.

Há ainda uma terceira forma, extremamente importante: o nome. Aqui entramos em algo mais complicado, que envolve o plano jurídico: o nome da pessoa não pode ser mudado. Se perguntarmos a alguém “Quem é você?”, o sujeito logo se identificará dizendo: “Sou Fulano de Tal”. Isso está registrado em seus documentos, que lhe servem de identificação no mundo inteiro. Há pouco tempo, assisti a uma reportagem sobre pessoas que vivem no Brasil sem documento algum. Elas são consideradas “não existentes” e, por conseguinte, não conseguem fazer nada. Noticiou-se também que o governo vai mudar o modelo da carteira de identidade; ela passará a ter um chip de identificação. Mas, excluindo sistemas mais sofisticados, como, por exemplo, o de impressões digitais (desenvolvido no final do século XIX) e o do DNA (descoberto em meados do século XX), podemos dizer que, em nossa sociedade, o indivíduo é basicamente identificado pelo nome.

Então, o fato de você ter um nome, um rosto, certo tipo de corpo e certos comportamentos o identifica para si mesmo e para as pessoas em geral.

SER: Para a pessoa que utiliza esses meios, a identidade só se torna um problema se ela perder a memória, não é?

PAULO: A memória que ela perde é a de seus registros históricos – outro fator de identificação que não mencionei. Além dos já citados, a pessoa é também caracterizada pela história familiar, incluindo o lugar de nascimento. Foi muito importante você trazer esse ponto, que mostra, mais uma vez, a falta de sentido das respostas dadas pelas pessoas comuns quando questionadas sobre sua identidade. Para quem busca sua verdadeira identidade, essas respostas não são satisfatórias, como veremos adiante.

Vamos examinar aqui o que o Sr. Gurdjieff nos trouxe a respeito do assunto. Como vimos, para as pessoas em geral, seja o varredor de rua ou o intelectual, a questão da individualidade está resolvida da forma que acabamos de expor. Alguns podem até discutir filosoficamente o assunto, mas, independentemente do nível cultural, a individualidade não representa para eles um problema real. A questão só se levanta para os que querem despertar internamente; para esses, trata-se de um assunto essencial – algo sem o qual simplesmente não existiriam. Por exemplo, a respiração é essencial para qualquer organismo vivo. Não se vive sem oxigênio: nem nós nem uma barata! O que seria parte da essência de um leão? Antes de tudo, ele é um animal. Sua potência predadora também é essencial nele. Já a juba, por exemplo, não é essencial: se alguém a cortar, ele não deixará de ser leão.

SER: Se prendermos o leão e lhe arrancarmos as presas e garras, ele continuará sendo um leão. Pode tornar-se um arremedo de leão, mas ainda será um leão.

PAULO: Muitos atributos importantes lhe foram tirados, mas não a essência.

SER – O essencial é imutável?

PAULO: Vamos discutir agora essa questão extremamente profunda. Muitas escolas filosóficas a abordaram. Existem coisas essenciais e existem atributos. O touro, por exemplo, é visto com freqüência como símbolo de virilidade. Um touro castrado deixaria de ser touro? Talvez.

SER: Ele se tornaria boi.

PAULO: Mas não deixaria de ser animal.

SER: É como um homem que muda de sexo, mas não deixa de ser uma pessoa.

PAULO: Nesse caso, temos como provar: seus cromossomos ainda são de homem, ou seja, em cada conjunto de 23 pares, ele continua tendo um par de cromossomos XY. O que mudou, então, foi a aparência, de homem para mulher. Ele alterou apenas seus atributos. Esse é um bom exemplo do que é essencial. Não estamos pretendendo criar uma fórmula fixa, mas apenas levantar a questão. Voltando à identidade, podemos dizer que nosso nome, que está registrado em nossos documentos, é um atributo; se tivéssemos outro nome, não deixaríamos de ser quem somos.

SER: Então, tudo que pode ser mudado é atributo. O que não dá para mudar de forma alguma é essencial.

PAULO: Agora já começamos a compreender. Concluímos que a história pessoal também é um atributo, uma vez que ela poderia mudar totalmente; bastaria alterar um simples dado, como o lugar de nascimento, por exemplo. Se meus pais, que viveram parte de sua vida no interior de São Paulo, tivessem morado no Rio Grande do Sul, minha história pessoal seria bem diferente do que é.

SER: Um agente secreto faz isso, muda toda a história pessoal.

PAULO: Perfeitamente. Fugitivos de guerra modificavam tanto seu histórico que ninguém mais sabia quem era, de fato, aquela pessoa.

SER: Mas, para o próprio fugitivo, sua história continua inalterada.

PAULO: Sim, mas poderia ser outra. Suponhamos que ele tenha sido formado dentro da concepção nazista. Seu background seria outro se ele tivesse nascido em uma época ou lugar diferente. Então, o histórico não é algo essencial, é um atributo. O Chacal, por exemplo: ninguém jamais soube ao certo qual era sua verdadeira história, os registros foram apagados. Mas não se pode negar, por exemplo, que era um indivíduo do sexo masculino; isso é imutável nele.

Vamos prosseguir. Para esclarecer nosso ponto de vista, temos de compreender que o problema vai ganhar um significado profundo a partir do mapa do ser humano. As pessoas não se dão conta de que isso existe. O que é esse mapa? Para a maioria, é o aspecto físico, o rosto, o nome, o comportamento e a biografia. Contudo, o mapa do ser humano, que o Sr. Gurdjieff nos legou, trata da essencialidade humana ou da individualidade. O que ele mostra? O Sr. Gurdjieff nos ensina que esse mapa pode ser considerado de diferentes maneiras. Uma delas, que usaremos aqui, apresenta o ser humano constituído por quatro grandes camadas. A primeira é, evidentemente, o corpo que podemos ver. Mas o corpo anatômico tem todo um funcionamento interno – o segundo plano. Neste está inserida a capacidade de pensar, de se emocionar, de se movimentar, de fazer sexo e, ainda, a fisiologia dos órgãos internos. Tudo isso corresponde ao segundo plano.

SER: As biografias e autobiografias vão até esse ponto, não é?

PAULO: Exatamente, veja como o mapa nos ajuda: as biografias e autobiografias falam da aparência e daquilo que o segundo plano produziu, mas não se referem a este plano em si. Por exemplo, alguém pode ser completamente perturbado e, ao mesmo tempo, escrever histórias para crianças. Tentamos inferir o modo de ser de alguém, no segundo plano, por seu comportamento. Dizemos, por exemplo: “Fulano é um pervertido”, ou “Beltrano é um santo”. O primeiro plano pode ser captado pelos órgãos dos sentidos; o segundo, não. É possível apenas deduzir o que o outro está pensando ou sentindo.

Além desses planos, existe ainda um terceiro, difícil de ser nomeado, pois se situa no reino da experiência interior. Podemos chamá-lo de diferentes maneiras: de “alma”, por exemplo, mas este termo é complicado, por causa da evidente conotação religiosa. Pode-se trocar alma por “anima”, sua tradução em latim. É o terceiro plano que dá origem aos dois primeiros. Ele se encontra em uma camada mais profunda do ser, caracterizada pela capacidade de não se envolver tão intensamente com o primeiro e o segundo. É um plano que pode conhecer de forma muito mais abrangente que o emocional ou o mental. É difícil descrevê-lo, mas vamos tentar dar uma idéia precisa ao leitor. A maior dificuldade aqui não é de ordem lingüística, mas causada pela falta de experiência que as pessoas têm desse plano. Para os que já o experimentaram, é facílimo falar. Nele reside a calma profunda, a paz profunda, além de ele ser um plano de grande inteligência, onde a dualidade – bem e mal, certo e errado – não existe. É uma inteligência que tudo abarca, que tudo une. É o plano do sentimento profundo.

Sentimento aqui não deve ser confundido com emoções. Por exemplo, em uma Olimpíada, alguém pode torcer por este ou aquele, se emocionar durante a competição – mas não se trata, neste caso, de um sentimento de fraternidade, de irmandade, de compaixão.

Como dissemos, faz parte do terceiro plano uma inteligência finíssima. Entender o que acabamos de expor de maneira apenas mental, sem ter passado pela experiência, é impossível. Essa é a grande dificuldade quando tratamos da individualidade. É imprescindível haver uma experiência que leve ao terceiro plano, para realmente compreendê-lo.

Mas existe ainda um quarto plano, superior ao terceiro. Curiosamente, é mais fácil falar dele ao leitor não iniciado do que do terceiro. Podemos chamá-lo de “testemunha” ou “aquele que testemunha”. É uma consciência, uma percepção que assiste a tudo que se passa em nosso interior. A testemunha percebe o que você está pensando, o que está sentindo, o que está ocorrendo com seu corpo, e também o que acontece no terceiro plano. Pode, por exemplo, constatar se você está ou não em estado de calma profunda.

Com esse mapa, começamos a compreender um pouco o assunto individualidade. A real individualidade não está no corpo – que, sendo fruto do DNA de meus pais, não pertence à minha natureza profunda – nem nas funções pertencentes ao segundo plano.

SER: E o corpo muda constantemente.

PAULO: Sim; além do mais, ele me foi dado. Portanto, é meu, mas não “sou eu”.

SER: Isso fica óbvio entre as crianças.

PAULO: É verdade. No que diz respeito às cinco funções internas – pensar, emocionar-se, movimentar-se, fazer sexo e funcionar fisiologicamente –, há algo muito desmoralizante. Uma escritora portuguesa, que estava na FLIP, usou uma expressão muito feliz, ao falar de crianças. Disse: “Criança é uma máquina de imitar”. É verdade, a criança imita o tempo todo: o pai, a mãe, os irmãos mais velhos, etc. Depois, já adolescente, passa a copiar os ídolos, seu melhor amigo e assim por diante. Portanto, nossos pensamentos, emoções, nosso jeitão de nos locomover, todo o nosso funcionamento interno é determinado pela imitação. A etnia, os pais, o local e o momento histórico em que vivemos, tudo isso nos condiciona. O que é considerado lindo em um dado momento histórico pode ser visto como horrível em outro. Fumar, na década de 40 e 50, era o máximo! Todo galã tinha um cigarro na mão. Hoje, quem fuma é mal visto. Não há, nos dois primeiros planos, algo que seja autenticamente “eu”, algo genuíno em mim. Tudo me é imposto, de certa forma.

Nesse sentido, só se pode falar em alguma coisa genuína a partir do terceiro plano, que chamamos de alma. Esse plano não é suscetível às influências exteriores. O quarto plano, a consciência que tudo vê, também não: ela simplesmente vê. Quando começamos a analisar algo, já não estamos mais na consciência; já é um processo pensante.

Vou dar agora alguns sinônimos de individualidade para compreendermos melhor seu real significado. O primeiro é originalidade. O que, em mim, é original? Não posso sequer dizer que minha impressão digital o seja: a cada três bilhões de pessoas, posso encontrar outra igual à minha. Você poderia argumentar: o DNA é único. Tudo bem, mas eu não vivencio meu DNA, ele não tem, para mim, um sentido de consciência. O que, então, é original em mim? Evidentemente, a língua que falo não o é, meu modo de pensar também não, uma vez que meus conceitos pertencem à época em que vivo, não são autenticamente meus.

O segundo sinônimo é singularidade. Basta olhar os rapazes e moças na rua, todos vestidos da mesma forma, para constatar que ninguém é singular. É difícil ver em São Paulo um carro que não seja de cor preta, prata ou azul-marinho.

Portanto, minha pessoalidade não está no que penso, em minhas reações emocionais, muito menos em minha certidão de nascimento ou fotografia. Aliás, a fotografia e os registros de nascimento são muito recentes em termos de humanidade. Em algumas partes do Brasil ainda não existe nada disso. Imagine, então, na Roma antiga! Faz pouco tempo que a sociedade encontrou esses modos de identificar, mas eles não fazem de ninguém um ser único.

SER: Para ser únicos, temos de olhar para dentro de nós mesmos, não é?

PAULO: Daí a dificuldade de expor a questão da identidade. Ela não pode ser abordada apenas intelectualmente. É preciso uma prática de recolhimento para compreendê-la. Se for tratada de forma apenas mental, as pessoas dirão: o que interessa é que tenho este corpo, esta forma. Não me interesso por outra coisa. No entanto, essas mesmas pessoas, muitas vezes, têm curiosidade em relação a seu mapa astral. No fundo, intuem que não são apenas o corpo e suas funções. Todo o mundo tem a intuição de ser único: o namorado quer ser único para a namorada, a criança quer ser especial na escola, o atleta deseja bater recordes nos jogos; todos, enfim, almejam ser especiais.

SER: Ainda ontem, assisti na televisão a um programa que, para mim, revela a que ponto o ser humano pode chegar na tentativa de ser único. Tratava-se de carros supersônicos, os mais rápidos do mundo. A velocidade é tamanha, que o motorista pode sair da experiência morto ou com graves problemas de saúde. Poucos passam ilesos pelo teste. Mesmo assim, há pessoas que se dispõem a fazer o test drive, só para dizer: “Sou o único ser vivo que suportou tal velocidade”.

PAULO: É um bom exemplo do que estamos dizendo.

SER: O padre que morreu por querer voar com as bexigas também ilustra essa necessidade.

PAULO: Pode-se dizer que as pessoas fazem isso por ambição, por vaidade. Mas o que é o vaidoso? É alguém querendo ser único. As pessoas competem para bater recordes por décimos de segundo. É alucinante! Elas estão girando em torno do “eu”, da individualidade, mas, como não têm disciplina, como não fazem parte de uma Escola de aprofundamento da consciência, procuram ser únicas batendo recordes, por exemplo.

Outro sinônimo de individualidade é isolamento. Separar-se, isolar-se faz as pessoas se sentirem únicas. Praticar intimamente o afastamento de todos e de tudo que é atributo em mim me leva à individualidade. Meus conceitos mentais, memórias, reações emocionais, minha descendência, minha inserção social são importantes porque não posso viver sem isso, mas não são essenciais. Por isso, preciso me separar dessas coisas. Como? – perguntaria o leitor. Primeiramente, por uma reflexão como a que estamos fazendo agora. Depois, é necessário desembaraçar-se de tudo que não é essencial. Por exemplo: tenho um determinado conceito sobre mulheres. Um dia, percebo que ele se originou em meu processo de formação e que hoje já não faz o menor sentido. Só tinha significado no contexto da época. No entanto, continua condicionando minhas reações emocionais no trato com as mulheres, tornando-me inadequado, desarmônico. Outro exemplo: o pai que agride a filha por ter engravidado do namorado está repetindo o que foi ensinado à sua geração. Se conseguir separar-se da idéia que lhe foi imposta – de que aquilo é abominável –, poderá olhar a situação de maneira muito mais abrangente, mais justa e humana. Quando me isolo, passo a ver as coisas com mais sentimento, com calma, paz, alegria. Ao fazê-lo, estarei construindo minha individualidade.

Muitas vezes, somos condicionados pelo mau funcionamento fisiológico. Por exemplo: uma moça na TPM, ou alguém com problemas no fígado, pode agredir outra pessoa por causa do mal-estar físico. Se, porém, for capaz de perceber o que está acontecendo consigo, pode agir de maneira a se destacar daquilo que está determinando seu comportamento.

Em todos esses casos, a individualidade começa a alvorecer. Individualidade implica independência; depende de liberdade diante dos condicionamentos do corpo, das emoções e da mente. A semente da individualidade é a libertação! Quando me isolo, posso optar: faço isto ou aquilo. Sem essa escolha, não posso falar em individualidade, porque meus condicionamentos mandam em mim automaticamente. Na verdade, não se perde nada com o isolamento, pois podemos usar os condicionamentos de forma consciente, caso necessário. Essa é a grande descoberta!

O estado de isolamento se chama kaivalya em sânscrito: “ficar isolado”. As pessoas tomam a idéia ao pé da letra e vão isolar-se no Himalaia. Não há necessidade disso. Os hindus também chamam esse estado de quarto estado. O ensinamento gurdjieffiano fala em quarto caminho. Podemos dizer que o quarto caminho é o caminho da individualidade. Há outras formas de defini-lo, mas todas, de alguma forma, estão relacionadas com isso. No processo de isolamento, nós nos expandimos, ganhamos espaço.

A individualidade está ligada à justiça. Não é justo, por exemplo, eu agredir alguém porque estou com dor de cabeça. Ou negar algo a meu filho porque me sinto infeliz no amor. Não, não é justo! É preciso que apareça um “eu” com a capacidade de enxergar, de tomar consciência dos fatores que condicionam meus pensamentos, minhas emoções e ações. Esse é o começo da verdadeira individualidade. É o que o Sr. Gurdjieff quer nos fazer compreender: se você não fizer isso, não conhecerá sua verdadeira identidade. Para entender esse ponto, é necessário compreender o mapa que divide o ser humano em quatro planos.

SER: Esse mapa é, ao mesmo tempo, o mais democrático e o menos democrático que existe. É democrático no sentido de que todos teriam a possibilidade de praticar o isolamento. Ao mesmo tempo, a maioria das pessoas não se dá conta do estado habitual em que vive, condição para se interessar pelo destacamento.

PAULO: Sua intervenção é importante. Esse material, colocado na Revista, vai ficar perene, como um guia que levará pessoas a refletir.

SER – Será um chamado.

PAULO: Estamos expondo aqui que existe a possibilidade – para os que se interessarem. É fascinante constatar que todo ser humano necessariamente tem esta inquietação dentro de si: “O que eu sou, na verdade? Qual é meu DNA essencial?” Não o código genético do corpo, mas o DNA essencial, que começa a emergir com o questionamento que estamos propondo.

SER: Quer dizer que nosso DNA essencial está calcado no terceiro e quarto planos do mapa do ser humano?

PAULO: Sim, obrigatoriamente.

SER: Mas se manifesta nos dois primeiros planos, não é?

PAULO: Interessante você colocar isso, porque poderia ficar a impressão de que o terceiro e quarto planos são um tanto abstratos. Não, não

são! É deles que partem as grandes qualidades humanas. A grande arte, a grande literatura, a grande pintura, a grande poesia vêm daí. Toda inspiração se origina neles. Ou seja, as musas habitam o plano da individualidade, do verdadeiro “Eu sou”, mas isso não quer dizer que não se manifestem nos planos inferiores.

É importante compreender que, se não estou indo ao encontro de minha verdadeira individualidade, estou caminhando no sentido oposto, em direção a meu eu exterior. E mesmo que eu me atribua originalidade, estarei apenas repetindo. Serei um pintor copiando outro, um escritor plagiando outro. Talvez até com alguns toques pessoais, mas que são variantes da mesma coisa. Só traz para este mundo algo absolutamente genuíno quem está em contato com o terceiro e quarto planos.

SER: Existe a possibilidade de chegar a isso sozinho, sem instrução sobre o assunto?

PAULO: A possibilidade existe. Podemos citar como exemplo Ramana Maharshi, na Índia. Mas a exploração completa e coerente do assunto depende muito de Escolas de trabalho interior e das tradições em que elas se apóiam. O suporte da Tradição não contradiz o que dissemos antes. Você poderia argumentar que o indivíduo que se baseia em uma tradição não é original. Sim, é original, porque as Escolas não propõem que ele fique repetindo idéias. Querem que ele toque a profundidade de onde vem a inspiração e que traduza, em seus próprios termos, sua experiência. Podemos constatar que Moisés tinha sua própria linguagem. Jesus Cristo, Krishna, Buda, Zoroastro, todos falam a mesma coisa de maneira completamente diferente.

Existe uma expressão que eu gostaria muito de usar aqui: é a palavra “reconhecer-se”. A grande questão do ser humano é reconhecer-se! O mapa dos quatro planos implica a origem divina do ser humano, com seu ilimitado potencial de alargamento, de expansão. Normalmente não percebo isso, daí a importância da palavra reconhecimento.

SER: Sem a experiência do isolamento, o reconhecimento fica só teórico, filosófico. Se não houver um mínimo de contato com o terceiro e quarto planos do mapa do ser humano, nos quais ou não há mais conteúdos ou eles estão tão distantes que se tornam imperceptíveis para você, não é possível começar um caminho novo, o caminho do reconhecimento. E como essa estrada não tem as condições usuais do mundo que conhecemos, é difícil falar dela. As Escolas de ciência interior tentaram mencionar esse plano. O que caracteriza minha experiência pessoal é que tudo nele é novo, nada se repete, porque está baseado em leis que o mundo habitual desconhece. Por isso, existe a princípio um estranhamento em relação a ele. Mas, se aceitarmos essa estranheza, acaba acontecendo exatamente o que você disse. Quando voltamos à vida cotidiana, fica muito evidente que algo foi transportado desses planos superiores, que alguma coisa vazou, nem que seja uma gota, uma pequena luz, uma irradiação. É impressionante o poder que isso tem. Essa gota ou irradiação tem um poder de atuação, de transformação, um poder mágico incrível!

PAULO: É claro que os grandes artistas, por maior que seja a loucura de alguns deles, têm momentos de contato com o terceiro e quarto planos. Isso, provavelmente, os perturba, ou até mesmo desequilibra. O contato estanque com os planos superiores faz com que percebam a completa superficialidade da vida comum. Eles ficam revoltados, mas não se resolvem, porque não têm uma Tradição para orientá-los.

Então, na medida em que eu puder me recolher para um plano mais profundo, começo a tocar aspectos cada vez mais divinos do ser e posso, eventualmente, tornar-me um instrumento para que os planos superiores se manifestem no mundo. Fica claro, aqui, que a questão da individualidade nos leva necessariamente à constituição divina do ser humano.

Vou falar um pouco sobre o recolhimento para os leitores que não tenham essa vivência. É possível reconhecer sua natureza fazendo um paralelo com os três estados de consciência conhecidos por todos: a vigília, o sono com sonhos e o sono profundo. No estado de vigília, estamos no mundo dos objetos visíveis e palpáveis. No sono com sonhos, já não temos mais contato com o mundo tangível; vivenciamos no sonho apenas a repetição das impressões que os objetos produziram em nós. Quando dormimos profundamente, sem sonhar, tudo desaparece e entramos em um estado de profundo repouso, de profundo bem-estar.

No processo de recolhimento se dá praticamente a mesma coisa: atingimos o estado de sono profundo conscientemente, sem estar dormindo. Quando tocamos o terceiro plano do mapa do ser humano por meio do recolhimento, descobrimos que ele nos proporciona repouso, calma, bem-estar, da mesma forma que o sono profundo.

E há ainda o quarto plano, que assiste a todo o processo de recolhimento e é responsável pelo processo. No sono sem sonhos, é a natureza que nos coloca no estado de calma.

Esse paralelo talvez ajude o leitor a ter uma noção de tudo que dissemos no decorrer desta entrevista. E isso pode ser útil não só às pessoas que não pertencem a Escolas de trabalho interior, como também às que as freqüentam. Muitos de seus membros não praticam o recolhimento de verdade, conscientemente. A grande notícia aqui é que a bênção que cada um de nós experimenta ao dormir profundamente pode ser vivenciada conscientemente.

Na verdade, eu sou esse eu consciente, esse eu que corresponde à minha verdadeira individualidade.

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Paulo A. S. Raful, instrutor do Grupo Gurdjieff São Paulo. Fotos de Saul Nahmias.

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Aqui começa a construção da identidade social. (Banco de Imagens)

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A verdadeira individualidade é rigor e misericórdia.

São Paulo em Listra. Karel Dujardin (1622-1678)

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A verdadeira individualidade é servida e reverenciada por todas as forças do Universo.

A Visão de Ezequiel. Rafael (1483-1520)

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A verdadeira individualidade é sempre luminosa, radiante. Vishnu. Pintura de Dhrti-Devi Dasi (1981)

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A verdadeira individualidade é como o Sol, fonte de luz, calor e vida. Foto de José Carlos Bisconcini Gama.

MOVIMENTOS....Voltar para o Índice

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Fotos de José Carlos Bisconcini Gama

Poema dos Movimentos

Quem são estes seres sem nome, sem posse ou apego?

Eles não têm história, carência nem medo?

São meus semelhantes e também não o são.

De que planeta vieram? Em que planeta estão?

Eles estão no reino encantado da Alma.

Ah! Este olhar, este silêncio, esta calma...

Não existe mais o lado luminoso ou o sombrio,

Estão saturados de Espaço, preenchidos de Vazio.

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DIÁLOGOS COM UM HOMEM DE ATENÇÃO....Voltar para o Índice

LAURO RAFUL

Vamos falar de humor?

SER: Que mistério é esse que chamamos humor? Ele está sempre conectado ao riso?

LAURO: Não, não necessariamente. Eu diria que o humor é uma qualidade que se situa entre dois mundos. Está entre o mundo mental e o emocional ou, em outras palavras, entre o céu e a terra. É, portanto, uma terceira força que vem de outro plano, muito mais alto do que o que conhecemos normalmente. É um estado de espírito. O riso é apenas uma decorrência desse estado. Costuma-se dizer que o homem é o único animal que ri. O riso, portanto, é próprio dos seres humanos, dos que têm a possibilidade de conectar-se com um mundo de ordem superior. Todo humorista, em certa medida, é bafejado por essa terceira força.

SER: O riso está ligado ao amor?

LAURO: No riso, há sempre uma dose de amor, claro que se o humor não for corrosivo. Sabemos que existe esse tipo de humor, fruto de mentes destrutivas. O verdadeiro humor é um estado de espírito, uma abertura de coração, e, por isso, é benfazejo. Já a crítica mordaz é uma espécie de humor decaído. O humor benfazejo, aquele que nos faz rir até perder a respiração, permite soltar as velharias que estão dentro de nós, as teias de aranha que, ao longo da vida, vão-se formando em nossos pulmões, em nossa cabeça e em nosso mundo emocional. O humor alegre nos livra dessas velharias. As pessoas, em geral, não percebem que ele vem de um plano alheio ao mental comum. Esse humor agradável nos traz juventude, pois areja nossos conceitos, nossas emoções e nossas tensões. Ele nos alivia da carga pesada que, em geral, arrastamos ao longo da vida. Sem dúvida, a maior razão para rir é nos sentirmos felizes. Você pode não estar feliz, mas, quando ri, fica contente. O riso reforça os bons sentimentos que temos em relação a nós mesmos, aos outros e ao mundo à nossa volta. É uma força mágica!

SER: Quando, por alguma razão, dou uma boa risada, sinto que não volto mais ao estado anterior de fechamento. Uma boa gargalhada solta tudo.

LAURO: O riso contém uma força mágica que pode mudar o mundo. Quando rimos, vemos tudo de forma nova. O riso traz a força necessária àquele momento, e pode alterar para sempre nosso futuro. Lembro aqui uma frase de Ella W. Wilcox: “Ria, e o mundo rirá com você; chore, e chorará sozinho”. Eu acrescentaria: pior ainda, dormirá sozinho... O humor é um embate entre duas idéias, uma surpresa que nos faz liberar uma energia gostosa. Ele nos torna felizes por instantes. É por esta razão que as pessoas vão a espetáculos humorísticos ou assistem a programas desse tipo na televisão: querem sentir-se felizes.

SER: O riso é uma massagem emocional?

LAURO: Sem dúvida, é uma massagem interna. Ele nos relaxa, desfaz nossas preocupações e ansiedades, nos torna mais tolerantes.

SER: Podemos rir por dentro enquanto permanecemos sérios exteriormente?

LAURO: Só podemos! O famoso Don Juan dos livros do Castañeda fala em “loucura controlada”. Eu diria que ela está conectada ao humor porque, quando rimos, vemos o mundo de cabeça para baixo.

É esta a loucura controlada de que fala Don Juan: ver o mundo de cabeça para baixo, enquanto permanecemos livres interiormente. As pessoas, em geral, mentem; não percebem que vivem no inferno. Estão no mundo, mas vivem no inferno! Estão sempre querendo consumir alguma coisa, movidas pela cupidez. Quando percebemos isso, rimos por dentro e agimos conforme o momento exige. Isso é loucura controlada. Muitas vezes, sair por aí falando a verdade não adianta nada. As pessoas podem querer interná-lo por ver o mundo diferentemente delas.

É como na caverna de Platão: dentro, só enxergamos sombras, mas, lá fora, tudo é claro. Freqüentemente, quando vemos uma pessoa fazendo a maior loucura, não adianta dizer nada; mas podemos rir por dentro. No atendimento individual que dou, muitas vezes percebo que a pessoa vai fazer uma bobagem, algo que não será bom para ela. Digo-lhe isso, mas não dá outra: ela vai e faz. Depois de, digamos, umas quatro sessões, tentando inutilmente emendar a tolice que ela fez, rimos juntos. A grande arte é manter-se bem-humorado por dentro, mesmo nas situações mais difíceis. Até mesmo diante da morte de alguém, podemos ter humor. Por que não? É possível ter humor e sofrer ao mesmo tempo. Porque o humor é o sussurro da alma, é um convite dela: seja feliz!

Humor é beatitude, pois nos destaca do nosso estado habitual. Com ele, vemos a situação a partir de outro ponto. Quando olhamos as coisas de cima de uma árvore ou de um prédio, elas não nos tocam da mesma forma que o fariam se as víssemos de perto. Se estivermos no trigésimo andar e virmos alguém roubando a bolsa de outra pessoa, aquilo não nos tocará muito. Poderemos até rir! Mas se estivermos por perto e ouvirmos a pessoa gritar por socorro, sofreremos. Se formos a vítima do roubo, então, nosso sofrimento será ainda maior. No entanto, mesmo sendo vítimas, temos sempre a possibilidade de rir do fato, o que, de alguma forma, aliviará o fardo interno. O riso atenua o peso dos acontecimentos!

SER: Há poucos dias, vi no site do grupo um daqueles cartões que podemos usar como pano de fundo no computador. Era a imagem de dois meninos brincando na praia, e a frase que o acompanhava dizia: “Da alegria nasceram todos os seres; pela alegria, vivem e crescem; para a alegria eles retornam”. A frase foi tirada dos Upanishads, e é maravilhosa! Podemos facilmente constatar que, na vida, todo o mundo está mergulhado no sofrimento e na tristeza. Mas já vi tradições afirmarem que o pano de fundo do Universo é pura alegria, e agora estou relacionando isso com o que você está dizendo.

LAURO: Como dissemos, o humor é uma forma de amor, vem da mesma fonte. Ele faz parte da trindade hindu: sat (vida), chit (consciência) e ananda (beatitude). A beatitude é amor, é alegria, e alegria é humor. Portanto, o humor faz parte do amor, pertence à mesma família. Quando está amando, você fica contente por qualquer motivo. Pode até estar ao lado de um bandido, mas o mundo fica bonito, você se alegra com tudo. O humor, portanto, é uma forma de amor.

Podemos mudar pessoas por meio do humor. Gente fechada, mal-humorada, pode ficar simpática quando tratada com humor. O Paulo, o Osvaldo e eu conhecemos uma pessoa extremamente ranzinza, que se transformou com as nossas brincadeiras, com a nossa alegria. A energia que passamos através do humor fez com que ela se tornasse mais simpática.

SER: O poeta e pintor inglês William Blake chamava os que buscavam a liberdade interior de “Filhos da Alegria”. Quando estamos alegres somos mais livres, não é?

LAURO: “Filhos da alegria” é um bom nome para os que têm humor. Bem-humorados, vemos as coisas de maneira nova: focamos o positivo em vez do negativo. Há duas maneiras de encarar a vida: de forma séria, preocupada, ou de maneira risonha. Você pode escolher, em relação a qualquer assunto que se apresente. O fato de rirmos dos acontecimentos da vida em vez de temê-los nos conduz a comportamentos inusitados. Quando mudamos a percepção da realidade, a própria realidade muda, e o riso é o agente catalisador dessa mudança.

SER: Sabemos que, nas artes cênicas, historicamente, a tragédia era valorizada como a verdadeira arte, enquanto a comédia era considerada menor. Como explicar esse fato?

LAURO: O problema é que as pessoas gostam muito da tragédia. Elas vivem em um mundo dramático, de sofrimento. As pessoas amam e valorizam o sofrimento. Se você disser a um tristonho que ele pode ser alegre, se desgrudando dos fatos difíceis da vida, provavelmente ele objetará que você é um irresponsável. Vemos, portanto, que a tragédia é mais fácil de ser compreendida pelas pessoas do que a comédia.

SER: A tragédia toma as pessoas.

LAURO: E com facilidade. As pessoas se identificam com ela e vêem na comédia algo inferior: acham tolo ir a um lugar só para rir. Este ano, estamos tentando propor uma nova maneira de ser, com a idéia do humor. O humor não é uma bobagem; é um estado de ser, uma atmosfera. A falta de humor em uma relação é sinal de que algo está errado. Se não há lugar para o humor, é porque a relação chegou ao fim. Por outro lado, o humor pode ajudar um relacionamento a se manter saudável, forte, criativo. Partilhar o riso ajuda a partilhar amor. O riso nos ajuda a amar. É esta a nova proposta: pelo riso, podemos aprender a expressar nossos sentimentos e a confiar neles. Ele é o portador da alegria frente às dificuldades da vida. Mesmo diante da velhice e da morte, podemos rir. Por que não? Em certo sentido, podemos dizer que os deuses estão rindo de tudo, até mesmo da nossa desgraça; então, vamos imitá-los!

SER: Em períodos em que consegui liberar mais o meu humor, as pessoas diziam: “Nossa, você parece uma criança”. Isso porque o humor é gostoso, é puro, é limpo!

LAURO: Hoje, podemos treinar o humor de forma consciente. Na criança, o riso é fruto da ingenuidade, e pode cair em uma bobeira; no adulto, ele pode tornar-se consciente. Volto a citar o bem-humorado Don Juan dos livros do Castañeda. Ele é um mestre pouco palatável para o grande público, que procura mestres sérios, que falem lentamente. As pessoas relacionam humor com falta de responsabilidade, com alienação. Don Juan tem um humor fino, que resolve problemas. Outro exemplo é o Macaco Simão, da Folha de São Paulo, que fala as maiores verdades para os famosos e todos riem, não ficam tão ofendidos. Porque ele consegue captar a essência do momento daquela pessoa para fazer a brincadeira. É admirável ver as verdades que ele diz por meio do humor.

SER: Isso aparece no personagem do bufão: pelo humor, o bobo da corte diz verdades ao rei.

LAURO: Ele pode fazer isso porque ri o tempo todo, escolhe o jeito certo de falar e o rei não toma de forma pessoal o que ele diz. Nossa proposta, hoje, é tentar buscar o que chamamos de “grande humor”.

O “Eu Real”, nosso verdadeiro Eu, é bem-humorado. Já nosso “eu menor”, que muda a cada instante (uma hora você quer uma coisa, outra hora deseja outra; em um momento você ama alguém, em outro não tem mais nada a ver com a pessoa) – esses eus menores, sempre cambiantes, às vezes são bem-humorados, outras, casmurros. Quando falamos aqui em humor, estamos nos referindo ao humor que vem de nossa profundidade, do “Eu Real”, que não é uma coisa séria, ou melhor, é a coisa mais séria do mundo e, ao mesmo tempo, uma grande brincadeira. Ele não se impõe a ninguém: se quiser me amar, me ame; se não quiser, não o faça. Isso é muito bonito! O grande arquiteto do Universo brinca com tudo: com vidas humanas, com mundos que engolem outros mundos, com buracos negros, etc. É tudo um grande jogo: a gente nasce e morre, nada é sério! Essa é uma forma nova de enxergar o mundo.

SER: O humor não deveria ser um caminho para adquirir uma nova qualidade de ser?

LAURO: Sim, o humor pode ser um caminho para aperfeiçoar a qualidade de nosso ser. Na tradição Sufi, por exemplo, foi criado o personagem Mulá Nasruddin, que transmite o Ensinamento por meio de um humor aparentemente absurdo. Todo o mundo pensa que um mestre do caminho interior deva ser alguém muito sério, mas ele pode ver suas dificuldades e as dos outros de forma divertida. Isso proporciona mais saúde para lidar com a vida. Se você olha o mundo com mau humor, fica tenso, o que é burrice. Mas se chegar bem-humorado a um lugar, tudo muda. Faço isso todos os dias! No trânsito, mesmo de motocicleta, usando capacete, os motoristas de ônibus me dão passagem. É mágico! Não é preciso falar nem expressar nada: basta espalhar amor e bom humor com sua presença.

SER: O humor é algo material?

LAURO: Sim, é material. No caso que citei, o motorista não sabe por quê, mas me deixa passar.

SER: Para uma pessoa mal-humorada, as coisas são mais difíceis. E como são difíceis, ela diz para si mesma: “Eu tenho razão de ser mal-humorada; tudo dá errado para mim”. Aqui perto, há um ponto de táxi com ótimos motoristas, mas um deles é muito ranzinza. Ninguém quer pegar o táxi dele, e ele fica doente de raiva por causa disso.

LAURO: E esse fato reforça para ele a idéia de que é um infeliz, que o mundo está contra ele.

SER: Por que muitos humoristas são pessoas tristes, às vezes loucas e neuróticas? O humor não deveria ser um caminho para a qualidade do ser?

LAURO: Vamos tomar como exemplo o Woody Allen: é um grande cômico, um grande diretor, mas eu diria que ele é muito mental e angustiado. Talvez, sem a fagulha do humor, ele fosse ainda mais angustiado. Com humor, ele consegue levar uma vida digna, bastante boa.

SER: Dizem que o Gordo e o Magro também eram pessoas difíceis.

LAURO: O humor é um remédio maravilhoso. Já fizeram a experiência de passar filmes do Gordo e o Magro para doentes que, depois, apresentaram grandes melhoras. Isso mostra como o humor é benéfico. Oliver Hardy e Stan Laurel não tinham o estado de beatitude que estamos propondo aqui. Mas conseguiam fazer rir. É como o poeta que toma uma grande idéia, desenvolve-a, e a gente entra em um estado de beatitude com aquilo, mas ele não estava nesse estado. O que propomos aqui é que vocês partam do bom humor, da bem-aventurança, em todas as situações da vida, independentemente de estarem rindo ou não. Como dissemos acima, o humor é independente do riso; rir é uma conseqüência. Os humoristas trabalham, porque querem nos fazer rir. O que propomos aqui é diferente.

SER: O humor foi sempre a arma usada para dizer verdades na cara dos poderosos, sem que eles pudessem usar seu poder contra quem fala. Há um poder inerente ao humor?

LAURO: O humor tem um grande poder de mudar as situações. Se você entra bem-humorado em um lugar, pode mudar sua atmosfera. Se chegar leve, flutuando em alegria, ajudará a transformar totalmente o ambiente. Percebo isso toda hora, em todo lugar. Mas não adianta nada chegar sorrindo apenas por fora, como os políticos. O bom humor tem de vir de dentro de você, de sua profundidade. Não se trata de algo mental nem emocional. O verdadeiro humor é um sussurro da alma!

Compartilhar o riso ou a jovialidade cria laços de amizade. Quando rimos juntos, não somos mais idosos, jovens, professores, alunos, chefes ou subalternos; somos apenas um grupo de seres humanos, desfrutando a existência lado a lado. Isso é bonito, não é? O riso retrata uma vida livre, espontânea, criativa e pacífica. Quando rimos juntos, nos unimos no topo do mundo, e vislumbramos a realidade com a simplicidade que lhe é própria. Porque a realidade é simples!

Mesmo sentindo uma dor horrível, você pode sorrir. É claro que você vai tentar aliviar ou eliminar a dor, mas nada impede que você a trate com humor. Se for consultar um médico levando seu bom humor, ele também vai atendê-lo desse modo. E juntos, vocês poderão encarar a doença ou a dificuldade em estado de felicidade.

SER: Por que algumas pessoas têm tanta dificuldade de rir? Parece que a coisa mais difícil é rir de si mesmo. Somos atores muito sérios no palco da vida?

LAURO: Em geral, escolhemos o lado sério da vida. É incrível como as pessoas têm dificuldade de rir. Mesmo assistindo a uma comédia no cinema ou no teatro, muitos não riem. Quando fizemos aqui no Grupo a apresentação sobre humor, notamos que muitas pessoas tinham a expressão muito séria, mesmo gente que, soubemos depois, gostou muito da apresentação. Acontece que as
pessoas não desmancham seus rictos, não movimentam a musculatura dos
lábios, da boca e da barriga. São pessoas que não abandonam os conceitos rígidos de sua educação: não aprenderam a rir, a se soltar, a se largar, a deixar de lado seus papéis. Não abdicam daquilo que pensam que são! O catedrático, por exemplo, não quer se desfazer do papel de professor sério e, por isso, acha que não deve rir.

SER: A foto de Einstein de boca aberta, mostrando a língua para o mundo todo, inclusive o dos cientistas sérios, é uma exceção à regra, não é?

LAURO: Na famosa fotografia, ele está mostrando humor. Isso é maravilhoso! Um físico, um matemático, fazendo humor – é admirável! E por que não? É a rigidez do condicionamento da pessoa que a impede de rir. Rir de si mesmo pode ser uma grande arma de transformação. Deveríamos todos aprender a fazê-lo. Quando, por exemplo, você estiver argumentando seriamente com uma pessoa sobre algo que considera importante para ela, dê uma parada e pense: “Que bobagem estou fazendo!” Nessa hora, você pode rir de si mesmo. Esse é um poderoso instrumento de mudança.

SER: Percebo que minhas amizades se mantiveram porque a gente ria junto. Para mim, rir junto possibilita essa continuidade. Já me aconteceu de quase perder uma grande amiga, porque estávamos muito sérias. Quando nos demos conta, começamos a rir do fato e a amizade criou novamente uma graça, um interesse.

LAURO: É o que dizíamos há pouco: “Rir junto cria laços de amizade”. Se duas pessoas têm humor, fica fácil uma desculpar a outra. Mas se você está em um vale de lágrimas, acaba tomando tudo de forma pessoal e cobrando coisas.

O riso leva ao relaxamento e vice-versa. Ambos aliviam tensões musculares, tranqüilizam o sistema nervoso simpático e regulam os batimentos cardíacos. Rir com a barriga tem um grande efeito anestésico, porque ativa a liberação de dois tipos de neurotransmissores químicos dentro de nós: as endorfinas e as encefalinas, comumente descritas como agentes naturais de supressão da dor, que nos proporcionam um estado interior de grande prazer. Rir é um convite a trazer o céu para a terra, beneficiando todo o planeta e a si mesmo. Você rejuvenesce, fica mais bonito, mais agradável. Rir só dá lucro! É um remédio que não custa nada e não tem nenhuma contra-indicação, ao contrário da maior parte dos medicamentos.

SER: Eu gostaria de levar nos lábios um sorriso sutil diante da vida, um sorriso de Mona Lisa. Quando olho para a figura que Leonardo da Vinci nos ofereceu, sinto nela um humor fino diante de tudo o que acontece. Seria esse o grande riso?

LAURO: O sorriso dela expressa beatitude. Leonardo conseguiu exprimir esse estado na figura de uma mulher. Mas é o mesmo sorriso de Buda e dos bodhisatvas [disse isso mostrando a figura de um bodhisatva na parede]. Este bodhisatva está rindo com muito humor. Devemos ter como meta esse sorriso da Mona Lisa, que abrange os lábios e os olhos. Na verdade, nosso corpo inteiro deveria ser um sorriso de bem-aventurança. É na atitude por trás do sorriso que está o grande humor. A piada é conseqüência desse estado. Ela pode existir ou não; o que importa, o grande humor, está atrás da anedota, da história engraçada. Devemos realmente buscar esse sorriso de bom humor.

O efeito do riso pode atenuar a ação dos hormônios relacionados ao estresse, os chamados “assassinos naturais das células”. As emoções que chamamos de positivas fortalecem o sistema imunológico. Já dizia Nietzsche: “O contentamento pode evitar um simples resfriado”. Pesquisas recentes sugerem que pessoas risonhas, bem-humoradas, que brincam com os acontecimentos da vida, têm maior quantidade do anticorpo chamado imunoglobulina A, que aumenta a imunidade, ajudando, portanto, a prevenir inúmeras doenças. É essa beatitude que devemos colocar sempre à frente. Nesse estado, você encontra a palavra exata no momento preciso, e muda pessoas. E elas vão querer sempre estar ao seu lado.

SER: São Francisco de Sales dizia que um santo triste é um triste santo. Temos vários exemplos de mestres espirituais bem-humorados, que utilizaram o humor na transmissão de seus ensinamentos. Gurdjieff, os mestres que aparecem nos livros de Castañeda, Osho, Ananda Moi Ma e São Francisco de Assis estavam sempre sorrindo. Você e o Paulo Raful também sempre utilizaram o humor com maestria na transmissão do Ensinamento. Fale-nos um pouco a respeito.

LAURO: Nossa idéia é que, com humor, podemos passar as coisas mais difíceis da maneira mais natural; lições que, veiculadas com sisudez, seriam extremamente complicadas, são facilmente comunicadas por meio do humor. É mais fácil transmitir o Ensinamento com humor. Aqui vale o que dissemos sobre os poderosos: você pode dizer as maiores verdades para uma pessoa de forma bem-humorada, e ela se tornará mais receptiva. Com isso, será capaz de trabalhá-las em si mesma. Cabe lembrar o tempo da escola: estudávamos com prazer as matérias dos professores que eram bem-humorados.

Eu terminaria esta entrevista com a seguinte mensagem: a vida é cheia de humor e alegria, basta procurar por isso. Aprenda a enxergar além das aparências. Veja o que está por trás da sua consciência quotidiana. Tudo tem um lado engraçado, alegre, delicioso. Se você procurar o humor, o humor o encontrará.

SER: Você disse que o humor atravessa tudo. Se compararmos dois dos grandes mestres espirituais que geraram religiões, Krishna na Índia e Cristo no Ocidente, veremos que são exemplos incríveis do que acabamos de tratar. Cristo, por ter aquela aura de tristeza, de seriedade, morreu na cruz com muito sofrimento, inclusive o da traição de um de seus discípulos, e isso praticamente marcou gerações no Ocidente com a mesma tristeza. Já Krishna está sempre rindo, sempre namorando, tocando flauta, sempre jovem.

LAURO: Ele quebra paradigmas e nos propõe uma nova maneira de estar no mundo.

SER: Ele levou outro tipo de possibilidade para seu povo, que sempre viveu e ainda vive na miséria. A imagem alegre de Krishna deve tê-los ajudado muito.

LAURO: Outro exemplo de ensinamento tradicional transmitido por meio da alegria são as histórias das Mil e Uma Noites. Em muitas delas, encontramos um humor riquíssimo, feliz, que perpassa tudo e que é puro amor. O amor e, portanto, o humor é uma força que atravessa o Universo inteiro, de ponta a ponta.

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Lauro de A. S. Raful, instrutor do Grupo Gurdjieff São Paulo.
Fotos de Saul Nahmias.

O riso da Madona e do Menino é algo muito raro, pois o Cristianismo privilegiou a seriedade em sua iconografia.
Madona com o Menino rindo. Leonardo da Vinci (1470-75).

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A máscara do riso, na arte Nô. Máscara Nô. (primeira metade do século XVI, no Japão)

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Detalhe de Mona Lisa. Leonardo da Vinci (1503-1506).

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Krishna e seu irmão Balarama brincando juntos na floresta personificam a genuína alegria de ser e de viver. Pintura de Ramadasa-Abhirama Dasa e Dhrti Dasi(1982)

REVITALIZAÇÃO INTEGRAL....Voltar para o Índice

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Fotos de José Carlos Bisconcini Gama

Poema da Revitalização

Você é uma gota do Mar.

Onde está o Mar?

Está em todo lugar.

Eu quero voltar para o Mar.

Você nunca saiu do Mar.

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A FORÇA DA ATENÇÃO....Voltar para o Índice

William Segal

A atenção é o instrumento fundamental para revelar as energias do homem adormecido para ele mesmo. Sempre que alguém testemunha o estado do corpo, e a interação do pensamento e da emoção, há uma insinuação, embora pequena, de outra corrente de energia. Através do simples ato de ficar atento, inicia-se um novo alinhamento de forças.

Manter a atenção consciente não é fácil. O movimento, as obrigações da vida do dia-a-dia, nos distraem completamente. Sem base de operações, sem lar no organismo de alguém, a atenção serve a pensamentos aleatórios, a emoções e desejos que entram em conflito e se tiranizam reciprocamente.

A sensação das partes do corpo como um todo pode ancorar a atenção, dando-lhe uma espécie de habitat. A estrutura, ficando mais sensitiva, ajuda a unificar a atenção, que, dessa forma, fica menos sujeita a ir em direção aos canais mentais, que consomem a sua força. Por sua vez, as percepções e sensações são aceleradas, os insights, multiplicados.

A abertura para a força da atenção evoca uma sensação de inteireza e equilíbrio. Pode-se vislumbrar a possibilidade de uma qualidade de ser cônscio imensamente superior à do mecanismo reativo, uma qualidade de ser cônscio que transcende o modo automático de resposta sujeito/objeto de alguém.

Fluindo livremente, o transformador efeito concentrado da atenção consciente traz o tempo desigual dos centros para uma relação relativamente equilibrada. Pensamento, emoção e sensação ficam equilibrados sob essa vibrante influência harmonizadora.

A atenção é uma força independente que não será manipulada pelas partes separadas de alguém. Limpa de todo barulho interno, a atenção consciente é um instrumento que vibra como um cristal em sua própria freqüência. Fica livre para receber os sinais transmitidos a cada momento, vindos do universo criativo na comunicação com todas as criaturas.

No entanto, a atenção não é minha. No momento de sua presença, fica-se sabendo que ela não se origina inteiramente de alguém. Com sua fonte rodeada de mistério, a atenção comunica energias de uma qualidade que a mente não pode retratar. É necessário ficar a serviço da atenção consciente; a sua vinda é preparada por meio da tranqüilidade ativa.

Na quietude, nos movimentos livres de tensão, a estrutura do homem fica aberta para os fluxos de energia, que estão comumente bloqueados. Essas energias, por sua vez, misturam-se com materiais recebidos previamente para servir ao Mais Alto, numa inominável troca sem palavras.

A atenção não é apenas mediadora; ela é transmissora. Dando e recebendo, Deus fala com o homem. Recebendo e dando, o homem fala com Deus. Assim como a estrutura do homem precisa ser vivificada pela infusão de vibrações finas, essas mesmas vibrações requerem a mistura de material grosseiro para a sua manutenção. Sem a transmissão superior de energias através da intermediação da atenção consciente, o universo se renderia à entropia.

No homem, a menor deformação de uma atenção equilibrada fecha essa comunicação de duas vias. A mente, sozinha, não consegue mantê-la. É necessário também um corpo relaxado.

No meio do caminho entre o micro e o macrocosmo, o homem tem seu papel a cumprir. Voltar ao corpo é um gesto de abertura para a atenção que, chamada dessa forma, está pronta para servir à sua função cosmológica.

William Segal. A estrutura do homem. Stillgate Publishers, 1987.

William Segal (1904-2000) foi discípulo de P. D. Ouspensky, de Gurdjieff e de Jeanne de Salzmann. Esteve também intimamente ligado à tradição Zen Budista e a vários de seus instrutores e intérpretes, incluindo Daisetz Suzuki. Suas pinturas têm sido exibidas em numerosas galerias de Nova York, Tóquio e Jerusalém, e várias coleções de seus escritos têm sido publicadas, junto com uma coleção que abrange seus textos e artigos que falam dele, intitulada Uma voz nas fronteiras do silêncio.

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A Atenção é contemplação, é amplidão.
Canção de Shambala. Nicholas Roerich
(1874-1947).

PAGAMENTO....Voltar para o Índice

P. D. Ouspensky

Muitas pessoas ficavam indignadas com a exigência de pagamento em dinheiro. Nesse sentido, ficava muito caracterizado que os indignados não eram os que tinham maior dificuldade em pagar, mas as pessoas com recursos, para as quais a quantia exigida era uma ninharia.

Os que não podiam pagar ou os que podiam pagar muito pouco compreendiam sempre que não se pode dar algo em troca de nada, e que o trabalho de G., as suas viagens a São Petersburgo, e o tempo que ele e os outros dedicavam ao trabalho custavam dinheiro. Mas os que tinham dinheiro não compreendiam e não queriam compreender isso.

– Isso quer dizer que temos de pagar para entrar no Reino do Céu? – diziam. Não se paga nem se pede dinheiro para essas coisas. Cristo dizia a seus discípulos: “Não leveis bolsa nem alforje”, e vocês nos cobram mil rublos? Pode-se fazer um bom negócio com esse dinheiro. Suponha que houvesse aqui uma centena de alunos. Isso já daria cem mil rublos, e se houvesse duzentos, trezentos? Trezentos mil rublos por ano é muito dinheiro.

G. sempre sorria quando eu lhe contava conversas como essa.

– “Não leveis bolsa nem alforje! E também não há necessidade de se comprar a passagem de trem? De pagar o hotel? Vejam quanta falsidade e hipocrisia há nisso. Não, mesmo que não precisássemos de dinheiro, ainda assim seria necessário manter essa exigência. Isso nos livra logo de muitas pessoas inúteis. Nada revela melhor as pessoas que sua atitude em relação ao dinheiro. Elas estão prontas a esbanjar tanto quanto você quiser com seus caprichos pessoais, mas não dão nenhum valor ao trabalho de outra pessoa. Tenho de trabalhar para elas e lhes dar gratuitamente tudo o que se dignam tirar de mim. ‘Como é possível negociar com o conhecimento? Ele deveria ser gratuito’. É precisamente por essa razão que a exigência do pagamento é necessária. Algumas pessoas nunca ultrapassarão essa barreira. E se não a ultrapassarem, significa que nunca ultrapassarão nenhuma outra. Além disso, há outras coisas a serem consideradas. Mais tarde vocês verão.”

As outras coisas a serem consideradas eram muito simples. Muitas pessoas realmente não podiam pagar. E embora, em princípio, G. colocasse a questão de forma muito rigorosa, na prática ele nunca recusou ninguém pelo fato de não ter dinheiro. E descobriu-se mais tarde que ele até sustentou muitos de seus alunos. As pessoas que pagavam mil rublos pagavam não apenas por si, mas por outras.

Extraído de Em Busca do Milagroso: Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido,
de P. D. Ouspensky.

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A retribuição é uma lei do Universo. Moisés. Mikhail Vrubel (1884).

O MEDO E O EGO....Voltar para o Índice

Michel de Salzmann

Pergunta: O medo é uma propriedade do ego-consciência?

Resposta: É claro que, no ser humano, o medo está principalmente relacionado com o problema da auto-imagem, com a identificação com essa imagem e os fantasmas dela quando são ameaçados. Nas imagens dos animais, a memória ou as associações também existem, mas o medo não é antecipatório, não existe fora de um contexto realista imediato. Há vários aspectos nessa questão. Somos governados por nossas associações, muito mais do que pensamos. As associações relacionadas ao medo variam enormemente de pessoa para pessoa. É instrutivo, por exemplo, de um ponto de vista bem simples e prático, ver essas diferenças entre nós. Algumas pessoas são mais livres ou corajosas quando se trata de sua mente. Elas não temem ter idéias estranhas, ou até mesmo alucinações. Outras serão mais corajosas no que se refere ao combate de seu corpo, mas não são capazes de encarar conflitos internos. O medo é o problema fundamental, e é muito grande. Talvez o medo mais básico seja o de não ser. Assim, só quando morre para si mesmo, você se livra do medo, porque descobre, então, o reino do ser.

No Caminho para o Autoconhecimento. Eds.: por Jacob Needleman e Dennis Lewis. Nova York: Alfred A. Knopf, 1976.

Michel de Salzmann (1923-2001) estudou medicina, neurologia e psiquiatria na Universidade de Paris nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. Foi um dos mais respeitados e influentes líderes do Trabalho de Gurdjieff no mundo e serviu como Presidente da Fundação Gurdjieff em Paris durante muitos anos, na parte final de sua vida.

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Shiva, montado em seu touro, domina o mundo dos monstros, demônios e fantasmas. Pintura de Ramadasa-Achirama Dasa (1985).

A PRIMEIRA INICIAÇÃO....Voltar para o Índice

G. I. Gurdjieff

O trecho seguinte é a tradução das palavras gravadas pelos alunos de G. I. Gurdjieff durante um encontro em Paris em 16 de dezembro de 1941.

Vocês verão que, na vida, recebem exatamente aquilo que dão. Sua vida é o espelho do que você é; é a sua imagem. Você é passivo, cego, exigente. Toma tudo, aceita tudo, sem se sentir obrigado a nada. Sua atitude em relação ao mundo e à vida é a atitude de quem tem o direito de fazer exigências e de pegar tudo para si; de quem não precisa pagar ou obter algo em troca de trabalho. Você acredita que tem direito a todas as coisas simplesmente porque você é você! Toda a sua cegueira está nisso! Mas nada disso atrai a sua atenção. No entanto, é isso que, em você, mantém um mundo separado do outro mundo.

Vocês não têm uma medida com a qual possam avaliar a si mesmos. Vivem exclusivamente de acordo com o “eu gosto” ou “eu não gosto”; não apreciam nada a não ser a si mesmos. Não reconhecem nada acima de vocês – talvez teórica ou logicamente sim, mas não verdadeiramente. É por isso que são tão exigentes e continuam a acreditar que tudo é barato e que têm dinheiro suficiente no bolso para comprar aquilo de que gostam. Vocês não reconhecem nada acima de vocês, nada fora ou dentro de si mesmos. É por isso que, repito, não têm uma medida, e vivem passivamente de acordo com aquilo de que gostam ou não gostam.

Sim, sua “apreciação por si mesmo” o cega! E esse é o maior obstáculo para uma nova vida. Você tem de ser capaz de superar esse obstáculo, esse limiar, antes de seguir adiante. Esse teste divide o homem em duas espécies: o “trigo” e o “joio”. Não importa quão inteligente, dotado ou brilhante um homem possa ser; se não mudar a apreciação que tem de si mesmo, não haverá esperança de desenvolvimento interior, de um trabalho na direção do autoconhecimento, de um verdadeiro vir a ser. Ele permanecerá como é durante toda a sua vida. A primeira exigência, a primeira condição, o primeiro teste para quem deseja trabalhar sobre si mesmo é mudar a apreciação que tem de si mesmo. Ele não tem de imaginar, de simplesmente acreditar ou pensar, mas tem de ver coisas, em si mesmo, que nunca vira antes, e vê-las de verdade. Sua apreciação não mudará enquanto não conseguir ver nada em si mesmo. E para ver, precisa aprender a ver: é essa a primeira iniciação do homem na direção do autoconhecimento.

Em primeiro lugar, ele precisa saber o que tem de olhar. Quando souber, tem de fazer esforços, tem de manter a atenção, tem de olhar constantemente, com persistência. Se mantiver a atenção e não se esquecer de olhar, talvez, um dia, seja capaz de ver. E se vir uma vez, poderá ver uma segunda vez, e, se isso persistir, nunca mais será capaz de não ver. Esse é o estado de ser olhado, é esse o objetivo de nossa observação; é daí que a verdade deseja nascer, do irresistível desejo de vir a ser; de frios, devemos nos tornar quentes, vibrantes; devemos ser tocados pela nossa realidade.

Hoje temos somente a ilusão do que somos. Nós nos temos em alta conta. Não respeitamos a nós mesmos. Para respeitar a mim mesmo, tenho de reconhecer uma parte em mim que está acima das outras partes, e minha atitude em relação a essa parte deve testemunhar o respeito que tenho por ela. Nesse sentido, devo respeitar a mim mesmo, e as minhas relações com os outros serão governadas pelo mesmo respeito.

Temos de entender que todas as outras avaliações – talento, educação, cultura, gênio – são medidas mutáveis, que avaliam detalhes. A única medida exata, a única medida imutável, objetiva, real, é a medida da visão interna. Eu vejo – eu vejo a mim mesmo – através disso, nós medimos. Com a parte real mais alta, você mediu a parte mais baixa, também real. E essa medida, definindo por si mesma o papel de cada parte, o levará a respeitar a si mesmo.

Mas vocês verão que isso não é fácil; e não custa pouco. Você deve pagar caro. Para maus pagadores, gente preguiçosa, parasitas, não há esperança. Você deve pagar, pagar muito, e pagar imediatamente, pagar adiantado. Pague com você mesmo, por meio de esforços sinceros, conscientes e desinteressados. Quanto mais estiver preparado para pagar, sem economizar, sem enganar, sem nenhuma falsificação, mais receberá. A partir desse momento, você travará conhecimento com a sua natureza. E verá todas as trapaças, todas as desonestidades às quais a sua natureza recorre para evitar pagar em dinheiro vivo. Porque você tem de pagar com as suas teorias preparadas de antemão, com as suas convicções enraizadas, com os seus preconceitos, com as suas convenções, os seus “gosto” e “não gosto”, mas sem barganhar, honestamente, sem dissimulações, tentando “sinceramente” ver como você oferece o seu dinheiro falsificado.

Tente, por um momento, aceitar a idéia de que você não é o que acredita ser, que você se superestima, que, de fato, mente para si mesmo. Que sempre mente a si mesmo, em todos os momentos, o dia todo, a vida toda. Que essa mentira o governa a ponto de você não poder controlá-la mais. Você é vítima da mentira! Você mente em todo lugar. A sua relação com os outros – mentiras. A educação que dá, as convenções – mentiras. Os seus ensinamentos – mentiras. As suas teorias, a sua arte – mentiras. A sua vida social, a sua vida familiar – mentiras. E o que você pensa de si mesmo – mentiras também.

Mas você nunca se detém no que está fazendo ou dizendo, porque acredita em si mesmo. Você tem de permanecer dentro e observar. Observe sem preconceber nada, aceitando por um tempo essa idéia de mentir. E se observar nesse sentido, pagando consigo mesmo, sem autopiedade, abandonando todas as suas supostas riquezas por um momento de realidade, talvez, de repente, você veja algo que nunca viu até então. E verá que você é diferente do que pensa que é. Verá que você é dois: um que não é, mas que toma o lugar e faz o papel do outro. E um que é, embora tão fraco, tão sem substância que, assim que aparece, imediatamente desaparece, porque não suporta mentiras. A menor mentira o faz desfalecer. Ele não luta, não resiste, é derrotado de antemão. Aprenda a olhar até que veja a diferença entre as suas duas naturezas, até que tenha percebido as mentiras, o engano em si mesmo. Quando tiver visto as suas duas naturezas, nesse dia, dentro de você, a verdade nascerá.

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Georges Ivanovith Gurdjieff
(1923/1924).

ESTOU MORTO PORQUE ME FALTA DESEJO....Voltar para o Índice

René Daumal

Estou morto porque me falta desejo;

Falta-me desejo porque acho que possuo;

Acho que possuo, porque não tento dar.

Tentando dar, você vê que não tem nada;

Vendo que não tem nada, tenta dar-se a si mesmo;

Tentando dar-se a si mesmo, vê que não é nada;

Vendo que não é nada, deseja tornar-se;

Desejando tornar-se, você começa a viver.

René Daumal. O Monte Análogo. Nova York: Pantheon Books, 1960.

Foto de José Carlos Bisconcini Gama.

SEGUINDO AS LEIS CÓSMICAS....Voltar para o Índice

(Poema 64 do “Tao Te Ching”, de Lao-Tsé)

O que está em repouso

É fácil conservar.

O que é insignificante

Pode ser facilmente influenciado.

O que é frágil

Pode ser facilmente quebrado.

O que é leve

Pode ser levado pelo vento.

A ordem deve ser mantida

Antes que surja a desordem.

A árvore mais gigantesca

Nasceu de uma raizinha

Fina como um cabelo.

Uma torre de nove andares

Repousa sobre uma pequena área de terra.

Uma viagem de mil léguas

Começou com o primeiro passo.

Quem faz algo contra a lei

Tem de falhar.

Quem se apega a algo

Terá de perdê-lo.

Por isso o sábio não é egocêntrico

E por isso nunca falha.

Não se apega a nada,

E por isso não perde nada.

Outros falham

Antes de chegar à meta,

Porque não esperaram

Pelo momento oportuno.

Quem enxerga o início e o fim,

Este não falha.

O único desejo do sábio

É não ter desejos.

Não deseja nada

Do que para outros é desejável.

Nem deseja inteligir

Objetos de inteligência.

O que para outros é insignificante

O sábio considera importante.

Assim estabelece ele a reta ordem

Em si e nos outros,

Não agindo jamais

Em desacordo com as leis cósmicas.


A natureza sempre nos instrui.

Foto de Ansel Adams.

ARTIGOS

A Atenção – Um atributo Divino....Voltar para o Índice

Marcos Belfiore

Vivemos nosso dia-a-dia preocupados com o cumprimento da infinidade de compromissos que assumimos, os quais, de uma forma ou de outra, nos inserem no contexto social, profissional e até mesmo familiar.

São inúmeros os papéis que compõem a nossa vida e cada um deles nos obriga a assumir uma série de atividades específicas. Sem cumprir essa dinâmica, estaríamos fadados a uma espécie de segregação do meio em que vivemos. É uma realidade que faz parte da vida, e temos, realmente, de dar o melhor de nós em todos os campos.

Até aí está tudo certo. O que não está é a medida em que nos envolvemos nas atividades de maneira geral. Nós o fazemos de tal forma que não percebemos o que se passa ao nosso lado e, principalmente, conosco mesmos.

Podemos constatar esse estado ao tentar fazer, antes de dormir, um retrospecto de tudo o que aconteceu durante o dia. Vamos comprovar que poucos são os momentos que ficaram gravados.

Significa que nos encontramos completamente fora do controle da nossa Atenção, fora de nós ou, ainda, confundidos com aquilo em que estamos envolvidos, transformados nisso.

É comum, em tais circunstâncias, ouvirmos frases do tipo: “às vezes uma pessoa de fora consegue enxergar melhor a situação”. Nada mais verdadeiro!

Podemos agir da mesma forma, procurando nos destacar de cada situação da vida, nos colocando um passo atrás, ou, como se subíssemos a um plano mais alto, observando a nós mesmos interagindo no evento, nos permitindo olhar com distanciamento.

Ao nos portarmos desta maneira, assumimos o controle da nossa Atenção, pois ela, somente ela, nos oferece a clareza, a dimensão justa e a visão da realidade que envolve cada circunstância da nossa vida.

Sob seu controle, vivemos a plenitude do momento presente, que nos liberta das associações com o passado – que são apenas lembranças – e nos impede de projetar o pensamento para o futuro, que é apenas imaginação.

A experiência do momento presente com Atenção é eterna; ela fica, ou seja, não a esquecemos jamais, porque foi vivida com consciência, e essa experiência nos coloca em um nível superior de percepção.

Deste ponto de vista, devemos considerar que a Atenção é um atributo Divino, na medida em que ela constitui o único caminho para alcançarmos a verdadeira consciência ou a nossa essência.

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A Atenção voltada para o Mais Alto é a verdadeira oração. Foto de Henri Cartier-Bresson (Índia).

Entre a Ilha e o Mar – Uma reflexão sobre a arte....Voltar para o Índice

Márcia Kondratiuk

Entre dois territórios conhecidos – a Ilha, que é o plano da vida mundana, da luta pela sobrevivência, do conhecimento de si e do mundo, e o Mar, que é o grande plano do sagrado, o plano que envolve a Ilha e todos os outros planos, espaço da devoção, do crescimento espiritual, do Quarto Caminho e de todas as práticas que levam ao Eu –, entre esses dois há um território “do Meio”. É aí que vive o criativo, o espaço de toda criação artística.

A criação artística não se justifica no plano da sobrevivência, apesar de estar inserida nele e utilizar as mesmas ferramentas - o pensamento, a comunicação, as habilidades técnicas - e de se transformar em produto. Também não se justifica no plano do sagrado. De fato, do ponto de vista do Divino, a arte não nos é necessária. O homem pode muito bem lutar para ganhar a vida e amar a Deus; isto já é o bastante para que seja salvo. Não sendo necessário a nenhuma das dimensões da vida, o território do Meio é um espaço quase que de rebeldia do homem, uma prerrogativa que este se dá para transitar entre o mundano e o sagrado como um modo de melhor afirmar-se como humano.

A arte utiliza ferramentas do plano mundano, mas sua motivação vem do espírito. A quem serve, então, ao mundo ou ao espírito? Ao fazer a ponte entre a Ilha e o Mar, fundando um espaço que nenhum outro elemento da Criação pode ocupar senão ele, o homem ensaia, experimenta, brinca de criador. Não há dúvida de que uma arte verdadeira é quase utopia, pois o homem criativo quase sempre se perde no seu fazer corriqueiro. Ela começa como uma inspiração do espírito, mas se contamina com os elementos reinantes na Ilha e perde de vista o Mar de onde se originou. Na Ilha somos todos pedaços, no Mar somos um só. Na Ilha temos emoções separadas, somos opostos, incompreendidos, inimigos, solitários. No Mar somos aspectos diversos da mesma totalidade, o Amor. Eis o que na ação criativa deveria ser a verdadeira inspiração. De qualquer modo, o artista, mesmo que de forma imperfeita, ao utilizar ferramentas existentes na Ilha para falar do Mar, torna-o acessível mesmo para aqueles que não o procuram diretamente.

Não é importante para o Divino que o homem tenha ou não fazer criativo, contanto que venha a conhecer o sagrado. Mas, por meio de homens que exercem este fazer por vocação e chamado da alma, toda a humanidade tem a possibilidade de aproximar-se do sagrado. A arte, portanto, é mais uma das graças concedidas ao humano e a prática do fazer artístico só pode se dar no amor fraterno. Caso contrário, de que serviria? Não teria sentido nem utilidade uma criação que, ao invés de procurar o bem do outro, de lhe conceder espaço de reflexão, de alargar sua emoção, se ocupasse apenas de perpetuar todo o engano e a autopunição humanos. A arte, em forma de poesia, prosa, pintura, escultura, música, dança, cinema e muitas outras, somente cumpre o seu verdadeiro papel quando:

1) é feita com amor àqueles que vão dela usufruir, e

2) serve como suporte aos elementos do espírito, trazidos à fruição do plano mundano.

Estes princípios poderiam se resumir em: amor pelo Divino e amor pelo humano. Fora desses dois códigos, o fazer artístico se confunde com vaidade de mostrar conhecimento, repetição compulsiva de conceitos e emoções, procura da verdade em mundos de fantasia, e assim por diante.

É possível que muitos bons escritores tenham se perdido nessa confusão. Talvez pensassem que, tendo optado pela arte, estavam com ela substituindo o Divino, o nosso Mar. Não perceberam que estavam no território do Meio, onde poucos homens se instalam conscientemente. Tenho a impressão de que homens como Nietzche, Maupassant, Poe e outros talvez tenham perdido a razão por se sentirem incapazes de encontrar em sua arte tudo o que buscavam. Da mesma forma, Voltaire, Tolstoi e outros talvez tenham substituído a arte pela religião quando perceberam a distância que ia da arte ao Mar. Nada disso era preciso, pois eles foram mestres justamente por sua capacidade de ficar em cima da ponte, mostrando a todos que havia um Mar e que o Mar estava em tudo. As janelas abertas em suas obras fecundaram a reflexão e a emoção de quantos as leram e por muito tempo as lerão ainda.

Gurdjieff ironizou os “escritores de bom-tom” de seu tempo, referindo-se àqueles que usam o dom da criatividade para confundir, não esclarecer, e que, não tendo nenhum compromisso com a verdade interior, não seguem os dois princípios de amor citados. Da mesma forma, Jesus falou a seus apóstolos para se precaverem contra os “escribas”, porque estes só estavam interessados em tirar proveito próprio de seu dom – no plano da sobrevivência, portanto – sendo mais nocivos que úteis ao povo. Jesus disse: “Quem tiver ouvidos, ouça”. Quem tiver ouvidos para escutar e olhos para ver, ouça a arte, veja, leia e compreenda. A arte de Leonardo da Vinci leva o escopo de um conhecimento que, vindo de fora do plano da Ilha do mundo, ele inscreve dentro de suas habilidades humanas magistrais para levar a quem quiser ver.

Por tudo isto, acredito que a pessoa criativa tem uma imensa responsabilidade e não pode se eximir de fazer uma opção. Se não esconder, sabotar e atrofiar o dom de criar para furtar-se ao dilema inevitável que este lhe trará, terá de escolher entre dar-lhe feitio terreno e tirar proveito no plano da sobrevivência – e isto equivaleria a arrancar as pétalas de uma rosa e substituí-las por outras de plástico - ou buscar comunicar-se com o Eu e trazer daí os elementos do espírito para veicular através de suas habilidades gerais. Todos os seus centros estarão alinhados com a Alma e com uma vontade ditada pelo duplo amor que mencionamos. O amor pelo Divino faz o artista buscar a compreensão e a consciência; o amor pela humanidade o faz doar o que tem de mais essencial. Este seria o verdadeiro criativo. É claro que dificilmente se tornaria best-seller ou teria seu nome conhecido. Sua arte seria de tal forma apropriada aos olhos e ouvidos humanos e com tal ênfase nas verdades eternas que seria bem pouco importante conhecer o nome que a assina. A maior parte das grandes obras artísticas que inspiraram a humanidade são anônimas: as pirâmides, muitas estátuas gregas, os templos e os textos sagrados, etc.

É preciso que a pessoa que tem em si o chamado da ação criativa puramente do espírito, destituída de finalidade prática (esta sendo apenas acessória, para concretizar a atividade do artista) conheça o seu papel entre a Ilha e o Mar. E então fique no território do Meio quietinha, fazendo o seu mister, porque, como disse o apóstolo Paulo num de seus sermões: cada um faça o seu trabalho segundo a sua vocação; para Deus não faz diferença.

A ilha e o mar. (Banco de imagens)

O Mágico de Oz – Uma analogia com o trabalho interior....Voltar para o Índice

Lourdes Baptistella

Sentei para fazer a prática da meditação e percebi que estava totalmente “fora do centro”. O mental estava intranqüilo, o corpo se recusava a ficar imóvel e havia uma sensação de distanciamento em meu peito. Conseguia me sentir fora de mim e esta percepção me afligia, mas insisti em tentar me comunicar, me conectar com algo que me desse um eixo. Nessa tentativa, me veio à mente a estória do Mágico de Oz e a figura do homem de lata em busca de um coração. E aí surgiu a analogia com a busca do Trabalho e o esforço e me percebi como esse homem de lata, robótico, em busca de um coração, de um contato com algo maior em mim e como o leão, querendo encontrar a coragem que lhe falta, e como o espantalho em busca de um cérebro, um mental lúcido. Dorothy, uma menina (em minha analogia, a Alma), após um vendaval é levada para longe de seu lar e se perde. Na sua busca do caminho de volta para casa, ela encontra essas três figuras (o homem de lata, o leão e o espantalho), que lhe pedem ajuda para realizar os seus desejos. Na vida, saio em busca desses três personagens que correspondem aos três centros. Sou como o homem de lata, sem um coração verdadeiro; como o leão a quem tudo amedronta, até a própria vida e a busca, com minhas dúvidas, anseios, emoções negativas e toda a parafernália externa em que vivo; como o espantalho, vivo como um fantoche na vida, me deixo levar de um lado para o outro, sem um cérebro, uma inteligência que me Oriente e me Guie com lucidez. Mas, para que tudo se transforme, é preciso seguir o caminho, é preciso ajuda, que, com a persistência, virá em seu auxílio. Dorothy segue com os três, enfrentando os obstáculos, sem perder a alegria e com a certeza de que voltará para seu lar. E nessa jornada, com seus três ‘amigos’ a segui-la, ela consegue a ajuda do povo pequeno de Oz[1] e, por meio deles, chegar até o Mágico desse reino encantado. Esse mago[2] lhes dará tarefas a serem executadas antes de realizar seus desejos. Uma dessas tarefas é vencer a bruxa malvada do Norte, que mantém o povo pequeno como prisioneiro. Nada neste mundo nos é dado gratuitamente. Um esforço nos é exigido para alcançarmos o que quer que seja, mas principalmente o contato com a Alma, que é a intermediária entre o Céu e a terra. Dorothy segue a yellow brick road, a estrada de tijolo amarelo, no meu entender, a estrada do Sol. Só a estrada pode conduzi-la ao encontro do mago, do senhor de Oz, o único que poderá ajudá-la a voltar para casa. Nesses personagens estão unidos a Vontade, a Coragem, a Fé (de Dorothy para voltar ao seu lar) e a Esperança (do espantalho que sabe que sem um cérebro não é nada). Só depois de cumpridas as tarefas e cristalizadas neles a Vontade, a Coragem, a Fé e a Esperança é que nossos amigos em equilíbrio e harmonia vêem os seus desejos realizados e podem voltar ao LAR.

Esta analogia de alguma forma mágica[3] me tranqüilizou e transformou o meu estado de espírito naquela manhã, dando-me forças para continuar no caminho apesar das controvérsias, dos atropelos e de toda a insegurança desta vida material. Há algo precioso em meu ser que não me deixa esmorecer e me acalenta nos momentos de aflição. Sou grata a esta “magia” dentro de meu Ser, a este Mágico de Oz (para mim a Consciência), que possui o dom e o poder de me guiar com Coragem e Força, que conhece a estrada do Sol, o caminho de volta para Casa.

1 Oz – palavra que em hebraico significa coragem, força.

2 mago – aqui com o sentido de magus, um homem sábio que, utilizando-se de atividades místicas e de autoconhecimento, busca a sabedoria Sagrada e a elevação de potencialidades do ser humano.

3 mágica, magia - a palavra Magia provém da língua persa magus ou magi e significa tanto imagem quanto um homem sábio, e pode significar tambem fascínio.

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Ilustração do filme O Mágico de Oz (Banco de Imagens)

A Justiça....Voltar para o Índice

Maria Aparecida De Stefano

Sentei-me no sofá que dá para a sacada, meu lugar predileto. Dali, pude admirar o magnífico pôr de Sol avermelhado que se revelava por trás das árvores do parque. A luz grandiosa, que iluminava aquela paisagem, começou a tornar clara a emoção que dominava o meu peito.

Vi uma grande mágoa, revelada na mais profunda tristeza. Mas, aos poucos, vi a tristeza ser encoberta por uma força feroz, que se elevava de minhas entranhas, subindo na direção da garganta, e uma voz nascida no cerne daquela labareda gritou dentro de mim: injustiça!

De onde vinha aquela voz? Quem gritava dentro de mim? Era a raiva que soltava aquele bramido?

No meio daquele furor de emoções, me vinham pensamentos que não paravam de comentar os acontecimentos do dia. O meu corpo, como um animal pronto a se defender, soltava uma rajada de adrenalina no sangue, fazendo meu coração bater forte. Mas algo dentro de mim começou a ficar evidente: uma parte do meu ser assistia impassivelmente ao espetáculo pirotécnico que se desenrolava, naquele momento, no meu interior.

Depois de certo tempo, não saberia dizer quanto, a chama foi-se arrefecendo, ou melhor, foi-se transformando numa grande bolha, maior que meu corpo, e comecei a sentir apenas a minha respiração acontecendo dentro dela. Depois, pensamentos transparentes como cristal começaram a surgir a partir de um ponto dentro da bolha. Diziam eles:

– Você já se sentiu injustiçada inúmeras vezes! Quantos fatos nos últimos tempos colocaram as teias da injustiça diante de você! Já se perguntou por quê? Que lição você ainda não aprendeu com esses fatos?

O meu lado impassível persistia em ver tudo aquilo acontecendo. Continuei a sentir a respiração, que se tornava cada vez mais ampla. Podia senti-la da cabeça aos pés, como se meu corpo todo fosse um grande fole. E os pensamentos continuaram a jorrar com uma nitidez impressionante:

– Justiça é união de contrários. Só o Amor pode unir! Ele é o fiel da balança que pesará todas as ações. Quando o verdadeiro Amor não está presente, impera a lei de causa e efeito! As suas ações, motivadas simplesmente por desejos, só podem resultar em injustiça! Não podemos julgar os outros por suas ações. Nem se pode acusar pessoas ou o acaso pelo que nos acontece. Se o Amor dentro de você não é suficiente para atrair Amor, tenha como meta fazê-lo expandir-se a cada dia. Só assim haverá Justiça! Sem Justiça, não há evolução possível! A Justiça é o guardião do umbral que a levará à felicidade. Procure o verdadeiro sentido da vida!

De repente, tudo se aquietou. Um bálsamo dourado começou a envolver aquela bolha e uma calma feliz se instalou no meu ser. Não havia mais corpo, não havia mais bolha, só um grande silêncio.

Voltei a sentir os contornos do meu corpo depois de uma eternidade. A paz ainda estava presente no meu coração, quando um pensamento cruzou a minha mente:

– Está na hora de trabalhar!

Enquanto o computador carregava, lembrei-me da grande lição que me fora ofertada como presente. Agradeci ao Mais Alto que me ajudara a compreender o que é a Justiça. Percebi que ela é Divina!

Mas para que a Justiça se manifeste neste mundo, devo buscar o verdadeiro Amor dentro de mim. Então, ela se fará por si.

Cliquei na Internet para abrir o site do Grupo. E magicamente, ali na tela diante de mim, havia uma frase que dizia:

“Só pode ser justo quem sabe se pôr no lugar dos outros.”

G. I. Gurdjieff

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A Justiça. Carta VIII do Tarot.

Reprodução....Voltar para o Índice

Carlos China

Depois de refletir um pouco sobre a idéia de reprodução no mundo, percebi que há alguns aspectos importantes a considerar. Compreendi que este assunto se divide em três partes: biologia, talento e escolha. Vou desenvolver cada uma delas. Abaixo, há um gráfico mostrando a percentagem aproximada dessas partes na natureza humana (dados empíricos no momento).

Esclarecimento

Antes de tudo, esta é uma observação imparcial e não uma crítica ou julgamento moral sobre a escolha das pessoas na vida; é uma perspectiva isolada e não tem a intenção de ferir ninguém que se baseie em suas próprias escolhas. Sou responsável por minhas escolhas e suporto sozinho suas conseqüências. Aja de acordo com a sua escolha.

Biologia significa que a decisão está nas mãos da nossa natureza animal, basicamente controlada por nossos hormônios, pelos chacras inferiores, pela necessidade instintiva de reprodução e sobrevivência das espécies. É também conhecida como “relógio biológico”, que faz seu tique-taque constante, lembrando-nos que não cumprimos o nosso dever biológico. É mais forte na mulher, numa proporção de quase 9x1, do que nos homens. Por isso, podemos dizer que, dentro da espécie humana, pertence à área feminina a maior parte das decisões a esse respeito, e, em certa medida, isso acontece também dentro do reino animal, onde a natureza, ou “a mãe-natureza”, reina. Podemos quase afirmar com certa precisão que a mulher toma a maior parte das decisões relativas ao “com quem se casar”, “com quem ter filhos”, “quantos filhos ter” e “como criá-los”, e isso chega a ponto de os homens quase desempenharem um papel secundário. É importante compreender que esse é o modo como a “natureza” funciona, que é esse o plano, que o software está programado dessa maneira, e as mulheres são constrangidas a responder dessa forma às exigências da natureza.

Esse apelo da natureza é tão grande que, em casos extremos, leva à destruição de uma geração madura para dar lugar a outra mais jovem. É o caso do salmão, que nada rio acima para reproduzir-se e depois morrer, por ser incapaz de continuar a viver; quer dizer, ele põe fim à própria vida enquanto se reproduz ou, em outras palavras, passa a batuta. A crueldade desse extremo é repetida em todo o reino animal de diferentes formas, mas com resultados semelhantes.

No mundo humano, temos características próprias que são as observações pessoais. As mulheres parecem ser altamente condicionadas pela biologia da reprodução e, além disso, existem as pressões sociais, a pressão das pessoas da mesma idade e as expectativas sociais: “Quando você vai se casar?” “Agora que se casou, quando vai ter um bebê?” “Quando vai ter outro bebê?” Mais tarde, a mulher assumirá outro papel e, em vez de ser o receptáculo desses comentários, passará a repeti-los a seus filhos e a outros jovens à sua volta, automaticamente, perpetuando um programa inconsciente e sem criatividade.

Outra observação é que a mulher carrega em frente do seu campo visual uma venda/espelho que afeta a sua percepção do homem. Esse instrumento funciona como um filtro que a torna incapaz de ver nos homens algo mais do que instrumentos de reprodução e, na maior parte das vezes, inúteis, exceto quando se tornam alguma coisa na direção do importante papel de seres reprodutores, concedidos às mulheres neste planeta. A função-espelho desse instrumento reforça a necessidade constante de reproduzir. Uma de suas linhas favoritas é a seguinte: outro ciclo menstrual, outro óvulo desperdiçado, você falhou ao não ficar grávida e não cumprir o seu papel. A principal função dessas duas coisas juntas é criar uma visão distorcida do homem; é evitar que a mulher se aprofunde na compreensão de si mesma e das outras possibilidades disponíveis para ela em relação aos homens, caso ela faça algum esforço para enxergar que o mundo vai além da função reprodutora.

Precisamos compreender também que o ritual do casamento, e tudo que o acompanha, serve apenas ao apelo biológico da natureza: é uma fanfarra circense, exigindo apenas uma prole. Os parentes por afinidade, felizes desde então, a combinação perfeita e qualquer outra referência a esse sonho são apenas dados periféricos para vender esse conceito: vestido branco e com um bolo de três andares. E devo dizer que as festas de casamento estão entre as melhores.

É importante compreender que a reprodução no nível biológico nada mais é do que uma função como respirar, comer, movimentar-se, etc. Nada mais do que uma função controlada por elementos químicos e hormônios, largamente conhecidos e descritos pelas ciências biológicas. Nada mais do que isso.

A outra camada deste gráfico refere-se ao talento. Com isso quero dizer que os homens têm habilidades diferentes para executar algumas tarefas na vida. Alguns são oradores talentosos, outros, hábeis pilotos de carros de corrida, outros são pianistas, jogadores de futebol, hábeis batedores de carteira ou vendedores. A questão é: algumas pessoas estão ligadas a certas coisas, nasceram com elas. Da mesma forma, não posso usar uma torradeira para fazer uma ligação telefônica ou um telefone celular para fazer uma torrada. Eu adoraria ser capaz de cantar com todos os meus pulmões, mas, independentemente do número de aulas de canto que eu tiver para aprender essa técnica, nunca terei a voz do Pavarotti. Posso cantar no chuveiro ou me divertir em algum karaokê, mas nunca cantar no Scala de Milão. Mas algumas pessoas podem sobrepujar os seus dons, se tiverem talento e aprenderem algumas técnicas. Outras, apesar de toda a técnica e treinamento, não irão além de um desempenho básico. Uma importante lição a se tirar daí é compreender e aceitar a forma com que cada um de nós se relaciona com isso: pode-se viver como uma torradeira frustrada, porque não se consegue fazer uma chamada telefônica, ou viver feliz por ser capaz de fazer uma bela torrada, para inveja do telefone celular. Por conseguinte, como seres humanos, precisamos compreender que a maternidade e a paternidade não são naturais; são talentos. Alguns os têm, outros não e, com todo o ensinamento, aprendizado, livros sobre gravidez ou sobre psicologia e desenvolvimento da criança, os resultados serão diferentes, baseados em cada talento individual, além de dependerem do talento do casal, considerado como um todo.

Assim, em se tratando de reprodução, temos agora pelo menos dois níveis a considerar: biologia e talento. A minha percepção individual é de que, a maior parte do tempo, esses dois níveis não estão em sincronia um com o outro, quer dizer, a maior parte do tempo biologia e talento não vêm associados. O que vemos é que a maioria das pessoas responde ao apelo da natureza sem considerar seu talento para essa tarefa. É a mesma coisa que assinar um contrato para jogar pelo Real Madrid sem nunca ter chutado uma bola, ou assinar um contrato com a Ferrari para participar da Fórmula 1 sem ter carteira de motorista. Algumas vezes somos agraciados com a sorte de ter natureza e talento ao mesmo tempo, dando bons resultados. Mas, na maior parte do tempo, isso acontece por mera sorte. O drama começa quando misturamos esses dois níveis diferentes. Precisamos compreender que a “mãe-natureza” não está interessada se mamãe ursa instruiu bem os seus filhotes. Não é papel da natureza preocupar-se com o resultado da reprodução, no que diz respeito à saúde e educação da prole durante a sua vida. O interesse da natureza pára quando o espermatozóide e o óvulo tornam-se um ovo. Daí em diante ela segue um programa automático; sem ter muita ou nenhuma necessidade de energia consciente aplicada, ela segue por si mesma. Tanto é assim que a natureza não se importa se a maioria das tartaruguinhas que nasce nas praias vira alimento para as gaivotas já em sua primeira hora de vida, ou se os salmões recém-nascidos alimentam outros peixes, e assim por diante. A natureza não considera moralmente suas funções; os seres humanos, sim. Por conseguinte, a natureza não está interessada na qualidade, em criar bons representantes de suas espécies, mas na quantidade: quanto mais, melhor. É um programa em que não há lugar para o talento, e que existe apenas para preencher as exigências da Mãe-Natureza. Precisamos compreender que o nível inferior não tem noção da existência do nível que lhe é superior, ou seja, a natureza não sabe que o talento existe, mas o talento leva em conta o nível inferior da natureza.

Chegamos agora ao nível superior da pirâmide: a escolha. Simplesmente aplique a habilidade de se tornar consciente, responsável e arque com as conseqüências de sua escolha ou decisão. Fácil de ser colocado em uma linha, mas difícil de ser vivenciado. Como eu disse anteriormente, as camadas inferiores não imaginam a existência das superiores, e isso significa que, para o ser humano acessar o nível da escolha, é preciso aceitar, incorporar e superar os níveis inferiores. É preciso ir além da natureza e do talento para alcançar a escolha.

A pessoa que alcançou esse nível escolhe seguir um dos dois caminhos possíveis, sem pesar, aceitando todas as suas conseqüências, vivendo todas as experiências que advêm com o pacote.

Essa pessoa libertou-se da atração da natureza e das considerações sobre o seu talento, tomando consciente e voluntariamente a decisão de estar ou não de acordo com a natureza, por escolha, desempenhando o papel que de fato escolheu e não como cega.

Uma vez nesse nível, começamos a compreender o que significa ir contra a natureza: é quando é possível ver o circo completo, ver os bastidores, ver a terra antes da chegada do circo e depois que ele se foi, contemplar o processo inteiro a partir do lado interior e exterior e decidir usar uma roupa de palhaço e representar para o respeitável público, ou não. Essa é a real liberdade! Nem mesmo a natureza pode tirá-la de você, se permanecer nesse nível.

Uma vez que alinhemos nossa manifestação no mundo com o nosso desejo interno, com o desejo da nossa alma, veremos que é possível viver a vida a partir desse lugar.

Dr. Carlos China. Universidade de Sydney, Austrália. Conferencista-Assistente de Clínica Médica. Faculdade de Medicina.

Escolha

Talento

Biologia

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A presença Divina pode iluminar e conduzir as forças básicas da vida.

Minerva e o Centauro. Botticelli (1482).

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Os amorosos. Carta VI do tarot.

A Radiante Soberana da Felicidade....Voltar para o Índice

Mariett Regina Rozner

Antes de tudo uma relação tem dois pólos, eu e o outro, cada um com as suas especificidades, estilos, gostos, tendências, reações e atmosfera psíquica. Mas, se somos tão diversos, como pode ocorrer uma relação ou ligação amorosa, o que de fato nos ligaria? Nunca ouvimos falar de um estado amoroso, nos referimos a uma relação amorosa como se fosse uma fórmula matemática. Pelo que conhecemos no nível trivial da vida, a maioria das ligações é de qualidade temporária, irremediavelmente impermanentes, tais quais os nossos interesses momentâneos neste ou naquele setor. É necessário compreender que isso se deve ao fato de sermos controlados por um mental, um emocional, e uma fisiologia, cada qual com seus apetites. O mental delibera, classifica, separa, o emocional gosta, não gosta, sente fascinação ou aversão, a fisiologia com seus hormônios compatíveis ou incompatíveis age em nós com uma química reativa de velocidade espantosa, influenciando nossas emoções e sexualidade. Então, o que deveras se compartilha numa relação, o que mantém essa ligação satisfatória para ambos? Por que razão ela não se sustenta no tempo? Quem é o vilão da história? Essas perguntas sempre rondaram meu pensar e sentir desde a adolescência.

Naquela época estava muito identificada com um amor romântico por um mineirinho, mas nada tinha de satisfatório para minha fisiologia; depois, por uma empatia hormonal, casei-me com um nortista, interrompi os estudos, tive dois filhos, retomei os estudos, fui à luta. Como associação protetora e profilática o casamento era fantástico, mas de sentimentos nem se podia falar, meu companheiro ficava abalado e tomado de uma insegurança incrível, tornava-se um déspota. Aí, de um misterioso olhar, surgiu o galã, o propalado casamento de uma noite, balelas! A fisiologia ficava satisfeita, mas o emocional continuava a pedir afeição, comunicação, o mental entrava em parafuso e julgava certo ou errado. Que diacho! Nada vinha completinho! Essa constatação levou-me a ter de suportar por longos anos uma irritação caprina, e de tanto constatar, cheguei à conclusão de que era meu ser que não estava completo, havia algo que a vida ou outro ser não poderia me oferecer, a felicidade não poderia ser encontrada no outro, devia encontrá-la em mim.

Vira que a ilusão do “unidos para sempre” era uma construção mental, construíram para mim uma idéia (e eu a comprara) de que uma relação amorosa sem uma harmonia interior de ambas as partes poderia se tornar indestrutível e incomparável – aí estava o grande furo.

No entanto, temos essa chance sim, é possível estabelecer uma relação permanente, atemporal e substanciosa, claro que não com o outro; com o outro sempre será um jogo de probabilidades e cumplicidades, de afetos, sentimentos e atração mútua. Com quem então? Percebia que lá no fundo do peito, a parte mais profunda e sábia do meu ser me esperava paciente, ela era livre e soberana e com ela podia operar a mais esplendida aliança; sem ela, a alma, o Eu verdadeiro, ficava à mercê do jugo dos meus insistentes hormônios, chiliques confusos, vaidades infantis, impressões inúteis; sem a Presença dela ficava escrava da infelicidade e das frustrações. Foi então que, nesta Escola, desde 1997 para ser exata, recebi as indicações para alimentar minha alma de um alimento raro, o Recolhimento Profundo, a Cornucópia da Abundância de onde jorra a Felicidade – é o estado amoroso mais objetivo a que temos direito.

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A terra, o sol e a lua vivem em perfeita comunhão

(Banco de Imagens).

POESIAS

O Livro do Amor....Voltar para o Índice

Rumi

Poemas de êxtase e desejo

LIBERDADE

Está com ciúme da generosidade do oceano?

Por que se recusa a dar

este amor a qualquer um?

Os peixes não seguram o líquido sagrado em xícaras!

Eles nadam no imenso fluido da liberdade.

QUIETUDE

Dentro do novo amor, morra.

O seu caminho começa do outro lado.

Torne-se o céu.

Derrube com um machado as paredes da prisão.

Fuja. Caminhe para fora

como alguém que de repente nasceu em cores.

Faça-o agora.

Você está coberto por uma nuvem densa.

Deslize para o outro lado. Morra,

e fique quieto. A quietude é o sinal mais seguro

de que você morreu.

A sua antiga vida era uma corrida frenética

proveniente do silêncio.

A lua cheia silenciosa aparece agora.

DOIS DIAS DE SILÊNCIO

Após dias de festa, jejue.

Após dias de sono, fique desperto

por uma noite. Após esses tempos de amargos

contar histórias, fazer piadas ou sérias

considerações, deveríamos nos conceder

dois dias entre finas camadas de baklava,

na tranqüila reclusão onde a alma se adoça

e viceja mais do que com a linguagem.

O ESPÍRITO E O CORPO

Não supra seus dois lados igualmente.

O espírito e o corpo carregam fardos diferentes

e requerem diferentes cuidados.

Com muita freqüência,

colocamos alforjes em Jesus e deixamos o burro

correr solto no pasto.

Não permita que o corpo faça

o que o espírito faz melhor, e não coloque uma carga muito grande

sobre o espírito, quando o corpo poderia facilmente carregá-la.

A CASA DE HÓSPEDES

O ser humano é uma casa de hóspedes.

A cada manhã há uma nova chegada.

Uma alegria, uma depressão, uma torpeza,

alguma consciência momentânea chega

como um visitante inesperado.

Dê-lhes as boas-vindas e entretenha a todos!

Mesmo que eles formem uma multidão de sofrimentos,

que violentamente varrem a sua casa

vazia de seus móveis, ainda assim,

trate cada hóspede com honradez.

Pode ser que ele o esteja desocupando

para que entre um novo deleite.

O pensamento sombrio, a vergonha, a malícia,

receba-os na porta sorrindo,

e convide-os a entrar.

Seja grato a todos os que chegam,

porque cada um deles foi enviado

do outro mundo como um guia.

ABANDONO

Verifique sempre o seu estado interior

Com o senhor do seu coração.

O cobre não sabe que é cobre,

Até que se transforme em ouro.

O seu lado amoroso não conhece a sua majestade,

Até que reconheça o seu abandono.

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O Amor tece todo o Universo. Tapete oriental (Banco de Imagens).

POESIAS

O que é o Amor....Voltar para o Índice

São Paulo

Ainda que eu fale todas as línguas,

dos homens e dos anjos,

se eu não tiver o amor serei apenas

um bronze que ressoa,

um címbalo que retine.

Ainda que possua o dom das profecias

e conheça todos os mistérios,

que saiba todas as ciências,

ainda que eu alcance um tal grau de fé

que me torne capaz de remover montanhas,

se eu não tiver o amor,

não serei nada.

Ainda que eu reparta todos os meus bens,

entre os pobres,

e deixe então o fogo consumir meu corpo,

nenhum proveito tiro,

se eu não tiver o amor!

O amor é paciente,

o amor é bondoso,

não é nada invejoso,

arrogante,

orgulhoso.

Jamais é descortês

e nunca interesseiro.

Não se irrita,

nem guarda rancor no coração.

Detesta a injustiça,

gosta da verdade.

Tudo desculpa,

tudo crê,

tudo espera,

tudo suporta.

O amor não terá fim;

as profecias sim.

As línguas se calarão

E as ciências têm seu termo.

Imperfeito é o nosso conhecimento

e também as profecias.

Mas quando vier o que é perfeito,

O que é imperfeito desaparecerá.

Quando eu era criança,

falava como criança,

pensava como criança,

como criança raciocinava.

Homem feito, me despojei dos atributos de criança.

Por enquanto,

enxergamos obliquamente,

por um espelho.

Mas, um dia,

Nós teremos a visão

– de face a face.

Por enquanto,

conheço apenas uma parte.

Mas logo o conhecerei,

como sou por ele conhecido.

Temos agora

a fé,

a esperança,

o amor.

Mas, dos três, o mais excelente

É o amor.

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A Alma na beatitude do Amor Divino.

Sant’Ana. Leonardo da Vinci (1501).

CONTOS

O Hino da Pérola....Voltar para o Índice

(Bardesanes, poeta do gnosticismo cristão do século II)

Quando eu era criancinha, demasiado novo para falar, e morava no Reino da Casa de meu Pai, deleitando-me na riqueza e no esplendor daqueles que me nutriam, meus pais me enviaram do Oriente, nosso lar, em missão, equipado com suprimentos para a jornada. Deram-me um grande carregamento da abundância de nossos tesouros, mas leve, para que eu pudesse carregá-lo sozinho.

A carga consistia de ouro das terras altas, prata dos grandes tesouros, jóias de esmeralda da Índia e ágatas de Kushan. E revestiram-me de diamantes. Retiraram-me a veste cravejada de jóias e adornada de ouro, feita para mim por amor, e o manto de púrpura, confeccionado na minha exata medida.

E fizeram um pacto comigo, gravando-o em meu coração para que eu não o esquecesse: “Se fores ao Egito e trouxeres a pérola que lá se encontra no meio do mar, envolta pela serpente voraz, colocarás outra vez tua veste incrustada de jóias e, sobre ela, o manto que tanto aprecias – e serás herdeiro do Reino, juntamente com teu irmão, o segundo em nossa hierarquia”.

Deixei o Oriente e parti, acompanhado de dois guias, pois o caminho era difícil e perigoso e eu era jovem para tal viagem. Atravessei as fronteiras de Maishan, o lugar de encontro dos mercadores orientais, cheguei à Terra de Babel e entrei pelas muralhas de Sarbug. Continuei e, chegando ao Egito, meus acompanhantes separaram-se de mim.

Incontinenti procurei a serpente, estabelecendo-me próximo de sua morada, aguardando a ocasião em que, sonolenta, ela adormecesse, para então tirar-lhe a pérola. Como estava sozinho e me mantinha à parte, meus companheiros de hospedaria me consideravam estranho. Entretanto, lá encontrei um homem livre, meu parente da terra da Alvorada, um jovem formoso e bem favorecido, filho de Nobres. Ele veio e se juntou a mim.

Fi-lo o parceiro predileto de minhas jornadas. Como companheiro constante e fiel, alertou-me sobre os egípcios, que evitasse misturar-me com os impuros. Eu me vestira como eles, para que não imaginassem que eu era estrangeiro, vindo de longe para apossar-me da pérola; assim, não incitariam a serpente contra mim. Por alguma razão, contudo, eles souberam que eu não era do país. Com artimanhas, vieram a mim e ofereceram-me seus alimentos. Ao prová-los, olvidei que era filho de Rei e tornei-me servo de seu rei. Esqueci completamente a pérola pela qual meus Pais me haviam enviado e, pesado por ter-me nutrido com seus víveres, mergulhei em profundo sono.

Meus Pais percebiam tudo o que estava acontecendo, e ficaram ansiosos. Fez-se então uma proclamação no Reino: que todos se apresentassem rapidamente no Pórtico. Os reis e chefes de Partia e todos os fidalgos do Levante decidiram que eu não deveria ficar no Egito. Escreveram-me uma carta, que todos os Nobres assinaram: “Da parte de teu Pai, o Rei dos Reis, de tua Mãe, Senhora do Levante, e de nosso segundo, teu irmão, ao nosso filho no Egito, saudações! Acorda e desperta de teu sono. Ouve as palavras de nossa mensagem! Lembra-te de que és filho do Rei; vê a quem serves em tua escravidão. Pensa outra vez sobre a pérola, a razão de tua viagem ao Egito. Recorda tua veste gloriosa e o esplêndido manto; que possas outra vez vesti-los e usá-los como ornamentos, que teu nome possa ser lido no Livro dos Heróis e, com nosso sucessor, teu irmão, sejas herdeiro em nosso Reino.”

A carta, que o Rei lacrara com a mão direita, era como um mensageiro contra a ameaça dos filhos de Babel e dos rebeldes demônios do Labirinto. Ela voou em forma de águia, a rainha de todas as aves; voou até pousar ao meu lado, transformando-se em um discurso inteiro. Com sua voz e o som de suas asas, levantei-me, despertando do sono profundo. Tomei-a, beijei-a, parti o lacre e li. As palavras da carta eram redigidas como as que estavam inscritas em meu coração.

Lembrei-me naquele momento de que eu era filho de Rei e que minha alma, nascida livre, tinha saudade dos que tinham a mesma natureza. Recordei-me da pérola, pela qual fora enviado em missão ao Egito. E comecei a cativar a terrível e ruidosa serpente. Encantei-a para dormir, cantando para ela o nome de meu Pai, o nome de nosso segundo e o de minha Mãe, a Rainha do Oriente.

Apoderei-me, então, da pérola e parti em direção à casa de meu Pai. Retirei as vestimentas sujas e impuras, deixando-as em seu país de origem. Dirigi-me para o caminho pelo qual havia vindo, a estrada que leva à Luz de nossa casa, o Oriente. No caminho, encontrei diante de mim a mensagem que tinha me despertado. E assim como ela me acordara com sua voz, agora me orientava com sua luz que brilhava à minha frente; com a voz vencia meu temor, e com seu amor me conduzia. E segui adiante... Vislumbrava, às vezes, a roupagem real de seda, reluzindo diante de mim. Continuei: passei pelo Labirinto, deixei a Terra de Babel à esquerda e cheguei a Maishan, o lugar de encontro dos mercadores, que se localiza na costa.

Meus pais mandaram-me a Veste de Glória que eu tinha despido e o Manto que a cobria. Enviaram-nos das alturas de Hyrcânia, pelas mãos de seus distribuidores de tesouros, a quem os haviam confiado por serem leais. Não me lembrava de seu esplendor, era ainda criança quando deixara a Casa de meu Pai. Ao vê-la, imediatamente a Veste pareceu-me a imagem de mim mesmo.

Apreendi nela todo o meu ser e, por meio dela, me reconheci e percebi. Pois, mesmo sendo originários da mesma Unidade, estávamos parcialmente divididos e, no entanto, éramos também Um em semelhança. Vi ainda que, embora os tesoureiros que me trouxeram a Veste do Alto fossem dois seres, havia uma única forma em ambos, um único símbolo real consistindo de duas metades. Portando meu dinheiro e minha riqueza em suas mãos, eles me entregaram a recompensa: a gloriosa veste reluzente, enfeitada com brilhante esplendor de cores – com ouro, pérolas e também pedras preciosas de diferentes matizes. Para realçar sua grandeza, era cravejada de diamantes. Além disso, a Imagem do Rei dos Reis estava inteiramente estampada nela; safiras tinham sido afixadas na gola, produzindo um lindo efeito.

Percebi que movimentos de gnosis abundavam em toda a sua extensão, e que estava se preparando como que para falar. Ouvi o som de sua música, que sussurrava ao descer: “Eu sou a que pertence àquele que é mais forte do que todos os seres humanos e para o qual fui designada pelo próprio Pai”. E percebi como minha estatura aumentava com sua atividade.

E agora, com movimentos reais, ela vinha em minha direção, nas mãos de seus doadores, como que apressada para que eu a tomasse. De minha parte também, meu amor instava-me a correr ao seu encontro e vesti-la. Estendi-me para recebê-la; envolvi-me em sua beleza matizada e cingi-me com o manto de cores resplandecentes. Assim trajado, ascendi ao Portal das Boas Vindas e da Reverência. Inclinei a cabeça e prestei homenagem à glória do Pai que a havia enviado, cujas ordens eu cumprira e que, de sua parte, também cumprira sua promessa. Ele me recebeu com alegria, e com Ele permaneci no Reino. Todos os súditos cantavam hinos com voz reverente. Tive também a permissão de, em sua companhia, comparecer diante do Rei com a pérola.

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É preciso libertar a alma do jugo da serpente, para que ela possa retornar ao seio do Eterno. J. Böhme (1730).

Revelações....Voltar para o Índice

Rabindranath Tagore

Cada criança, ao nascer, nos traz a mensagem de que Deus não perdeu a esperança nos homens.

A noite abre as flores em segredo e deixa que o dia receba os agradecimentos.

O homem mergulha na multidão para afogar o grito de seu próprio silêncio.

A falta de amor é um grau de imbecilidade, porque o amor é a perfeição da consciência.

Transformai uma árvore em lenha que ela arderá; mas, a partir de então, não dará mais flores, nem frutos.

Que é isto que aperta meu peito? Minha alma quer sair para o infinito ou a alma do mundo quer entrar em meu coração?

Eu dormia e sonhava que a vida era alegria. Despertei e vi que a vida era serviço. Servi e aprendi que o serviço era alegria.

Quando lanço a rede para apanhar as melhores coisas da vida, estas me escapam, não sei para onde... Quando a lanço em busca da virtude que forma a mim mesmo, são as coisas boas da vida que batem à minha porta.

O poder pode ser alcançado por meio do conhecimento; mas só o amor nos leva à perfeição.

As almas são como as velas, se acendem umas nas outras.

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As revelações vêm da profundidade de nosso ser. São João em Patmos. Ilustração de Gustave Doré.

JOGOS

Quadrados Mágicos....Voltar para o Índice

Fixe seus olhos

Quadados Mágicos.eps

Fixe seus olhos no texto abaixo e deixe que a sua mente

leia corretamente o que está escrito.

35T3 P3QU3N0 T3XTO 53RV3 4P3N45 P4R4 M05TR4R

COMO NO554 C4B3Ç4 CONS3GU3 F4Z3R CO1545 1MPR3551ON4NT35! R3P4R3 N155O! NO COM3ÇO 35T4V4

M310 COMPL1C4DO, M45 N3ST4 L1NH4 SU4 M3NT3 V41 D3C1FR4NDO O CÓD1GO QU453 4UTOM4T1C4M3NT3,

S3M PR3C1S4R P3N54R MU1TO, C3RTO? POD3 F1C4R

B3M ORGULHO5O D155O! SU4 C4P4C1D4D3 M3R3C3!

P4R4BÉN5!

JOGOS

Respostas....Voltar para o Índice

ESTE PEQUENO TEXTO SERVE APENAS PARA MOSTRAR COMO NOSSA CABEÇA CONSEGUE FAZER COISAS IMPRESSIONANTES! REPARE NISSO! NO COMEÇO ESTAVA MEIO COMPLICADO, MAS NESTA LINHA SUA MENTE VAI DECIFRANDO O CÓDIGO QUASE AUTOMATICAMENTE, SEM PRECISAR PENSAR MUITO, CERTO? PODE FICAR BEM ORGULHOSO DISSO! SUA CAPACIDADE MERECE! PARABÉNS!

Quadrados mágicos

Quadados Mágicos.eps

CRÉDITOS....Voltar para o Índice

SER

O periódico do Grupo Gurdjieff São Paulo

Janeiro 2009

Editores

Paulo A. S. Raful e Lauro de A. S. Raful

Coordenação Geral

Carmem Sílvia de Carvalho

Maria Aparecida Ramos De Stefano

Comitê executivo

Carmem Sílvia de Carvalho

Maria Aparecida Ramos De Stefano

Heloísa Margarido

Renato Batata

Elisa Yoshimura

Projeto Gráfico

Ana Belizário

Editoração Eletrônica

Mauricio Nisi Gonçalves

Tratamento de Imagens

Renato Batata

Escaneamemnto de Imagens

Heloísa Margarido

Tradução dos textos tradicionais

Maria Aparecida Ramos De Stefano

Revisão de textos

Maria Eugênia da Rocha Nogueira

Transcrição das entrevistas

Elisa Yoshimura

Heloísa Margarido

CAPA

Carta do Tarot: “O Louco” (adaptação eletrônica de Renato Batata)

4a CAPA

A roda da vida (adaptação eletrônica de Renato Batata)

Colaboração: imagens e livros raros

Ilda Soban

Impressão e acabamento

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© Copyright

Paulo A. S. Raful e Lauro de A. S. Raful

Editora Esoatenca

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